Retrospectiva Bolsonaro: você lembra o que o presidente fez em março?

“O que é Golden Shower?”, perguntou no Twitter o Presidente da República Jair Messias Bolsonaro, no dia 6 de março. Esse era o começo do terceiro mês do governo que já colecionava fatos inusitados. Os 31 dias ainda seriam marcados por constrangimentos internacionais, falas questionáveis, avanço da Reforma da Previdência e o Planalto agindo como se a campanha eleitoral não tivesse acabado. 

 Meu Twitter, minha vida 

Usuário assíduo e com quase 3,5 milhões de seguidores, Bolsonaro compartilhou um vídeo de um bloco de carnaval de São Paulo, em que dois homens dançam sobre um ponto de táxi. Em determinado momento, um deles coloca o dedo no ânus e se abaixa para que o outro urine nele

“Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro. Comentem e tirem suas conclusões”, escreveu na publicação.

"Golden shower" significa "ducha dourada" (em tradução literal). É um termo em inglês usado para definir relações sexuais envolvendo o ato de urinar no(a) parceiro(a). A esta altura, o presidente já deve saber o significado. 

O presidente não gostou do Carnaval mais insurgente dos últimos anos, na qual ele e sua turma viraram alvo de piada pelas ruas. Afinal, protestos anti-Bolsonaro e fantasias de laranja deram o tom entre os foliões. 

Bolsonaro deu o troco e divulgou uma marchinha em resposta a críticas de Daniela Mercury e Caetano Veloso, que lançaram uma música como protesto contra o avanço de uma onda conservadora no país. 

“Dois 'famosos' acusam o governo Jair Bolsonaro de querer acabar com o Carnaval. A verdade é outra: esse tipo de ‘artista’ não mais se locupletará da Lei Rouanet", escreveu em seu twitter. “Essa marchinha vai para o nosso querido Caetano Veloso e querida Daniela Mercury. Chupa”, diz o intérprete, antes de fazer referência à música. O nome de quem produziu a marchinha não foi divulgado.

Sem viés ideológico, tá ok?

Fervoroso defensor dos ‘bons costumes’, uma das expressões mais repetidas de Bolsonaro é “sem viés ideológico”, e aí sobrou até para a caderneta de saúde do adolescente que ensina prevenir a gravidez e doenças sexualmente transmissíveis.

O presidente mandou o Ministério da Saúde recolher o material e disse que o governo estava providenciando um novo exemplar, “com menos páginas, mais barato e sem essas figuras” - sinalizando que os trechos de prevenção sairiam do material porque “mostra certas figuras que não cai bem para meninos e meninas de 9 anos terem acesso”.

Longe de qualquer pensamento vulgar, o objetivo do material era informar meninos e meninas de 10 a 19 anos sobre cuidados básicos em saúde, a importância da vacinação, transformações do corpo na adolescência e métodos de prevenção à gravidez e doenças sexualmente transmissíveis.

Enquanto a ideologia pautava o Itamaraty, o governo via sua popularidade diminuir. A direita conservadora do capitão da reserva era aprovada por 34% da população e desaprovada por outros 24%. Na comparação com períodos de governo equivalentes, para presidentes em primeiro mandato eleito, Bolsonaro larga com menor popularidade e maior resistência que seus antecessores. Atrás até de Fernando Collor, apontou o levantamento do Ibope.

Extrema direita, volver

Bolsonaro encarna também o primeiro presidente de extrema direita da democracia brasileira e as referências a ditadura militar já foi exaltada por ele e seus filhos várias vezes. No discurso de cerimônia de aniversário do Corpo de Fuzileiros Navais no Rio de Janeiro, no dia 7 de março, ele afirmou que “democracia e liberdade só existem quando as Forças Armadas querem”.

Como uma metralhadora de polêmicas, Bolsonaro parecia não ter se tocado que a frase feria a Constituição Federal que, depois de 21 anos de ditadura militar, foi escrita garantindo a democracia no país. A cereja do bolo ditatorial veio com a declaração de que governaria apenas ao lado daqueles que respeitam a família e possuem ideologia semelhante à dele.

Para encerrar o mês, o Palácio do Planalto distribuiu no dia 31 de março um vídeo que defendia o golpe militar de 1964, comemorando seus 55 anos. O material, que não tinha assinatura, contestava a história e afirmava que o golpe freou o avanço do comunismo no Brasil. Ele também foi publicado no Twitter do filho 03, Eduardo.

Após receber críticas, a assessoria de imprensa do Planalto não quis se pronunciar e, no dia seguinte, a Secretaria de Governo da Presidência da República (Segov) lançou nota com dúvidas sobre a origem do vídeo.

Família acima de tudo

A Reforma da Previdência, considerada essencial para a economia e a estabilidade do governo, começou a tramitar na Câmara em março e a expectativa era grande. Tudo ia muito bem até Carlos Bolsonaro ir ao Twitter. Geralmente, quando isso acontece, pode-se esperar algum estrago – e desta vez não foi diferente. 

O estopim foi o adiamento da tramitação do pacote anticrime do ministro Sérgio Moro pelo presidente do Congresso Rodrigo Maia  (DEM). Em sinal de apoio a Moro, Carlos Bolsonaro escreveu no Twitter: “Por que o presidente da Câmara anda tão nervoso?”. Coincidência – ou não, o ex-ministro Moreira Franco, casado com a sogra de Maia, havia sido preso naquele dia. 

Carlos Bolsonaro conseguiu irritar um dos mais importantes aliados do governo de seu pai. A discussão ganhou força, deflagrando uma crise entre os poderes e provocando uma sequência de troca de farpas entre eles. O presidente Bolsonaro também embarcou na queda de braço pública com o líder do Congresso

Depois disso, Maia ameaçou ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que deixaria a articulação política pela reforma da Previdência, graças as declarações sem freio do ‘garoto’ do presidente. 

Made in Brazil 

Não teve continência a bandeira dos EUA, mas para a primeira visita ao colega Donald Trump, o ex-capitão do exército brasileiro decidiu investir em um ‘look’ inusitado: terno e coturno. O mandatário chegou ao país exultante, mas foi recepcionado por uma imprensa pouco amistosas, a exemplo do New York Times, que descreveu o presidente como “um nacionalista ousado cujo apelo populista vem em parte de seu uso do Twitter e de seu histórico de declarações ofensivas contra mulheres, gays e grupos indígenas”.

A participação de um jantar com Steve Bannon, ex-guru e estrategista de Trump, e a polêmica visita à CIA marcaram a primeira parte da viagem do brasileiro a Washington. Outro ponto foi a Venezuela e os dois mandatários concordam em não reconhecer o regime de Nicolás Maduro. Bolsonaro disse que “O povo da Venezuela precisa ser libertado”, e elogiou o poder bélico dos Estados Unidos. 

A postura dividiu opiniões, e enquanto uns elogiavam a ‘parceria’ com os Estados Unidos em vários assuntos, outros diziam que a viagem foi vergonhosa e reforçou o ‘complexo de vira-lata’ dos brasileiros, um conceito criado por Nelson Rodrigues. 

dispensa do visto de turistas americanos para entrarem no Brasil é uma das críticas, pois a decisão contraria o princípio da reciprocidade nas relações internacionais, já que o brasileiro precisa obrigatoriamente de permissão para entrar no país norte-americano. 

Por falar em vergonha, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, que assumiu um papel de chanceler no lugar de Ernesto Araújo e chegou aos EUA antes mesmo do pai, disse em um evento, já sabendo do decreto que liberaria os estadunidenses de visto para entrar no Brasil, que brasileiros “ilegais” no país de Trump são uma “vergonha”.