Restringir voos do Reino Unido para o Brasil seria prudente, diz virologista sobre nova mutação do coronavírus

Johanns Eller
·5 minuto de leitura
Acervo pessoal

RIO — Depois que um estudo publicado na revista científica New England Journal of Medicine concluiu que a variante do novo coronavírus detectada na Inglaterra, batizada de B.1.1.7, é mais infecciosa do que as versões anteriores do Sars-CoV-2, governos da Europa e das Américas anunciaram restrições a voos e viagens ao Reino Unido. A disseminação acelerada de casos relacionados à mutação elevaram o grau de urgência, embora especialistas alertem para a necessidade de cautela.

Flávio Guimarães da Fonseca, virologista do Centro de Tecnologia de Vacinas (CT Vacinas) e pesquisador do Departamento de Microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), reforça que o lockdown na Inglaterra pode ser capaz de frear a disseminação da B.1.1.7 fora do Reino Unido e que mutações como a observada pelos britânicos são esperadas em vírus de RNA. O monitoramento atento, no entanto, se faz necessário para acompanhar seus possíveis efeitos.

Fonseca acredita que o Brasil seria prudente em seguir o caminho de restrições como as adotadas pelos vizinhos Argentina, Chile, Colômbia e Peru, mas somente se acompanhadas de políticas similares para nações com altos índices de incidência da Covid-19, como a Bélgica e os Estados Unidos. Do contrário, o país continuaria exposto não apenas a pessoas potencialmente contaminadas com a nova variante como também sujeito ao crescimento de casos da doença através de novos vetores do vírus em território nacional.

Na última quinta-feira, uma portaria publicada em edição extraordinária do Diário Oficial da União (DOU), válida para brasileiros e estrangeiros, definiu que quem desejar ingressar no Brasil a partir do exterior precisará apresentar um teste de RT-PCR realizado até 72 horas antes do embarque. A medida, no entanto, só entrará em vigor a partir do dia 30 de dezembro, após o período do Natal. Além disso, embora seja o teste mais preciso para diagnóstico da Covid-19, o modelo molecular pode apresentar imprecisões na janela definida pelo governo.

Diversos países decidiram restringir o trânsito de pessoas que deixam o Reino Unido para tentar conterjnova variante do vírus. É possível contê-la?

As medidas de prevenção que já existem são eficazes (para contê-la), desde que façamos direito. O vírus só se mostra mais infeccioso depois que entra no organismo. Evitar aglomerações, usar máscaras em público e seguir o distanciamento social quando for possível são medidas adequadas para conter a nova variante e as antigas. Na Inglaterra, o lockdown não é novidade. Eles sabem que a estratégia foi eficiente para finalizar a primeira onda e funcionará dessa forma com a nova variante, e que foi aceita pela população. As novas medidas não ocorreram somente por conta da nova variante, mas também pelo aumento de casos.

Mas o senhor vê exagero, já que o vírus circula há alguns meses?

É inevitável que, quando há a notícia de uma nova vcomo um vírus mais infeccioso, as medidas sejam proporcionais ao rótulo. Tenho certeza que a intensidade dessas medidas está acompanhando a sensação de pânico. Essa nova variante surgiu em fevereiro, não é nova, mas se tornou prevalente.

Com o tempo, ela foi selecionada por ter uma vantagem em relação ao vírus original. Isso é normal na evolução viral. Portanto, não acho um exagero. Dentro de um conjunto de medidas possíveis e eficazes, limitar o trânsito de pessoas de um país onde há um acentuado número de casos e uma prevalência (de uma nova variante) em ascensão faz parte do rol de possibilidades.

Seria prudente adotar medida similar no Brasil?

Seria prudente. Se o problema é grave para outros países, é para a gente também. O que é incongruente é adotar restrições com a Inglaterra e permitir que visitantes de outros países com alta de casos, como a Bélgica e os Estados Unidos, venham para cá. Seria uma ação isolada que interferiria pouco se não houver uma ação mais congruente e ampla, que formassem uma política de fato brasileira.

Dentro do que já se sabe sobre a nova mutação, há motivo para alarde?

Eu acho que precisamos ser cuidadosos. Vivemos um momento muito propenso à exacerbação de fake news. Não é a primeira vez em que registramos uma mutação do coronavírus. Há notícia de outras variantes surgidas na Espanha e na Itália anteriormente. Os vírus são naturalmente mutantes, faz parte de sua evolução, principalmente os de de RNA (caso do novo coronavírus). Embora o SARS-CoV-2, diferentemente da maioria deles, seja mais estável por conta de um mecanismo que o protege de mutações.

A preocupação precisa existir na medida em que te coloque em uma situação pró-ativa. É importante mantermos o monitoramento do surgimento dessas novas variantes. Eventualmente uma delas pode ser grave.

O que chama a atenção na variante B.1.1.7?

Uma coisa que temos que reforçar sempre é que encontrar mutações entre vírus é um fenômeno absolutamente normal. Vivemos isso todo ano com o vírus influenza, por isso precisamos tomar vacina todo ano. O novo coronavírus não muda com essa intensidade toda. A nova variante tem dois aspectos importantes: parece que ela de fato confere ao vírus a capacidade de ser mais infeccioso, de se espalhar mais eficientemente.

Um estudo importante foi publicados na New England Journal of Medicine, uma respeitada revista. Fizeram experimentos em animais e humanos, compararam com dados e concluíram que há uma capacidade de se espalhar mais. Por outro lado foi verificado que não foi capaz de provocar doenças mais graves do que as variantes anteriores. O ponto é sempre o equilíbrio: precisamos estar atentos e agir de forma pró-ativa ao surgimento dessas novas mutações.

Especialistas têm ponderado que a mutação dificilmente afetará vacinas. Mas e nossa imunidade?

Ainda há muitas lacunas. Não entendemos ainda a própria imunidade ao Sars-CoV-2. É difícil tirar conclusões acerca da imunidade relacionada ao coronavírus. Existe uma subnotificação muito grande no mundo inteiro, imaginamos que a taxa seja na ordem de 90%, ou seja, apenas 10% dos casos seriam notificados. Teríamos 800 milhões de infectados. Ainda assim, teríamos teoricamente um contingente populacional (sem anticorpos) muito amplo para considerar imunidade de rebanho como limitante (a população mundial é de 7,7 bilhões).

Claro que a imunidade de rebanho é determinante para que a gente consiga bloquear a transmissão, mas os vírus são organismos tão bem adaptados que são capazes de explorar qualquer falha nessa imunidade. A Espanha, por exemplo, foi muito afetada na primeira onda e voltou a apresentar uma alta de casos na segunda. Não sabemos ainda se o Sars-CoV-2 nos afetará de forma sazonal como os outros coronavírus.