Retomada das operações do gasoduto Nord Stream: "as sanções fazem muito mal à Rússia", diz pesquisadora

REUTERS - HANNIBAL HANSCHKE

O gasoduto Nord Stream, que liga a Rússia à Alemanha, retomou as operações nesta quinta-feira (21) após dez dias de manutenção que reduziu 40% das entregas do produto. O governo alemão temia que o gasoduto não fosse reaberto por Moscou após o período de reparos, que começou em 11 de julho. No entanto, para uma especialista, a Rússia "precisa de dinheiro".

"Funciona", disse um porta-voz da empresa Nord Stream, sem especificar a quantidade de gás que voltou a ser fornecida. A empresa se comprometeu a divulgar os dados posteriormente.

De acordo com os dados comunicados pela Gazprom à Gascade, operadora de rede alemã, o gasoduto deverá repassar 530 GWh durante o dia, o que é equivalente a apenas 30% de sua capacidade, destacou no Twitter o presidente da Agência Alemã de Redes, Klaus Müller.

Esse volume seria dez pontos percentuais menor do que antes das obras. Citando a ausência de uma turbina em manutenção no Canadá, a Gazprom reduziu sua capacidade de fornecimento através do Nord Stream para 40% em junho.

A gigante russa afirmou que não poderia garantir a retomada do fornecimento integral do gasoduto, alegando a ausência de uma turbina necessária para operar uma estação de compressão. Berlim argumentou que era apenas um "pretexto" para justificar decisões políticas.

No entanto, para a pesquisadora Christine Dugoin-Clément, do think tank CAPE Europe, isso é prova de que "as sanções fazem muito mal à Rússia". Em sua opinião, uma interrupção total do fornecimento do produto é pouco provável, porque implicaria em "grandes problemas", como um "risco de corrosão das tubulações", explicou em entrevista à FranceInfo.

UE teme insuficiência de abastecimento no inverno

Mesmo se o fornecimento voltar para 40% da capacidade do gasoduto, essa quantidade seria insuficiente para garantir o abastecimento a residências e empresas europeias durante o próximo inverno no hemisfério norte. Antecipando a escassez do produto, a Comissão Europeia propôs nesta quarta-feira (20) um plano para diminuir a demanda a curto prazo em 15%, denunciando a utilização do gás "como uma arma" pelo Kremlim. Nesta quinta-feira, Portugal indicou que não vai apoiar a proposta, que afirma que não está "adaptada para países que não estão interligados" à rede de gás.

"A Rússia explicou que a Gazprom quer manter esses contratos. A empresa precisa disso também para mostrar a outros clientes que continua sendo um fornecedor confiável. Mas, por outro lado, responde às sanções aplicadas pelos países ocidentais. É um jogo de enganação", avalia Dugoin-Clément.

Na Alemanha, principal cliente da Gazprom, a escassez poderia começar em fevereiro de 2023. O fim da entrega do gás russo ao país reduziria o valor do PIB alemão de maneira significaiva entre 2022 e 2024, calcula o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Decisões "políticas"

Para Berlim, as decisões da Gazprom sobre o fornecimento do produto são "políticas". O governo alemão acusa a Rússia de anunciar problemas no gasoduto como "pretexto". A gigante russa justifica os cortes com a necessidade de manutenção de uma turbina no Canadá. No entanto, de acordo com o presidente russo, Vladimir Putin, uma segunda turbina poderá necessitar de reparos na semana que vem, o que pode diminuir ainda mais a entrega de gás.

Nesta manhã, o Kremlim afirmou que as sanções impostas pelos ocidentais é que causam problemas técnicos na Gazprom. "São restrições que impedem a reparação de equipamentos, especialmente as turbinas nas estações de compressão", alegou o porta-voz do governo russo, Dmitri Peskov.

Para a pesquisadora do think tank CAPE Europe, a situação é "evidente". "Os efeitos a longo prazo foram mencionados nos primeiros dias de conflito [na Ucrânia] quando as medidas foram anunciadas. Há um tempo de espera até que os resultados sejam sentidos", ela acrescentou. "O objetivo era impedir a Rússia de continuar a financiar a guerra ou ao menos complicar essa tarefa, e é isso que começamos a ver."

No entanto, para a especialista, é ilusório esperar que a Rússia seja completamente bloqueada em nível internacional. "Os ocidentais não são o mundo inteiro e a Rússia não está tão isolada como desejaríamos", conclui.

(Com informações da RFI e da AFP)

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