Retrospectiva da década: como o populismo de direita chegou ao topo do mundo

AP Photo/Evan Vucci

Por Nathan Fernandes

Um dos episódios mais dramáticos da série House of Cards termina com o fictício presidente Frank Underwood declarando guerra aos terroristas, depois de uma negociação de sequestro. A ideia do governante não é salvar os Estados Unidos de uma ameaça, mas desviar a atenção de uma reportagem que o compromete.

Em uma das cenas, a primeira-dama (e parceira nos crimes do marido) Claire Underwood diz que cansou de tentar ganhar o coração das pessoas. “Nós podemos trabalhar com o medo”, sugere ela. Assim, com uma guerra — que poderia ter sido evitada — em andamento, o episódio termina com um aviso ameaçador de Frank aos espectadores da série: “Nós não nos submetemos ao terror, nós o criamos”, em clara referência à Guerra ao Terror, de George W. Bush, nos anos 2000.

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Quase duas décadas depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, homens-bomba parecem não ser mais uma preocupação recorrente em solo norte-americano. Mas o medo continua sendo um commoditie disputado entre os políticos. Nos últimos dez anos, ele só mudou de aparência — e ajudou no fortalecimento de regimes conservadores de extrema direita. 

Uma das fôrmas que moldaram o medo na segunda década do século 21 foi criada antes mesmo de seu início. “Em parte, o fortalecimento dos governos populistas de direita tem a ver com a crise financeira de 2008”, explica Eduardo Mello, professor de política e relações internacionais da FGV. “Esse fortalecimento é ligado ao aumento do desemprego, da pobreza, da desigualdade e à resposta que alguns países deram à crise. Existe um contingente muito grande de pessoas que sofreu impacto tanto do avanço da automação e da tecnologia (que reduziu empregos e salários) quanto da crise em si, formando um ambiente perfeito para o surgimento desses movimentos populistas.” 

Se em House of Cards os personagens se aproveitam do medo de terroristas para manipular os eleitores, na vida real, populistas contemporâneos manipulam através do medo da instabilidade financeira, além da perda de emprego e benefícios sociais. Isso ajuda a explicar o preconceito contra um dos bodes expiatórios mais convenientes para políticos nacionalistas: os imigrantes, que, em 2015, fugindo em sua maioria de áreas de conflito como a Síria e o Afeganistão, deflagraram a maior crise migratória na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. 

“Em geral, o primeiro culpado evidente é encontrado fora do país. Assim, nada mais lógico que Donald Trump culpar a China pelos problemas econômicos dos Estados Unidos”, escreveu o cientista político alemão Yascha Mounk, no livro “O Povo Contra a Democracia”. “Tampouco deveria causar surpresa que ele aproveite dos medos das pessoas e alegue que os Estados Unidos estão sendo tomados por estupradores (mexicanos) e terroristas (muçulmanos).” 

Não é a toa que a escritora Audre Lorde define o medo como “um país em que nos emitem um passaporte ao nascer e esperam que nunca busquemos a cidadania em outro lugar”. É como se o medo nos aprisionasse em suas fronteiras metafóricas, mas a ascensão de regimes conservadores da extrema direita provam que a metáfora pode ser real. No caso da Europa, o passaporte para esse pavoroso “país” foi emitido mais cedo do que nos Estados Unidos, fazendo com que líderes como o húngaro Viktor Orbán, eleito em 2010, pavimentassem o caminho para a chegada de governantes como Donald Trump, a partir de 2016. 

Em uma década de discursos xenófobos, Orbán transformou a Hungria, um país que já foi proclamado por cientistas políticos como uma democracia consolidada e vibrante, em uma autocracia nebulosa. No mesmo período, na Europa, assistimos também ao crescimento vertiginoso de partidos de extrema direita com forte retórica anti-imigração, como a Liga, na Itália; o PiS (Partido da Lei e Justiça), na Polônia; o AfD (Alternativa para a Alemanha), na Alemanha; e o Vox, na Espanha. Além disso, também é impossível negar o apelo nacionalista de políticos como Nigel Farage, líder do Partido do Brexit, na Inglaterra, que defende a saída do país do bloco europeu. 

Olhando de longe, a França de Emmanuel Macron, que tem um sistema político diferente dos países vizinhos, parece até uma ilha democrática cercada por um oceano conservador, depois que conseguiu afastar do poder o partido de extrema direita de Marine Le Pen. “A França é o único país da Europa que tem um sistema presidencial como os EUA”, explica Eduardo Mello, da FGV. “Le Pen virou uma grande força no Parlamento, mas não conseguiu a presidência porque, no segundo turno, todos os partidos se uniram contra ela para evitar a chegada da direita populista no poder. Essa é uma característica do sistema presidencial.” 

Para Yascha Mounk, os populistas europeus veem inimigos por toda parte e a maioria expressa seu ódio de maneira mais velada. “Mas a retórica deles tem a mesma lógica subjacente. Como Trump, Le Pen e Farage acreditam que a culpa é dos estrangeiros — parasitas muçulmanos ou encanadores poloneses — se os salários ficam estagnados ou a identidade nacional é ameaçada por recém-chegados”, escreve ele. “E, como Trump, culpam o establishment político — dos burocratas de Bruxelas à mídia falaciosa — por seu fracasso em cumprir com as promessas exageradas.” 

Do outro lado do Atlântico, a eleição de Donald Trump — que não contou com o mesmo empenho francês em barrar seu avanço, já que nenhum republicano se posicionou publicamente contra o empresário — mostrou que a democracia mais antiga e mais sólida do mundo também tem rachaduras, as quais servem de inspiração para democracias mais jovens e frágeis. “Essa onda conservadora internacional acontecendo em países que eram usados como referência evidentemente autoriza países menos desenvolvidos, como o Brasil”, acredita o cientista político Eduardo Grin, da FGV/EAESP. “E isso é um movimento que a internet divulga rapidamente, criando uma ‘Internacional contra a democracia’, para usar o exemplo da Internacional Comunista. O grande representante disso é o grupo do Steve Bannon, que era assessor do Trump e hoje é o grande guru dessa articulação antidemocrática.”

A última década foi rica na revelação de novas estratégias para a chegada de regimes autocráticos no poder. Ironicamente a via eleitoral também se mostrou como um caminho para a derrubada da democracia. Hoje, aqueles que a querem ver morta usam as próprias instituições democráticas para isso, criando um paradoxo político esquizofrênico. Não há mais golpes e tomadas violentas de poder, mas eleições diretas. “Desde o final de Guerra Fria, a maior parte dos colapsos democráticos não foi causada por generais e soldados, mas pelos próprios governos eleitos”, escrevem Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em “Como Morrem as Democracias”. “Como Chávez na Venezuela, líderes eleitos subvertem as instituições democráticas em países como Geórgia, Hungria, Nicarágua, Peru, Filipinas, Polônia, Rússia, Sri Lanka, Turquia e Ucrânia. O retrocesso democrático hoje começa nas urnas.” 

Para Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP, essa capacidade de apoiar autocratas é uma característica da América Latina. “A elite latino americana é capaz de se aliar às piores figuras para preservar seus interesses. O caso do Peru com [Alberto] Fujimori é um clássico. Se tiver que mobilizar a violência, eles mobilizam. Acho que isso explica porque essa elite vive bem com o aparente desconforto que o Bolsonaro produz em alguns setores da sociedade: ele entrega o que promete. Ele prometeu o desmonte do estado brasileiro e ele entregou, ele prometeu uma reforma previdenciária que acabava com a própria possibilidade de previdência para garantir os processo de acumulação e ele entregou. É isso que importa.”

Essa amarga aliança é refletida na fábula que Levitsky e Ziblatt citam no começo de seu livro, que fala da disputa entre um cavalo e um javali. Querendo derrotar seu rival, o cavalo pede ajuda a um caçador, que prontamente aceita o pedido com a condição de poder colocar uma peça de ferro entre suas mandíbulas para que possa guiá-lo. O cavalo aceita e os dois vencem o javali. Mas na hora de se livrar das rédeas, o caçador recusa e diz que prefere manter o cavalo assim.  

Segundo Safatle, nem todos os cavalos caem no conto do caçador. O professor afirma que, apesar da direita ter se organizado melhor, capitaneando o discurso de mudança, a guinada dos últimos anos não foi apenas conservadora. “Houve uma guinada em direção aos extremos, inclusive à esquerda”, diz. Como exemplo, ele cita pesquisa da consultoria YouGov que mostra que 70% do millennials norte-americanos admitem ser “muito provável” votar em um candidato socialista à presidência em 2020. 

Ainda segundo a consultoria, Bernie Sanders, um candidato abertamente socialista, é o terceiro político mais popular do Partido Democrata nos Estado Unidos. Além disso, levantes populares que ainda ardem no Equador, Chile, Bolívia e Colômbia mostram que os caçadores podem saber manipular o medo, mas perdem o controle sobre as rédeas do cavalo quando elas estão mal colocadas.