Retrospectiva Bolsonaro: você lembra o que o presidente fez em agosto?

(AP Photo/Eraldo Peres)

O mês de agosto na política brasileira é marcado por tragédias, a começar por Getúlio Vargas, ao se  matar com um tiro no coração, em agosto de 1954. No oitavo mês de 1961, o presidente Jânio Quadros renunciou, dando início a uma crise que culminou no golpe militar de 1º de abril de 1964. E em 2019? Jair Messias Bolsonaro conseguiu, em trinta dias, acumular insultos a líderes mundiais e uma guerra ideológica contra o meio ambiente. 

Os incêndios gigantescos que assolavam a Amazônia fez o dia virar noite em São Paulo, como também estava elevando a temperatura entre a França e o Brasil, e tornaram uma crise internacional, com as Nações Unidas e Emmanuel Macron questionando fortemente Jair Bolsonaro, 

O presidente francês Emmanuel Macron foi o primeiro a levantar o debate ao chamar as queimadas na floresta de “crise internacional”, e convocou outras nações para debater o assunto. Dias antes a reunião da cúpula do G7, que acontecera em agosto em Biarritz, na França, o chefe de estado escreveu no Twitter:

“Nossa casa queima. Literalmente. A Amazônia, o pulmão do nosso planeta que produz 20% do nosso oxigênio, está em chamas”, disse. 

Contrariado, o presidente brasileiro acusou o francês de colonialismo. Mas não era só o Macron, o mundo todo estava se manifestando por alguma atitude do governo brasileiro. Afinal, que preço que o Brasil e o mundo pagarão caso a floresta continue a ser derrubada para dar lugar à pecuária, cultivo de soja e extração de minerais?

Guerra ao meio ambiente  

A retórica antiambientalista do presidente de negar o desastre, e toda sua inércia diante da tragédia, incomodou não só os líderes mundiais, como também incitou uma onda de protestos. A União Europeia – França, Alemanha, Reino Unido, Noruega e Finlândia -, ameaçou o governo com retaliações comerciais, enquanto o Capitão da reserva seguia disposto a manter sua radicalização.

Diversos países se manifestaram de maneira contundente sobre os incêndios. Alguns chegaram a defender boicotes à carne e produtos agrícolas brasileiros, além da derrubada do acordo comercial firmado recentemente entre o Mercosul e a União Europeia.

O Brasil registrou 131.327 queimadas florestais de janeiro até o mês de agosto em 2019. Só na Amazônia, foram registrados 43.573 focos, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O presidente Jair Bolsonaro negou os dados de desmatamento e gerou uma crise com sua própria equipe de Governo, que culminou na saída de Ricardo Galvão, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), órgão responsável pelas medições. 

Somente três dias após a imprensa divulgar um aumento de 84% nos incêndios Bolsonaro fez uma reunião de emergência para discutir a criação de uma força-tarefa e o envio de tropas do Exército para controlar as chamas.

Inicialmente, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, minimizou os incêndios dizendo que eram consequência do período de seca. Depois, Bolsonaro sugeriu que ONGs poderiam estar por trás das queimadas, como forma de retaliação à redução de verbas repassadas pelo governo.

A cruzada contra a preservação começou no início da gestão, com a ideia de fundir os Ministérios da Agricultura e Meio Ambiente. O objetivo era a diminuição da burocracia e da chamada “indústria da multa”, o que acendeu o sinal de alerta sobre a política ambiental do Brasil em seu governo. Não é coincidência que a primeira ida de Ricardo Salles à Amazônia como ministro, em fevereiro, foi ao lado da Ministra da Agricultura Tereza Cristina.

O episódio abalou o mundo. A comunidade internacional ficou indignada e a Alemanha e Noruega ameaçaram congelar as contribuições para o Fundo Amazônia, que financia parte da luta contra os incêndios florestais, 

A floresta vai virar pasto

O problema é que a origem do fogo vem de uma prática primitiva de limpar terras desmatadas para preparar a área para o plantio, consequência da produção agrícola e pecuária que avança rumo a Amazônia. Em resumo, o agronegócio primeiro derruba a floresta e põe fogo, para depois tudo virar pasto. 

A narrativa do presidente também é caracterizada pelo constante ataque às Organizações Não Governamentais (ONGs) que atuam na preservação ambiental. Além do ódio Bolsonaro também se acostumou a debochar, principalmente da imprensa. Quando questionado se é possível “crescer com preservação”, durante conversa com jornalistas, em Brasília, ele aconselhou  “comer menos e fazer cocô dia sim, dia não” para combater a poluição ambiental. 

Desculpa Brigitte

Em meio aos problemas ambiental, a tensão política protagonizada por Jair Bolsonaro e Emmanuel Macron iniciou uma crise diplomática depois que o francês foi chamado de idiota, cretino e até sua mulher virou alvo do presidente brasileiro. 

Tudo começou com a manifestação de Macron pelo Twitter no dia 22 de agosto, quando ele convocou os países do G7 a discutirem as queimadas na Amazônia no encontro que ocorrera no fim daquela semana. “Nossa casa está queimando. Literalmente. A Floresta Amazônica – os pulmões que produzem 20% do oxigênio do nosso planeta – está em chamas. É uma crise internacional”, escreveu o francês.

Bolsonaro não resistiu e quis iniciar sua habitual queda de braço pela rede social, e disse que o presidente da França usava tom sensacionalista e estava querendo instrumentalizar uma questão interna do Brasil. O presidente brasileiro afirmou ainda que o francês tinha uma mentalidade “colonialista” ao querer incluir o tema no debate do G7.

Eduardo Bolsonaro, o filho que o presidente tentara emplacar como embaixador do Brasil nos EUA, publicou um vídeo que xinga o mandatário da França de “idiota”. Para completar, Bolsonaro endossou um comentário de um seguidor que comparou a beleza da primeira-dama da França à de Michelle Bolsonaro. 

“Agora entende por que Macron persegue Bolsonaro?”, escreveu o seguidor, na legenda da foto dos casais. Com aquele comportamento de ‘tiozão’ que lhe é peculiar, o presidente comentou concordando com o autor:  “Não humilha cara, kkkkk”.

O preconceito sexista do presidente chegou até Macron, que considerou Bolsonaro “extremamente desrespeitoso” e disse esperar “muito rapidamente” que os brasileiros enham um presidente que esteja à altura do cargo”.

Os brasileiros saíram em defesa da primeira-dama e a hashtag #PardonBrigitte ascendeu aos assuntos mais comentados no Twitter.  

Ca-na-lhas 

O ultradireitista retalha seus críticos e seu clã vai para o tudo ou nada para quem bate de frente com eleo que significa consequências práticas. E a rotatividade de cargos públicos em seus quase 250 dias na Presidência foi alta: A cada oito dias, pelo menos um funcionário deixa o governo Bolsonaro

Foi assim como Ricardo Galvão, que entrou no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em 1970 e acabou sendo demitido em agosto, após dados de satélite do instituto revelarem que o desmatamento cresceu 102% no mês de julho de 2019.

Sobrou até para Luciano Huck, que disse em um evento que este governo é “o último capítulo do que não deu certo”. Em seguida, Bolsonaro reagiu as críticas do apresentador e enviou uma indireta nas redes sociais, dizendo que abrira a “caixa-preta” do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) para revelar quem comprou jatinhos com recursos do banco. 

Embora não haja nenhuma ilegalidade na compra, o presidente quis medir força. A essa altura, o governo já havia entrado em uma espiral de ataques até com quem era aliado. O deputado federal Alexandre Frota a quem ajudou eleger Bolsonaro acabou sendo expulso do PSL depois de fazer críticas ao governo, especialmente sobre a indicação de Eduardo Bolsonaro a embaixada americana. 

Ainda em agosto, o presidente Jair Bolsonaro anunciou o biólogo Richard Rasmussen como novo embaixador do turismo no Brasil. Famoso pelas aventuras na selva e interações com animais exóticos, o apresentador de TV Richard Rasmussen foi autuado pelo Ibama em dez infrações sobre fauna. A maioria das autuações aconteceu em Carapicuíba, interior de São Paulo, onde Rasmussen mantinha um criadouro sem comprovação de origem dos animais e com suspeitas de tráfico. O espaço foi fechado pelo Ibama em 2005.

Família acima de todos

Bolsonaro tentava emplacar o filho, mas o Senado estava resistente ao nome de Eduardo Bolsonaro para a embaixada do Brasil em Washington, nos Estados Unidos, em razão de sua experiência como fritador de hambúrgueres nos Estados Unidos. O ‘03’ até recebeu o ‘aval’ do governo americano, mas ainda precisaria passar por uma sabatina do Senado, que acabou nem acontecendo.

Apesar da chuva de críticas, o presidente parecia disposto a pagar o preço para ter o filho no posto, e também para que a indicação do senador Flávio Bolsonaro para o futuro procurador-geral, que indicou Antônio Carlos Martins Soares.

Subprocuradores e procuradores ficaram incomodados com a participação do 01 no processo de escolha do sucessor de Raquel Dodge na PGR. Acontece que Flavio está enrolado com o caso Fabrício Queiroz, ex-assessor e alvo de uma investigação do Ministério Público do Rio sobre supostas fraudes no gabinete do parlamentar. O escolhido chega com a missão de blindar o clã Bolsonaro.

A corda bamba do presidente 

Jair Messias Bolsonaro completara o oitavo mês pressionado pelo aumento de sua impopularidade, sendo apontado como o terceiro chefe de Estado mais mal avaliado da América Latina. A pesquisa foi realizada pelo Instituto Ipsos, que mediu a aprovação dos presidentes latino-americanos perante 403 pessoas influentes na opinião pública. 

Se na campanha não surtiu efeito o capitão reformado falar que não entendia de economia ou mesmo seu o tom autoritário, a mesma estratégia não deu certo no Planalto. O presidente parecia incapaz de refletir de modo racional sobre os problemas do País. Eu sou o ‘capitão motosserra’, zombou. A piada de Bolsonaro é o meio ambiente, e ele é sua corda bamba mais longa.