Retomada desigual em São Paulo tem ônibus lotado na periferia e vazio em bairro rico

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Aos poucos, as ruas da cidade de São Paulo vão voltando a ter movimento semelhante ao visto antes da pandemia, com trânsito parado e ônibus lotados, conforme avança a vacinação e mais setores da economia vão reabrindo.

Os ônibus da capital paulista recuperaram boa parte dos passageiros perdidos, ainda que não tenham alcançado os níveis pré-Covid. Mas a lotação de algumas linhas de coletivos, enquanto outras seguem vazias, reflete a desigualdade da retomada.

Passageiros, motoristas, cobradores e fiscais de linha: todos confirmam aquilo que os números do portal da transparência da SPTrans indicam: ônibus que levam trabalhadores da periferia em direção à região central já recuperaram o movimento, enquanto alguns daqueles que rodam exclusivamente pelo centro expandido, nos bairros mais ricos, esvaziaram ainda mais na comparação com a metade do ano passado.

O professor Erick Souza, 22, conhece bem as duas realidades. Ele costuma sair do Campo Limpo (zona sul) para trabalhar na Vila Mariana, mas também circula de ônibus pela região central.

Na quarta-feira (11), aguardava a saída do 875H/10 - Lapa/Metrô Vila Mariana para chegar à avenida Paulista. Foi a única pessoa a embarcar no terminal, situação bem diferente de quando deixa o bairro da periferia. “Para vir para o trabalho, tenho que sair 10, 15 minutos mais cedo para poder viajar sentado”, conta.

A linha 917H/10 - Terminal Pirituba/Vila Mariana sai da plataforma ao lado, atravessa o rio Tietê, avança pela zona norte e tem uma situação completamente diferente do ônibus onde embarcou o professor —ganhou passageiros entre os meses de junho de 2020 e de 2021.

O motorista Wilson da Silva, 54, conta que, antes de cruzar a ponte dos Remédios em direção ao centro, pela manhã, o ônibus já está cheio. “O pessoal está voltando, principalmente no horário de pico. [Só] depois das 10h vai caindo [o movimento]”, diz.

Perto dali, a rua Tomás Carvalhal (zona sul) tem duas linhas com Metrô Paraíso no letreiro. A 857P/10 parte da periferia, do terminal Campo Limpo, e viu crescer o número de passageiros em um ano.

“Teve uma fase bem fraquinha, no começo da pandemia”, diz o motorista Wilson Mendes da Silva, 54, há 10 no mesmo trajeto. Ele conta que a situação começou a mudar. “Não lotou ainda como no passado, mas de manhã já enche bastante”, afirma. Silva lembra que a volta dos estudantes às aulas presenciais deve trazer ainda mais gente para o transporte.

Vizinha da 857P/10, a 877T/10 sai da Vila Anastácio, na região da Lapa, e cruza bairros de classe média e média alta da zona oeste. A linha praticamente esvaziou em um ano. “Foi por causa da pandemia. Tinha muita gente que trabalhava na Paulista”, afirma o motorista Ubiratã Pires, 59. A percepção dele é de que, nas suas viagens, o movimento caiu pela metade.

De forma geral, quem tem puxado a recuperação do número de passageiros são as grandes linhas, como a 917H/10 e 857P/10, que fazem longos trajetos e transportam 10 mil pessoas por dia, pelo menos. Elas levam um contingente formado principalmente por trabalhadores que trabalham em serviços essencialmente presenciais.

Pesquisa Datafolha publicada em julho mostra que 48% daqueles que estão em home office têm ensino superior e 49% ganham mais de dez salários mínimos. Na outra ponta estão quem que não faz teletrabalho —cerca de três quartos da população. Quase a totalidade (96%) tem até o ensino fundamental e 90% ganham até dois salários mínimos.

Além do fator home office, contribui para esvaziar as linhas do centro expandido o fato de que muitas universidades e colégios atravessaram o primeiro semestre sem aulas presenciais.

Especialista em transportes, Sérgio Ejzenberg apontou para essa diferença antes mesmo de ter os números consolidados pela reportagem. “Quem perdeu passageiro foram as linhas mais centrais, aquelas que fazem trajetos que não vão até a periferia. São pessoas que moram melhor, têm mais recursos e podem fazer o teletrabalho”, diz. “O pessoal que faz trabalho braçal, menos remunerado, usa o transporte das grandes linhas, com pressão maior de uso. E vai continuar assim”, afirmou.

Sobre as variações em geral, com a dificuldade para retomar o patamar de passageiros transportados no pré-pandemia, Ejzenberg afirma que nada será como antes. “Nunca mais vai voltar ao que era. O trânsito, a mobilidade, o transporte são consequências de outras coisas. Da atividade econômica, social e humana. Mudou para não ter volta”, afirmou. “A pandemia acelerou o que já iria acontecer em 10 anos. Aconteceu em 10 meses.”

Ejzenberg apontou o que deve ser a rotina de quem consegue trabalhar em casa e tem nível educacional e socioeconômico mais elevado. “Uma ou duas reuniões presenciais por semana, para trocar ideia, dar uma sensação de pertencimento, não no horário de pico. E volta para casa para produzir”, conta. “O uso do carro e do transporte público vai cair muito”, explica Ejzenberg.

SPTRANS

A Prefeitura de São Paulo, por meio da SPTrans, afirma que continua acompanhando e monitorando diariamente o deslocamento dos passageiros de ônibus na cidade com o objetivo de equilibrar a oferta e a demanda.

A prefeitura diz que estabeleceu como prioridade manter a oferta de transporte público acima da demanda de passageiros, em especial nas áreas mais afastadas. “Atualmente, a frota do sistema de transportes está em 93,41% nos bairros mais afastados do centro e em 88,28% em toda a cidade, para uma demanda atual de cerca de 64%”, diz, em nota.

A SPTrans afirma que adotou uma série de medidas preventivas em relação à Covid-19, como reforço na higienização dos veículos e nos terminais, inclusive com equipamento automatizado, além do uso obrigatório de máscara no interior dos coletivos, entre outras.

Os números do portal da transparência da SPTrans estão sujeitos também a revisões e atualizações.

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