Retaliação move tropa de choque de deputado que apalpou colega em SP

CAROLINA LINHARES E GÉSSICA BRANDINO
·6 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Wellington Moura (Republicanos), Alex de Madureira (PSD), Estevam Galvão (DEM), Adalberto Freitas (PSL) e Delegado Olim (PP). A tropa de choque que defendeu Fernando Cury (Cidadania) na Assembleia Legislativa de São Paulo, formada por deputados da base do governo João Doria (PSDB), tem pastores, delegado e até um ex-petista. Na última sexta (5), os cinco votaram por abrandar a punição do colega que apalpou Isa Penna (PSOL) no plenário. Em vez dos seis meses de suspensão defendidos pelo relator Emidio de Souza (PT), Maria Lúcia Amary (PSDB), Barros Munhoz (PSB) e Erica Malunguinho (PSOL), venceu a proposta de 119 dias de afastamento, o que permite a Cury manter seu gabinete em funcionamento. Os parlamentares, de perfil conservador, afirmam que Cury errou, sim, e que lhe deram punição devida --mas também agem com viés de retaliação à deputada. O resultado vai a votação no plenário, onde Isa acredita ser possível pleitear a cassação. Deputados próximos a Cury creem que não cabe modificar a pena. Nesta quinta (11), o presidente da Casa, Cauê Macris (PSDB), deu seguimento à tramitação levando o caso ao conselho, responsável por elaborar o projeto de resolução a ser votado. Pesaram no resultado a ausência, por licença médica, de Campos Machado (Avante), favorável a maior punição, e a mudança de posição de Estevam, que não é membro do Conselho de Ética, mas participa como corregedor parlamentar. A oposição vê manobra governista, já que Estevam havia concordado, em reunião com Barros, Emidio e Amary, com a pena de seis meses, mas o deputado e outros envolvidos negam ter havido pressão. Há outras variáveis que explicam a derrota de Isa, como a tese de que funcionários de Cury não podem ser punidos e de que a suspensão de seis meses poderia ensejar cassação futura. Acima de tudo, porém, aliados da deputada veem falta de boa vontade dos membros do colegiado com ela especificamente. Ouvidos pela reportagem, alguns deputados lembraram comportamentos de Isa que julgam inapropriados, como vídeos em que ela dança funk e rebola em redes sociais e a leitura do poema "Sou puta, sou mulher", de Helena Ferreira, na tribuna em 2019. O caso também chegou ao Conselho de Ética, com Olim, Alex e Moura votando por uma advertência a Isa, enquanto a maioria votou pelo arquivamento. A deputada é militante feminista, usa camiseta com os dizeres "Lute como uma garota" para ir à Assembleia e é do tipo que entra em embates. Durante uma sessão virtual do conselho, chegou a exibir um cartaz "machistas", exaltando os ânimos dos deputados. Se nada disso deveria interferir na votação, o entendimento de parte dos deputados, segundo afirmaram à reportagem, foi o contrário --de que o conjunto da obra estava em jogo. "A deputada desde que entrou é uma pessoa provocativa, quer estar na mídia", diz Freitas. "Ela não respeita as pessoas. Se a pessoa quer respeito, ela tem que respeitar", afirma sobre o poema. "A conduta da Isa é diferente daquilo que eu defendo como valores. Mas é a vida dela, ela faz o que ela quiser. Ela apagou das redes sociais os vídeos dançando e sensualizando. Quis passar imagem de boa moça. O contraponto disso é o deputado Cury, conheço ele, a esposa, os filhos", disse Alex. Isa afirma não ter apagado os vídeos, que eram stories do Instagram. Alex diz que ele e os colegas estão "apanhando pela sua posição", mas que "as pessoas precisam respeitar as opiniões" e que há diferentes ideologias na política. "A deputada não está 100% correta. Não está preocupada em perdoar, mas em aumentar o ódio no coração dela com os homens. Nunca tive problema com a Isa, só que ela não pode fazer do que aconteceu um trampolim para crescer politicamente", diz Moura. Já Olim diz que "gosta do jeito dela, bem polêmica". Seu voto, afirma, seria pelos seis meses de punição, mas mudou por não concordar com a reunião dos demais, que chamou de "conluio". De Piracicaba (SP), Alex, 45, está no primeiro mandato e é pastor da Assembleia de Deus. É autor de projeto de lei contra o abandono de animais e contra venda de álcool em terminais de ônibus. Veterano, Estevam, 78, exerce o quinto mandato. Nos anos 70, foi vereador pela Arena, partido de apoio ao regime militar. Como deputado federal, votou pelo candidato da ditadura, Paulo Maluf, que acabou derrotado por Tancredo Neves. Foi prefeito por quatro vezes de Suzano, sendo a passagem mais recente de 1997 a 2004. Responde a três ações por improbidade administrativa, uma delas com condenação em 2015 em primeira instância por atrasos que elevaram o custo de construção de uma escola. Estevam afirmou que votou na punição mais branda pois seria "desumano gerar desemprego [aos funcionários de Cury] na pandemia". "Tenho uma história política bonita, de seriedade e honestidade. Tenho muitas leis excelentes, importantes", afirma, destacando prêmios recebidos. "Acredito que existe o amor de Deus dentro de você. Para você, neste momento, aprender a perdoar", disse Moura a Isa na última sessão. Deputado pelo segundo mandato e nascido em Santos (SP), Moura, 42, é pastor da Igreja Universal e vice-líder do governo Doria. "Não estou fazendo papel de pastor, estou fazendo papel de cristão. Estou lá como julgador", afirmou. Ele é autor de projeto de lei para proibir a "ideologia de gênero" nas escolas e foi autor da CPI para investigação de repasses de verbas às universidades públicas. No âmbito da CPI, Moura diz ter identificado supersalários e desvios. Tem 18 leis aprovadas, a maioria estabelece datas festivas. Mas ele destaca a que proíbe a venda de bebidas alcoólicas em postos de gasolina. Suas contas na eleição de 2018 foram reprovadas, e Moura agora tem que pagar uma multa de R$ 21,5 mil devido a recursos de origem não identificada, gastos irregulares pagos com fundo partidário e multa por recursos protelatórios. Sua campanha foi a mais cara entre os cinco --R$ 922 mil. "A deputada Isa Penna se manifestou lá de forma a nos ameaçar", disse Freitas na sessão da última sexta sobre mensagens de Isa no chat. Por diversas vezes, Freitas expressou a bronca com a deputada por ela ter lhe enquadrado no plenário a respeito de seu voto e por ter respondido a ele com ironia: "não sabia que o deputado era tão sensível, da próxima vez vou falar com mais carinho". Deputado de primeiro mandato, Freitas, 60, foi eleito na onda bolsonarista, mas hoje se diz 50% fiel ao presidente --decepcionado com a falta de combate à corrupção e o desincentivo às máscaras. Foi membro do PT e deixou o partido para fundar o PSOL, mas se afastou da esquerda. Empresário de Itupeva (SP), teve aprovada a lei que institui a Semana de Conscientização da Síndrome Pós-Pólio. Chegou a ser denunciado pela ex-mulher por injúria e ameaça no âmbito do divórcio, mas diz ter revertido a ação para apontar calúnia dela. Também foi alvo do Conselho de Ética por ter intimidado a deputada Professora Bebel (PT) ao afirmar que tinha funcionários armados em seu gabinete. "Hoje convivo pacificamente com minha ex-mulher e sou amigo da Bebel. Pedi desculpas à deputada, isso está superado", diz. Delegado desde os 34 anos, Olim, 62, está no segundo mandato e ficou conhecido por investigar o caso Mércia Nakashima. Entre os cinco deputados, foi o mais votado com 161 mil eleitores. A maior parte de seus projetos trata de denominações ou classificação de cidades como turísticas, mas também aprovou assistência jurídica gratuita a policiais e tem projetos para crianças com deficiência. "‹Chegou a ser investigado por tortura, após relatos de agressões de uma pessoa suspeita de manter um cativeiro, mas não houve comprovação e o caso foi arquivado. "Não fomos nem processados. Fiquei 14 anos com essa dor de cabeça", disse.