Retrospectiva O GLOBO: de Kobe a Maradona, as mortes que abalaram o esporte em 2020

Renan Damasceno
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Editoria de Arte

O ano que marcou profundamente o esporte e a sociedade, seja pela pandemia ou pelas manifestações políticas e antirracismo, também será lembrado pela tragédia aérea de um homem que sabia voar em quadra e pela despedida de um ídolo dos gramados que era tratado como um deus pelo seu povo. Kobe Bryant e Diego Maradona, dois dos maiores nomes das quadras e campos, são duas das mortes mais sentidas em um 2020 que o mundo precisou conviver constantemente com o luto. Na temporada que o “novo normal” foi o vazio nas arquibancadas, as ruas cheias de Los Angeles, em janeiro — ainda antes da paralisação pelo coronavírus — e de Buenos Aires, em novembro, foram imagens impactantes.

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Pentacampeão da NBA com o Los Angeles Lakers, bicampeão olímpico com a seleção americana e um dos maiores jogadores de todos os tempos, Kobe Bryant morreu em 26 de janeiro em queda de helicóptero, na Califórnia, que também vitimou sua filha, Gianna, de 13 anos, e mais sete pessoas. Eles estavam a caminho do jogo da garota, que seguia os passos do pai. A morte de Bryant foi seguida por homenagens ao redor do mundo e com celebração com milhares de fãs no Staples Center, ginásio do Lakers.

Jogadores como Michael Jordan e LeBron James se despediram do astro, que foi lembrado na conquista do título da franquia californiana, em outubro — os Lakers usaram um uniforme negro desenhado pelo próprio Kobe.

O basquete americano também se despediu do técnico Jerry Sloan, ex-Utah Jazz; de Wes Unseld, membro do Hall da Fama e ídolo do Washington Wizards; e de K.C. Jones, vencedor de 12 títulos — oito deles como jogador do Boston Celtics. No Brasil, a modalidade perdeu dois nomes que marcaram época pela seleção brasileira: o pivô Gerson Victalino, o Gersão, campeão do Pan de Indianápolis-1987; e Marlene Bento, uma das pioneiras do basquete feminino, capitã nas décadas de 1960 e 1970.

Já a morte de Maradona parou a Argentina. Os torcedores se juntaram para o adeus ao campeão mundial de 1986 e maior ídolo do futebol do país, velado na Casa Rosada, sede do governo — honra que apenas outro nome fora da política havia tido, o piloto Juan Manuel Fangio. A despedida foi tomada pela multidão e confusão, em um velório que foi encerrado antes do previsto e com estimativa de 1 milhão nas ruas.

Maradona morreu aos 60 anos de parada cardiorrespiratória enquanto dormia, em 25 de novembro. O coração do ídolo pesava 503 gramas, cerca do dobro de uma pessoa normal. Técnico do Gimnasia y Esgrima, ele havia passado por um procedimento cirúrgico na cabeça dias antes e se recuperava em casa. Uma perícia toxicológica, divulgada na semana passada, não registrou uso de drogas ilegais nem álcool.

Poucos dias depois da despedida de Maradona, os argentinos perderam Alejandro Sabella, técnico da seleção vice-campeã mundial na Copa do Mundo do Brasil, em 2014. Como jogador, teve passagem pelo Grêmio.

Campeões mundiais

Maradona não foi o único campeão mundial que partiu sob homenagens dos fãs. Duas semanas após a morte do argentino, o italiano Paolo Rossi foi vítima de um câncer no pulmão que o vitimou aos 64 anos. Se Maradona carregou a Argentina nas costas na Copa do Mundo de 1986, Rossi foi o responsável direto pela conquista da Azurra quatro anos antes. Ele ficará eternamente associado como algoz de uma das melhores seleções brasileiras de todos os tempos pelos três gols na vitória por 3 a 2 na partida conhecida como a “tragédia de Sarriá”. O velório, em Siena, reuniu campeões de várias épocas.

Já a Inglaterra se despediu de dois campeões mundiais de 1966: Jack Charlton, ídolo do Leeds United e irmão mais velho de Bobby Charlton, também titular do English Team; e Nobby Stiles, que era meio-campista na conquista em casa.

O Brasil perdeu Jair Marinho, lateral direito que integrava a seleção campeã de 1962 no Chile como reserva de Nilton Santos. O ídolo do Fluminense — clube pelo qual fez 258 jogos — sofreu um AVC em fevereiro e morreu no início de março, em Niterói. Com a morte de Jair Marinho, o Brasil passou a ter mais campeões mundiais de 1958, 1962 e 1970 mortos do que vivos entre os 51 vencedores.

O Fluminense também teve a perda de ídolos como Escurinho, um dos atletas que mais vestiram a camisa tricolor. O Botafogo lamentou a morte do argentino Rodolfo Fischer, “El Lobo”, estrangeiro que mais atuou com a camisa alvinegra. Já o Flamengo teve a morte de Silva Batuta que, além de jogador, foi funcionário do clube. E o Bangu disse adeus ao ponta Marinho, melhor jogador da campanha histórica do vice-campeonato brasileiro de 1985. Revelado pelo Atlético-MG e com passagem pelo Botafogo, Marinho lutava contra pancreatite e câncer e teve a vida marcada por tragédias e excessos com álcool.

Luto nas pranchetas

O Brasil também perdeu técnicos reconhecidos. Campeão Mundial pelo Grêmio, em 1983, Valdir Espinosa desempenhava a função de gerente técnico do Botafogo, clube pelo qual conquistou o Carioca-1989, quando não resistiu às complicações pós-cirurgia no intestino, no início de fevereiro. Em maio, Oswaldo Alvarez, o Vadão, ex-técnico da seleção brasileira feminina, perdeu a luta para um câncer no fígado. Outro treinador com passagem pelo Brasil, mas no sub-17, Carlos Amadeu sofreu um ataque cardíaco fulminante, na Arábia Saudita, onde trabalhava nas categorias inferiores do Al Hilal.

Em dezembro, dois ex-atletas e com trajetória nas pranchetas foram vítimas da Covid-19. Marcelo Veiga, ex-jogador do Santos e que treinou diversos clubes do interior paulista, com destaque no Bragantino, faleceu aos 56, no dia 14. Dois dias depois foi a vez de Renê Weber, de 59, que foi jogador do Fluminense e campeão brasileiro em 1995 como auxiliar técnico do Botafogo, que também foi seu último trabalho.

Também pelo novo coronavírus, morreu ontem, aos 58 anos, Paulo Magro, presidente da Chapecoense desde 2019.

Algumas outras perdas

Janeiro

24/1 Resenbrink, ex-jogador holandês, aos 72, de atrofia muscular

Abril

1º Dirceu Pinto, campeão paralímpico de bocha, aos 39, de problemas cardíacos

Maio

22 Jerry Sloan, ex-jogador e técnico da NBA, aos 78, de Parkinson

Junho

2 Wes Unseld, ex-jogador da NBA, aos 74 anos, de causa não divulgada

9 Ronaldo Drummond, ex-Atlético-MG e Palmeiras, aos 73, de hemorragia gástrica

18 Tibor Benedek, tri olímpico de polo aquático, aos 47, de câncer no pâncreas

Agosto

16 - Zé Maria, ex-Volta Redonda e Fluminense, aos 66, de câncer

Setembro

9 Assis, ex-Fluminense e Remo, aos 76, de causa não divulgada

30 Silva Batuta, ex-Flamengo, aos 80, de Covid-19

Outubro

4 Rafael Coutinho, ex-Vasco, aos 36, de infarto

Novembro

10 Dino da Costa, ex-Botafogo e Roma, aos 89

29 Bouba Diop, ex-jogador de Senegal, aos 42, de doença degenerativa

Dezembro

14 Marcelo Veiga, ex-jogador e técnico de futebol, aos 56, de Covid-19

27 Carbone, ex-Fluminense e Guarani, aos 74, de câncer hepático