2020: o ano que não vai terminar. Não tão cedo

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STOCKPORT, UNITED KINGDOM - DECEMBER 18: (EDITOR'S NOTE: Image has been converted to black and white. Colour version not available.) One week before Christmas Day, people shop and go about their daily life in Stockport, Greater Manchester, which is in Tier 3 of the coronavirus (Covid-19) pandemic restrictions on December 18, 2020 in Stockport, United Kingdom. (Photo by Christopher Furlong/Getty Images)
O novo normal em 2020 é melancólico e usa máscaras. Foto: Christopher Furlong (Getty Images)

Lembra daquele ano em que o sul-coreano “Parasita”, de Bong Joon-Ho, fez história ao vencer o Oscar de melhor filme, melhor longa estrangeiro, melhor roteiro original e melhor direção?

E quando a Viradouro venceu o Carnaval do Rio com uma homenagem ao grupo das Ganhadeiras de Itapuã?

Alguém se recorda de quando, por ordem do presidente Donald Trump, um bombardeio no aeroporto de Bagdá matou Qassem Soleimani, um dos homens mais poderosos do Irã, e colocou o Planeta na bica de um conflito nuclear em escala global?

Ou de quando o casal Harry e Megan Markle anunciou que estava deixando a família real para viver uma vida normal nos EUA depois de consagrar a palavra “Megxit” no dicionário? E da crise da água no Rio? E da comoção com a morte, em um acidente de helicóptero, do ídolo do basquete americano Kobe Bryant?

Por aqui, parece que já faz uma década que a atriz Regina Duarte, a namoradinha do bolsonarismo, finalmente disse sim ao presidente e assumiu a secretaria da Cultura após a demissão do antecessor que homenageou Joseph Goebbels em transmissão oficial. Teve também o motim de PMs no Ceará encerrado após o senador Cid Gomes ser baleado ao tentar furar o bloqueio com uma retroescavadeira.

Parece que tudo isso aconteceu há muito tempo, mas foram só as primeiras notícias de um ano dividido em um antes e um depois do anúncio, pela Organização Mundial da Saúde, da pandemia do coronavírus --à época, ainda antecedido pelo predicado “novo”.

O vírus não dividiu apenas o ano em dois. Dividiu duas eras. Houve uma década de 11 de março de 2020 para trás. E um novo tempo teve início desde então.

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Este novo tempo banalizou as distopias mais ousadas. De um dia para outro, obrigou um planeta inteiro a se refugiar em sua casa, como se replicasse os versos de Raul Seixas em “O dia em que a terra parou”.

E como se fosse combinado, em todo o Planeta, ninguém saiu de casa durante semanas. Meses. E os que saíram perceberam logo que não viviam mais no mundo como conheceram. Naquele novo Planeta, bocas e narinas desapareceram dos rostos terráqueos. Estavam tapadas por máscaras de pano ou tecido descartável. E adornadas por face shields.

Um simples abraço passou a ser risco de vida.

O planeta se apequenou. Um surto noticiado numa província da China bateu em nossas casas em tempo recorde. Todas as profecias de que o mundo caminhava para se tornar uma aldeia global, com distâncias reduzidas pela velocidade relativa e a facilidade de comunicação e locomoção, se confirmaram. O que afligia o então distante Oriente passou a vitimar nossos amigos, familiares, ídolos da música, do esporte e da novela.

A fragilidade humana nunca foi tão escancarada.

Nossas casas se tornaram escritórios e nossos escritórios, desertos.

Líderes eleitos com promessas megalomaníacas de resgatar a grandeza das potências nacionais tiveram de arregaçar as mangas e mostrar serviço longe do Twitter, a plataforma que na era anterior forjou todo tipo de mito.

Alguns passaram no teste. Outros mostraram o que eram sem intermediação. Eram máquinas de guerra sem plano de batalha.

No Brasil, o medo de que o tranco na economia produzisse mais mortes do que a pandemia levou o presidente Jair Bolsonaro a boicotar como pode as orientações das autoridades sanitárias sobre distanciamento social, uso de máscara, vacinação obrigatória e riscos das medicações milagrosas. Fez tudo o contrário e conseguiu rachar o país em três. Um terço o apoia e o obedece. Outro terço flutua indiferente, mas não menos perdido. O outro o rejeita e passou a desconfiar de cada linha postada pelo presidente, que ora se nega a tomar vacina, ora se diz aflito por uma solução.

Em tempo real, o país assistiu ao governo desmoronar --ao menos aquele levantado a partir das eleições de 2018.

No auge da crise, dois ministros da Saúde com formação médica deixaram o governo após tentarem, em vão, levar alguma lufada de bom senso ao presidente, que preferia ouvir negacionistas. Para esta ala lunática-ideológica, o coronavírus mataria menos do que uma gripe comum; haveria no máximo 4 mil mortos em razão das condições climáticas e demográficas locais.

Em nove meses 181 mil pessoas morreram --e seus familiares ouviram um econômico “e daí”, “não sou coveiro”, “todos vamos morrer um dia”, “é preciso enfrentar o vírus como homem” do presidente.

Quem tinha ouvidos para ouvir pode testemunhar quais eram os planos do governo para conter o morticínio na reunião de 22 de abril: nenhum.

O ministro da Economia sugeriu a abertura de cassinos e salário de miséria para adolescentes cantarem o hino de manhã e construírem estradas à tarde.

Sergio Moro, outro pilar do governo que ruiria naqueles meses, deixou o Ministério da Justiça ao ser desmoralizado pelo chefe quando este anunciou, na mesma reunião, que iria interferir na Polícia Federal e pronto --uma gota d'água que não levou em conta o recado, em forma de portaria para ampliar o acesso a munição pelos cidadãos, a “esses bostas” de governadores e prefeitos que insistiam em mandar as pessoas a ficarem em casa. A ordem era rebater o argumento à bala.

Jair Bolsonaro mostrou o que era para o mundo, que acompanhou assustado a passagem da boiada pela Amazônia, pelo Pantanal e também a deteriorização das relações diplomáticas, rebaixadas a uma linha auxiliar de Donald Trump sobre questões diversas.

Trump caminhava para ser reeleito nos EUA, mas sua condução errática diante da pandemia custou caro. Joe Biden foi eleito, não sem o esperneio do atual presidente em torno de uma suposta fraude nas urnas.

Mas Biden ganhou e deixou ao Brasil o selo de “pária” sem par. Foi o próprio ministro das Relações Exteriores quem havia dito que era preciso ter orgulho da condição de pária, para desespero dos homens do agronegócio, apoiadores de primeira hora do presidente que estimula ou se cala diante das caneladas de seu filho 03 e seu chanceler com a China, maior compradora de produtos nacionais.

Sem perceber, entre reuniões online, videoconferências e lives de artistas que tentavam levantar o moral das tropas, os brasileiros viram a história acontecer em tempo real. Não sem cansaço.

Eventos que em anos anteriores teriam ido parar nas cabeças dos destaques das retrospectivas em dezembro caíram na vala do esquecimento.

Ministros foram abatidos como pombos, entre eles o titular da Educação que queria prender os “vagabundos” do STF. Caiu também seu substituto que turbinou o currículo. E a namoradinha do Brasil que substitiu um fã do ideólogo nazista e disse não querer carregar um saco de mortos nas costas ao falar sobre as vítimas de tortura e do coronavírus.

Gustavo Bebianno, ex-braço direito da campanha presidencial, morreu no esquecimento.

O filho de uma funcionária de Flávio Bolsonaro, acusado de chefiar a milícia no Rio, morreu em uma troca de tiros com a polícia na Bahia.

Fabrício de Queiroz, ex-faz-tudo da família presidencial que tramava uma fuga com a esposa e a mãe de Adriano da Nóbrega, o miliciano morto, foi encontrado no sítio em Atibaia do advogado dos Bolsonaro, que precisaram recuar nas ameaças diárias de implodir o Congresso e o STF durante os chamados atos antidemocráticos.

Salvo pelo centrão, e com o moral preservado após engordar o auxílio emergencial proposto pelas lideranças do Congresso, Bolsonaro manteve a aprovação com mais ou menos um terço dos brasileiros que ainda o apoiam, mas ainda é o presidente em primeiro mandato mais mal avaliado desde Fernando Collor.

Na reta final de 2020, mas não da nova era iniciada em março, Bolsonaro teve de recuar na política de indiferença em relação ao programa de imunização. Não quer ver o ex-aliado João Doria (PSDB), que se tornou seu maior adversário, tomar a dianteira na discussão.

Ah, sim. Neste ano que todos gostariam de esquecer (não recomendo), houve também eleições municipais, com recados das urnas em direção a discursos mais moderados, menos apalermados e extremistas, num sinal de mudanças em relação à disrupção de 2018.

E teve impeachment. No Rio, o todo-poderoso Wilson Witzel (PSC) deu bandeira demais de seu desejo se virar presidente, provocou ciúmes no Palácio do Planalto, ficou órfão e caiu por corrupção.

Em Santa Catarina, o governador Carlos Moisés (PSL), também rompido com o presidente, caiu e se levantou. No intervalo, foi substituído por uma vice que, em pleno 2020, deu resposta evasiva sobre o que pensa do entusiasmo de seu pai em relação a...Adolf Hitler. Para não criar climão na família, ela preferiu não condenar os responsáveis por destroçar famílias inteiras de judeus, ciganos e minorias na Europa do século 20.

Na nova era do novo século, o passado se desvelou com outros nomes. A herança da escravidão é ainda evidente, seja nos corpos das crianças mortas ao brincar no quintal, seja nos clientes mortos entre socos e chutes dos seguranças do supermercado.

As tragédias se acumulam e se avolumam em camadas. São atravessadas pela nossa herança escravocrata, predatória, ditatorial. Enterradas sem luto na vala comum dos acontecimentos diários, as marcas de 2020 ainda serão lembradas por muito tempo da era pós-pandemia.

As lacunas estão por todo canto, a começar pelas lembranças de tanta gente que se foi. Nunca nos despedimos, em tão pouco tempo, de tanta gente. Pelas razões diversas.

Para além da pandemia, os dramas pessoais de outras enfermidades não deram descanso ou intervalo. Foi assim que perdemos Maradona. Como ele, se foi a lembrança de uma era. E dos símbolos de um tempo em que nem tudo era permitido. Mas abraçar e se lançar à intensidade definitivamente não estava entre as interdições.

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