Retrospectiva 2022: Apesar das dificuldades, cinema sobrevive e busca reconquistar o público

Em dezembro de 2020, ainda em meio à pandemia da Covid-19, com muitos cinemas fechados e pessoas ainda com receio de sair de casa, a Warner Bros. fez um anúncio bombástico: lançaria todos os seus filmes de 2021 simultaneamente no cinema e no streaming. A notícia revoltou realizadores e exibidores, muitos temendo pelo futuro das salas de exibição e até do próprio cinema. Foi assim que chegamos a 2022, que, ainda assim, não foi um ano perdido para o mercado. Pelo contrário.

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— Não podemos superestimar os fatos negativos. Claro que foi um ano dificílimo para os cinemas, mas também o primeiro ano em que foi possível operar de uma forma minimamente normal pós-pandemia — diz Adriana Rattes, diretora e sócia-fundadora do Grupo Estação. — Os dois anos anteriores foram muito piores e sobrevivemos. Tínhamos muita coisa jogando contra em 2022 e sobrevivemos.

Adriana aponta que o Estação precisará de uma década para pagar as dívidas contraídas entre 2020 e 2021, mas que o último ano trouxe indicativos positivos. Em alguns meses, os cinemas da rede chegaram perto de alcançar a média de faturamento dos cinco anos anteriores à pandemia.

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Diretor da distribuidora Paris Filmes, Marcio Fraccaroli também vê o copo meio cheio. Ele conta que em 2022 o mercado cinematográfico nacional recuperou 55% do faturamento registrado antes da pandemia (a recuperação completa é prevista para 2024).

Segundo o distribuidor, o grande desafio do momento é recriar o costume de ir ao cinema, especialmente num cenário em que o público tem acesso a muito conteúdo vindo da internet e do streaming:

— O cinema é hábito. Isso vale pro filme de arte ou pro blockbuster.

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Uma tendência foi “apostar no certo”, como o terror para filmes internacionais e a comédia para o cinema nacional — sem falar na continuação de “Avatar”, que já atingiu US$ 1 bilhão de bilheteria mundial, e nos longas de super-heróis, que há anos dominam o mercado. Dos dez filmes mais vistos no Brasil em 2022, seis são adaptações dequadrinhos da Marvel ou da DC, inclusive o primeiro do ranking: “Doutor Estranho no multiverso da loucura”, que levou 8,5 milhões aos cinemas.

Diretor do site “Filme B”, Paulo Sérgio Almeida destaca que os blockbusters já retornaram ao patamar pré-pandemia, mas que a cena de filmes independentes e nacionais ainda preocupa. O represamento de produções, por exemplo, obrigou muitas obras a entrar em cartaz competindo entre si. Foram 175 produções nacionais lançadas ao longo do ano, três por semana.

O brasileiro “Marte um” foi um importante caso de sucesso do cinema nacional. O filme do mineiro Gabriel Martins segue em cartaz após cinco meses e acumula um público de 85 mil pessoas, ótimo desempenho para o circuito de arte.

Volta das filmagens

Foi ainda um ano de retomada da produção audiovisual, com vários novos projetos sendo rodados. Ainda com as dificuldades impostas pela pandemia e o esvaziamento das políticas de incentivo do governo federal, as filmagens de longas e séries voltaram a ser realizadas ativamente.

Segundo dados da RioFilme, 99 produções audiovisuais foram rodadas no Rio em 2022, contra 54 filmadas no ano passado. Neste cenário, as plataformas de streaming, como Globoplay, Netflix, Prime Video e HBO Max, ajudaram a impulsionar o mercado realizando grande parte dessas produções, sempre em parceria com produtoras brasileiras.

Sessões especiais e relançamentos

Buscando reconquistar o público, cinemas e distribuidoras investiram na realização de eventos e sessões especiais, muitas vezes com ingressos mais baratos. Outra onda que se destacou foi a de relançamentos. Em 2022, retornaram aos cinemas filmes como “Avatar”, “Harry Potter e a câmara secreta” e os cinco longas da saga “Crepúsculo”. A trama de vampiros e lobisomens deve levar mais de 300 mil pessoas às salas, de acordo com a Paris Filmes.

Festival do Rio brilha e Estação corre risco

O Festival do Rio retornou ao formato antes da pandemia, com a exibição de mais de 200 filmes. O evento, realizado em outubro, foi considerado um sucesso, considerando-se a presença do público e de convidados internacionais. Por outro lado, o tradicional Estação Net Rio se viu ameaçado de fechamento por disputa judicial com o locatário, o Grupo Severiano Ribeiro. A situação continua sem definição, aguardando audiência, ainda sem data marcada.

‘Top Gun’ rouba a cena na bilheteria global

Nos últimos anos, as bilheterias globais vinham sendo dominadas por filmes de super-heróis. Mas, em 2022, o herói foi outro: Tom Cruise. Continuação de sucesso de 1986, “Top Gun: Maverick” foi o filme de maior bilheteria no ano, com um faturamento de US$ 1,48 bilhão, quase US$ 500 milhões a mais que o segundo colocado, “Jurassic World: Domínio” (US$ 1 bilhão). O longa ficou meses em cartaz em todo mundo. Só no Brasil, foi visto por cinco milhões de pessoas.

Turma da Mônica, sucesso nacional

Lançado no finalzinho de 2021, “Turma da Mônica: Lições” foi o filme nacional com maior público em 2022. O longa foi visto por 763 mil pessoas neste ano, sendo seguido por “Tô ryca 2” (525 mil) e “Medida provisória” (471 mil). Analistas consideram os três resultados positivos dentro do cenário, especialmente diante do impacto da Ômicron no início do ano. Ainda assim, todos são unânimes em apontar que as obras teriam potencial de público bem maior em um cenário mais estável.