Retrospectiva Bolsonaro: Você lembra o que o presidente fez em novembro?

(Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

por Anny Malagolini

Os onze primeiros meses de Jair Bolsonaro no Planalto foram agitados e esquisitos. Do terceiro andar do Palácio do Planalto, o Presidente da República mantinha compromissos com os aliados, escutara seus conselheiros, nem sempre os mais moderados, e continuava caindo em provocações ou embarcando em aventuras bélicas. Um ano diferente, um ano sem fim, para dizer o mínimo.  

O mês começou com a saída da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após 580 dias na carceragem da Polícia Federal em Curitiba. A liberdade do petista dividiu opiniões no Palácio do Planalto e foi recebida com silêncio pelo presidente Jair Bolsonaro, que considera Lula seu principal adversário político.

Em sua primeira manifestação o presidente Jair Bolsonaro (PSL) pediu aos seus seguidores que não deem "munição ao canalha", em uma referência ao líder petista e insinuou que não estaria na Presidência se Moro não tivesse feito o que fez como juiz da Lava Jato. 

Em meio ao acirramento político brasileiro, Bolsonaro também não fez alarde pelo novo entendimento do STF (Supremo Tribunal Federal) segundo o qual a prisão de condenados somente deve ocorrer após o fim de todos os recursos. Um comportamento quase inédito para o presidente que fala bastante antes de pensar.

Prova disso é a teoria conspiratória de que Leonardo DiCaprio financiou ações criminosas no Brasil por meio de doações a ONGs citadas em inquéritos da Polícia Civil do Estado do Pará. “O Leonardo DiCaprio é um cara legal, não é? Dando dinheiro para tacar fogo na Amazônia”, afirmou o presidente, sem qualquer evidência. O ator rebateu a ‘fake news’, e afirmou em nota que “Embora dignos de apoio, não financiamos as organizações visadas”. 

A realidade é que Bolsonaro se mantinha na contramão da preservação ambiental, e ‘passava pano’ para madeireiros, grileiros e outros protagonistas do desmatamento que ressurgiu a todo vapor em 2019. 

Mas até aqui nada disso é surpresa, já que desde a campanha eleitoral Bolsonaro fazia questão de criticar a fiscalização ambiental feita pelo Ibama e o número de unidades de conservação e terras indígenas, que considera ser alto. O tom do discuso não mudou. 

Com a extensão da floresta amazônica sendo reduzidas a cinzas, o presidente foi denunciado ao Tribunal Penal Internacional, com sede em Haia, nos Países Baixos, por “incitar o genocídio e promover ataques sistemáticos contra os povos indígenas do Brasil”. Para ambientalistas, Bolsonaro é o vilão sob medida.

Não foi só no meio ambiente que Bolsonaro causou constrangimento, mas também com seu vice General Hamilton Mourão, depois de deixar escapar que preferia no lugar do militar o “príncipe” Luiz Philippe de Orleans e Bragança, hoje deputado federal e herdeiro da família imperial que governou o Brasil até 1889, quando foi proclamada a República.  

Nesse período, a economia dava sinais de revitalização, mas também assustava com a política interna que transformou a carne bovina em artigo de luxo para os brasileiros. De um lado, o aumento do consumo de carne bovina e suína por causa das festas de fim de ano, e do outro, aumento na demanda da China, causada por restrições em outros mercados, tornando as exportações mais rentáveis. Para o brasileiro, o jeito foi trocar a carne por ovo, uma situação que há tempos não acontecia no país que está entre os maiores consumidores do produto no mundo. 

SS Tupiniquim

Mas Bolsonaro estava empenhado mesmo era com a criação do seu partido de extrema direita, a ‘Aliança pelo Brasil’. O partido de Bolsonaro caminha à frente de seus pares, juntando religião e política de forma explícita, além de rejeitar o globalismo. Um partido a sua medida. 

O lançamento foi do jeito que o ultradireitista gosta: gestos de arma com a mão e rodeado de fãs da ditadura militar. Amante das armas e da violência, Jair Bolsonaro anunciou que deseja que o número de seu novo partido, o seja o 38, número popularmente conhecido para identificar o calibre do revólver mais usado no país. Contudo, a escolha seria referente a trigésimo oitavo presidente. 

Agora ele corre para tirar do papel até março seu novo partido e assim participar das eleições municipais do ano que vem. 

Acontece que aos 45 do segundo tempo Bolsonaro parecia ainda não saber o que queria. O presidente vivia um conflito interno entre a democracia e a ditadura, e até mesmo a monarquia Seu ministro da Economia, Paulo Guedes, trouxe o AI-5 novamente à pauta em uma coletiva de imprensa em Washington, nos EUA, que “não é possível se assustar com a ideia de alguém pedir o AI-5 diante de uma possível radicalização dos protestos de rua no Brasil”.

Pitbull na coleira

O 02, o pitbull de Jair Bolsonaro desativou suas redes sociais. Nem Twitter, Instagram ou Facebook, o vereador Carlos Bolsonaro fez um detox e deixou de lado, temporariamente, as provocações que tanto desgaste desnecessário trouxeram ao governo. Este é o mais agressivo dos filhos de Bolsonaro nas redes sociais —por lá, costuma rechaçar a imprensa, criticar adversários e desautorizar aliados do pai.  

Conhecido pelo tom belicoso e ainda administrar os perfis do pai nas redes sociais, o parlamentar virou alvo da CPI das Fake News no Congresso e figura ainda na polêmica do acesso aos arquivos da portaria do condomínio onde mora no Rio, na investigação sobre o assassinato da ex-vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e do motorista dela, Anderson Gomes, em março de 2018. Dois dos principais fantasmas a assombrar o governo Jair Bolsonaro. 

Quando Bolsonaro entrou no cargo, o Twitter era uma ferramenta política que o ajudou a ser eleito. Nos meses seguintes, ele integrou completamente o Twitter na administração, no Palácio e remodelando a natureza da presidência e do poder presidencial. A dúvida essa força é dirigida por ele ou os filhos. 

And Oscar go to...

Falando em fake, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, convocou uma coletiva de imprensa falsa como parte do lançamento de uma campanha de enfrentamento à violência contra a mulher. Ao encarar os jornalistas, Damares, demonstrando estar abalada, ficou em silêncio por alguns segundos e depois deixou o local. Mais tarde, a assessoria do ministério confirmou que se tratava de uma "ação de marketing". 

Se um dia Damares se apresentou como pastora, advogada e Mestre em Educação, após a encenação ela já poderia colocar o ofício de atriz no currículo. A atuação canastrona era para falar do empenho do governo no combate a violência doméstica e os problemas socioeconômicos de mulheres dependente do agressor, mas com a comunicação atrapalhada, ela acabou sendo mal interpretada.  

Pedagogia da antieducação

Outra pasta polêmica do governo é a Educação e em novembro realizou o primeiro Enem da gestão Bolsonaro. A caçada para combater o suposto viés ideológico de provas passadas barrou questões e deixou de fora pela primeira vez desde 2009 assuntos como a ditadura militar. 

A prova do ano passado abordou o pajubá, conjunto de expressões associadas aos gays e aos travestis. Na época, Bolsonaro afirmou que o ministro da Educação seria alguém que entendesse que o Brasil é um país “conservador”. Aliás, esse também foi o primeiro ano que o exame não tratou de direitos LGBT 

Dessa vez, o governo escolheu a “Democratização do acesso ao cinema no Brasil” para o tema da redação e abriu caminho para uma enxurrada de críticas. O problema é que neste ano a Ancine (Agência Nacional do Cinema) e a própria pasta da Cultura estiveram em meio a polêmicas, como o corte de verbas para filmes que abordam a temática LGBT.

O décimo primeiro mês de Bolsonaro teve ainda o ministro da Educação, Abraham Weintraub, fazendo elogios à Monarquia e questionando as comemorações em homenagem à Proclamação da República, como também foi apresentada a proposta do governo de taxar os desempregados para bancar o custo de programa Emprego Verde e Amarelo para incentivar a contratação de jovens – mas a taxação não avançou. As duas situações são antagônicas, mas estão na mesma prateleira de assuntos considerados, no mínimo, absurdos. 

Para completar o doce novembro do presidente, o dólar passou dos R$ 4,20, o maior valor nominal (sem contar a inflação) da história. Como disse Eduardo Bolsonaro lá em 2016: “Não compre dólar agora!”. 

O ano vai chegando ao fim com aquela sensação de que governar em paz, para todos, com respeito à democracia sem excluir ninguém seria utopia. A dificuldade de encontrar o caminho da sensatez e da defesa de todos aqueles valores humanos e liberdades que nos redimem atrapalha Bolsonaro. Será? 

Em um cenário pessimista, Bolsonaro era um presidente Imprevisível e errático, desconcertando aliados e rivais com mensagens improvisadas nas redes sociais e declarações bombásticas. Um espaço vazio na presidência que era ocupado por todo um clã marcado por reações exageradas. 2020 está logo ali, façam suas apostas.