Resultado da pesquisa seria outro se eleitor soubesse que Haddad é o candidato de Lula

FOTO: RICARDO STUCKERT/DIVULGAÇÃO
Yahoo Brasil

O resultado da pesquisa Datafolha, instituto que ouviu mais eleitores entre os levantamentos divulgados na terça-feira, 21/08, talvez fosse outro se Fernando Haddad, do PT, fosse apresentado com um parêntesis: “candidato do Lula”.

O ex-prefeito de São Paulo tem apenas 4% das intenções de voto no cenário mais provável até outubro, mas apenas 17% dos eleitores sabem que ele é o cara do ex-presidente.

Preso em Curitiba, Lula não apenas lidera a corrida no primeiro turno (39%); é o maior cabo eleitoral da disputa. Três em cada dez entrevistados pelo instituto dizem que votariam no candidato apoiado por Lula; 18% dizem que talvez.

É o suficiente para garantir um lugar no segundo turno. Haddad, porém, é um nome ainda desconhecido de 41% dos eleitores e o tempo de campanha é curta.

Há quatro anos, Dilma Rousseff vencia uma eleição apertada subindo de mãos dadas com Lula no palanque; hoje sua presença é um anúncio de apoio por cartas.

A aposta em Haddad é ainda de alto risco, mas chama a atenção o crescimento de Lula nas pesquisas após sua prisão. Deixo para os cientistas políticos alguma explicação racional para o fenômeno.

Embora central, a incógnita sobre o candidato petista, seja ele quem for, é até aqui um dos poucos fatores de desequilíbrio em um cenário que parece consolidado em relação aos últimos levantamentos.

Jair Bolsonaro (PSL), líder no cenário sem Lula, não terá mais exposição do que tem hoje quando a campanha começar. Estacionou na casa dos 20% e sua rejeição já chega a 39%. Pode até chegar ao segundo turno, mas nesta etapa perderia para Lula (52% a 32%), Marina Silva (45% a 34%), Geraldo Alckmin (38% a 33%) e Ciro Gomes (38% a 35%).

O capitão da reserva bateria apenas o (ainda?) desconhecido Fernando Haddad: 38% a 29%.

Nos cenários sem Lula, Marina Silva pula de 8% para 16% e Ciro Gomes, de 5% para 10%. Ou seja: dobram as projeções. Isso fatalmente vai pautar o discurso dos dois candidatos, que se digladiarão pelos votos que inicialmente seriam direcionados ao petista.

Detalhe importante: sem o ex-presidente, dobra também o número dos “sem candidato”. De 14% para 28%. O herdeiro dos votos lulistas terá que ganhar o eleitor e convencê-lo a sair de casa para votar caso o nome de seu candidato não esteja na urna eletrônica.

Outra grande incógnita apontada na pesquisa é sobre o tamanho do terreno que Geraldo Alckmin (PSDB) terá para crescer quando a campanha na TV começar, em setembro.

Com mais tempo de exposição, ele precisará de um duplo twist carpado. Hoje, o ex-governador paulista tem 6% dos votos nos cenários com Lula e 9% nos cenários sem ele. O tucano está em quarto lugar na corrida, e há mais gente indecisa ou disposta a votar em branco ou anular do que a votar nele.

A dificuldade é exemplificada pelo desempenho nas regiões que historicamente apoiam o PSDB. Ele tem apenas 6% dos votos no Sul (Alvaro Dias, do Podemos, tem 13%) e 12% no Sudeste.

No segundo turno, porém, ele atualmente só perderia para Lula (53% a 29%), que deve ter a candidatura barrada pela Justiça Eleitoral, e Marina Silva (41% a 33%), que tende a sumir quando a propaganda da TV começar.

Eis o resumo de uma eleição com pé no surrealismo: hoje “azarão”, Alckmin passa a ser o grande favorito se chegar ao segundo turno. Difícil é chegar.