Restrições em feriadão emergencial no Estado do Rio não será efetivo se for apenas para capital, dizem infectologistas

Gilberto Porcidonio
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RIO — Criado com o objetivo de frear os números dos casos de Covid-19 no estado do Rio de Janeiro, o feriadão durante os dias 26/03 e 29/03 a 01/04 só será efetivo se tiver a plena participação de todos os municípios do estado. Para isso, a forma mais efetiva seria a criação de barreiras sanitárias para evitar que as pessoas, principalmente da capital — que segue sendo o epicentro da pandemia no estado — saiam para outras regiões neste período emergencial.

Presidente da Sociedade de Infectologia do Rio de Janeiro, a infectologista Tania Vergara aponta que os resultados efetivos desta restrição só aparecerão após os 10 dias do feriado prolongado. Para isso, é preciso saber quem é que irá fiscalizar as ruas e se os estabelecimentos estão cumprindo as medidas. De acordo com a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop), a vigilância para isso estará sendo feita em todos os locais tidos como focos de aglomeração, como as praias e as estações do BRT. Porém, para a médica, isso não será o suficiente:

— Se as cidades do entorno não fecharem, nada disso vai resultar muito. Hoje, a Ponte Rio-Niterói estava cheia de gente indo para a Região dos Lagos. As cidades do estado tinham que fazer as suas barreiras sanitárias. Não adianta ser só de um lado.

Tania também alerta que o ideal, após este momento, é que o percentual de leitos ocupados esteja em torno de 70%. Porém, para isso, é preciso que todas pessoas cumpram as restrições à risca:

— Nós estamos a um passo de precisar fechar tudo, pois não tem estrutura hospitalar que aguente estar com 90% dos leitos ocupados e nós estamos com mais de 90% no Rio. Isso não pode, pois não dá para colocar paciente em beliche. Em torno de 70% de ocupação, se tem uma certa segurança.

O infectologista Ricardo Igreja também observa como é que a falta de um comando único entre as cidades fluminenses pode, sim, influenciar negativamente na eficácia deste feriado prolongado emergencial.

— Uma outra coisa são os jogos de futebol, que as pessoas afirmam que faz as pessoas ficarem em casa, mas que ninguém fica. Eu acho de uma faltade sensibilidade muito grande manter os jogos, que não tinham que acontecer no estado inteiro — analisa o médico. — Vi que vai ter jogo em Nova Iguaçu, da Copa do Brasil, por exemplo e provavelmente os jogadores vão ficar hospedados aqui no Rio. O estado tinha que se comprometer a fazer essas barreiras sanitárias.

Para Ricardo, também é preciso perceber que as pessoas que se infectaram entre 10 e 15 dias e que, caso evoluam para a forma grave da doença, poderão ir para os CTIs dentro deste período de interdição. Por isso, os resultados deste feriado só poderão ser realmente sentidos, de fato, após o término dele. Porém, o período de emergência deveria ser maior do que 10 dias.

— Em Portugal e Alemanha, por exemplo, o fechamento já dura vários meses, mas lá eles tem contrapartida, pois é preciso que ter condições para que essas pessoas fiquem em casa.

Sobre as confusões que as leis da prefeitura e do governo do Estado têm gerado entre os cariocas, o infectologista afirma que a norma de se manter a medida mais restritiva é válida, mas que deveria ser ainda mais específica:

— Na praias, a vantagem de se liberar a areia para atividades individuais seria dispersar a aglomeração no calçadão, mas assim também se piora no controle. Então, é melhor restringir tudo mesmo. Na Austrália, quem podia pegar onda tinha que entrar em apenas um canto da praia específico e só naquele ponto. Aqui fica muito difícil de se fazer isso. É melhor que a fiscalização guarde força para outras coisas.