O retorno dos árabes israelenses às urnas

Por Clothilde MRAFFKO, Joe Dyke
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Imagem de cartaz eleitoral em árabe em Nazaré do líder da coalizão árabe Ayman Odeh com o slogan "Um milhão de votos árabes, nossa unidade e nossa força", em 18 de setembro de 2019

"Um milhão de votos árabes, nossa unidade é nossa força". Na localidade israelense de Kfar Qassem, um grande cartaz lembra a dura batalha, mas também exitosa, dos deputados árabes para conseguir que os palestinos árabes compareçam à votação de terça-feira.

"É a primeira vez na minha vida que voto em um partido árabe", reconhece Samir Farig, que nasceu e vive nessa cidade do centro de Israel.

Como a maioria dos moradores do local, Farig é um árabe israelense, filho de palestinos que ficaram em suas terras após a criação de Israel em 1948. Até agora sempre havia votado no Partido Trabalhista israelense, partidário do sionismo.

"Acho que devemos fazer parte do governo", explica o homem de 54 anos, apesar de nenhum partido árabe ter ocupado ministérios na história de Israel.

"Os judeus, inclusive aqueles que são de esquerda, ignoram os atuais problemas dos árabes", lamenta Farig, que diz ter apostado nos deputados árabes para que se ocupem "dos problemas de moradia e infraestrutura".

- Lista única -

Há cinco meses, nas últimas eleições legislativas, os partidos árabes ficaram divididos em duas listas e não conseguiram mobilizar seu eleitorado, cuja abstenção superou 50%. Então, obtiveram dez cadeiras no Parlamento israelense.

Essas eleições não permitiram formar uma maioria clara para formar governo e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu (nacionalista e conservador), decidiu convocar novas eleições, realizadas no domingo.

Os partidos árabes se uniram sob a candidatura "Lista unida" (árabes e de esquerdas), que obteve doce deputados, tornando-se a terceira força no parlamento israelense.

O aumento da participação entre os árabes israelenses resultou em um dos fatos mais significativos na votação da próxima terça-feira, ao ponto que um deputado do Likud (partido de Netanyahu) assegurar que "agora devem-se vigiar os árabes, porque eles utilizam seu direito ao voto".

"É minha pequena vitória", afirma Farig sobre esta advertência do sionismo conservador diante da maior mobilização dos árabes israelenses.

- Voto "maciço" -

"Até o meio-dia eu não tinha vontade de ir votar", reconhece Issa, de 50 anos. Mas agora decidiu ir às urnas "tirar Netanyahu", que se encontra em uma situação delicada para se manter no poder depois que seu partido terminou quase empatado com a lista do general Benny Gantz.

No norte de Israel, em Nazaré, a maior cidade árabe do país, o eleitorado se mobilizou farto das discriminações e estigmas acentuados durante os dez anos de governo de Netanyahu.

A participação nessa cidade chegou na terça-feira a 55%, enquanto que em abril foi de 40%. A candidatura "Lista unida" obteve mais de 90% dos votos de seus moradores.

Fadi Zoabi, ativista político de 21 anos, perdeu a conta dos atos públicos dos quais participou nos últimos meses para mobilizar os árabes israelenses, que representam 18% dos habitantes de Israel.

Os árabes foram votar "maciçamente", tuitou na noite de terça-feira Ahmad Tibi, um dos líderes da "Lista unida", referindo-se às declarações de Netanyahu em 2015, quando pediu que seus simpatizantes fossem às urnas diante da ameaça que os árabes "votassem em massa".

Como se explica este aumento da participação? "Partidos fascistas como o de Otzma Yehudit estão crescendo. Os palestinos (como os árabes israelenses se apresentam) se deram conta de que se não fossem votar, dirigentes como Otzma Yehudit fariam parte do governo e poderiam decidir o seu destino", explica à AFP a analista política palestina Diana Buttu.

No dia das eleições em Israel "é o único momento em que o meu voto vale o mesmo do que o de um judeu israelense. No dia a dia, isso não é assim", diz Zoabi.