Retrospectiva do fotógrafo carioca Walter Firmo chega ao Rio nesta quarta-feira

"Fotografia é investigação, posse e cerimônia”, afirmou, certa vez, Walter Firmo, um andarilho de olhar faminto e curioso "em constante deambular com sua câmera fotográfica. É também uma apreensão, o tombamento de uma fresta de tempo que se cristaliza na superfície da imagem. Algumas delas — raras — guardam a grandeza do ato fotográfico, mérito do tombamento, aludem à convicção de que o ser humano “é bom, veio para viver na fantasia e no paraíso”. A Firmo — fotógrafo carioca, negro, sambista, poeta e suburbano — devemos o conhecimento de muitos registros dessa natureza. Imagens que são verdadeiros descobrimentos.

Parte dessas fotos poderá ser vista de perto pelos cariocas, a partir de quarta-feira, dia 9, no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro, quando será inaugurada a mostra “Walter Firmo: no verbo do silêncio a síntese do grito”. A retrospectiva traça um panorama de mais de sete décadas de trajetória do fotógrafo de 85 anos. A exposição, com 266 imagens, produzidas de 1950 a 2021, ocupará todas as salas do segundo andar do CCBB, depois de ter sido exibida com enorme sucesso no Instituto Moreira Salles de São Paulo, marcando o início da parceria entre as duas instituições.

“Coloquei os negros numa atitude de referência no meu trabalho. Fotografei os músicos, os operários, as festas folclóricas. Enfim, toda a gente. A vertigem é em cima deles, de honrá-los e retratá-los como totens, como homens que trabalham e existem. Eles ajudaram a construir esse país a chegar aonde chegou”, analisa Firmo. Curadora da exposição (ao lado de Sergio Burgi), professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenadora do grupo de pesquisa Afrovisualidades: Estéticas e Políticas da Imagem Negra, Janaina Damaceno Gomes exalta essa relação amorosa entre o artista e seus objetos. “Se numa sociedade racista, a norma é o ódio e o auto-ódio, como nos mostram os trabalhos de bell hooks e Frantz Fanon, amar a negritude compreende um percurso necessário de cura. Não é à toa que Firmo define a cor em seu trabalho em termos de amor pela cultura negra”, reflete. “Mas é necessário entender que o direito a olhar não se restringe à ideia de autorrepresentação.”

Aos longo dos anos, a fotografia de Walter Firmo foi responsável por desvendar o Brasil. Revelou traços, mostrou a dignidade do povo e a grandeza de gigantes das artes, como na antológica cena do músico Pixinguinha, recostado na cadeira de balanço, saxofone, monumento iconográfico da memória coletiva. Há muitos outros retratos memoráveis de ícones da nossa música, como os de Dona Ivone Lara e Clementina de Jesus. “Walter Firmo capta com intensidade a força e a beleza de mulheres negras em sua diversidade. Ele tem um olhar atento, sobretudo às nossas matriarcas, retratando as mulheres negras mais velhas com dignidade, majestade e respeito. Poderíamos dizer que elas são as suas verdadeiras musas”, pondera Janaina .

Visionário, Firmo também foi ao futuro, registrou e trouxe imagens para atualizar o presente. Se hoje a obra de Arthur Bispo do Rosário é considerada extremamente relevante no cenário da arte contemporânea, em seus tempos de interno "da Colônia Juliano Moreira, não era bem assim. Em 1985, o fotógrafo esteve lá, fotografou e guardou. Como Bispo, que bordou incessantemente o seu manto até o fim da vida para subir ao céu, Firmo cerziu imagens que, depois, resultariam no livro “Um olhar sobre Bispo do Rosário” (Editora NAU, 2013). “Fui o único fotógrafo a estar com ele, com os objetos, com o seu universo. Pessoa agradável, baixinho como eu, me atendida em tudo que pedia. Passei duas tardes inteiras com ele, uma das coisas mais gratificantes que me aconteceram.”

Nas imagens de Firmo faz-se presente a dialética elucubrada pelo filósofo alemão Walter Benjamin, em que a experiência estética pode ser capaz de emancipação do sujeito das armadilhas do capitalismo tardio. São imagens de um passado que, como a flecha do tempo, perpassou em alta velocidade mas que, por meio das fotografias, nos permitem retornar. As fotografias de Firmo remontam a um passado que não podemos esquecer. Como na cena escultural de Mestre Jamelão, o Pedra 90, postado contra um fundo amarelo tal qual um monumental “nó na madeira”.

A chegada da mostra ao Rio, sua cidade natal, é celebrada. “Aqui é o meu reduto, tem Irajá, Oswaldo Cruz. Aqui me criei, me fiz homem e artista da foto. Esta exposição é na minha cidade maravilhosa. O que quero mais? Aos 85 anos, é mais "que uma homenagem”, diz. Na sequência, lembra da música “Quando eu me chamar saudade”, de Nelson Cavaquinho. “‘Por isso é que eu penso assim/ Se alguém quiser fazer por mim/ Que faça agora/ Me dê as flores em vida. Depois, que eu me chamar saudade/ Não preciso de vaidade’”.