Retrospectiva O GLOBO: Sete atletas que se destacaram fora das quadras, gramados ou pistas

Rafael Oliveira
·6 minuto de leitura
Editoria de Arte

A pandemia de Covid-19 afetou as competições de tal maneira que os gols, as cestas, os pontos, os pódios e todas as outras formas de celebração foram menos vistas em 2020. Mas, ao mesmo tempo, pode-se dizer que foi um ano em que os atletas mais se destacaram enquanto cidadãos. As discussões em torno do antirracismo, da luta política e do papel da ciência estiveram tão presentes na sociedade que o esporte não conseguiu ignorá-las.

Este destaque, contudo, não necessariamente foi positivo. Ainda que muitos tenham servido como inspiração graças a seus atos e posicionamentos, houve também quem tenha chamado a atenção por atitudes questionáveis.

Não é novidade a relação da liga de basquete profissional dos Estados Unidos, a NBA, com a luta contra o racismo. Mas em 2020 ela foi além. Primeiro foram os tiros em Jakob Blake, em maio. Enquanto milhares de pessoas iam as ruas protestar contra mais uma violência injustificada contra um negro pela polícia, os jogadores usaram suas redes sociais para repudiar o crime.

Em agosto, quando George Floyd foi morto, a manifestação foi maior. Os jogadores do Milwaukee Bucks, maior franquia do Estado de Wiscosin, onde o crime ocorreu, se recusaram a entrar em quadra. Eles enfrentariam o Orlando Magics, que também aderiu à manifestação. Em pouco tempo, toda a fase final do torneio foi paralisada. Os atletas cogitaram dar o campeonato como encerrado. Mas, após uma série de negociações com a direção da liga, eles conseguiram que a diretoria aceitasse adotar medidas para aumentar a conscientização política da população e o acesso ao voto.

Jogador mais midiático da NBA, LeBron foi o grande rosto deste movimento. Embora não tenha sido quem iniciou o protesto, ele usa sua potência enquanto canal de comunicação para passar a mensagem antirracista, que também teve, como emissor, o maior protagonista de outro esporte popular no mundo dodo.

O ano de hamilton

O grande nome do automobilismo foi Lewis Hamilton. 2020 foi o ano do inglês na Fórmula-1. Ele manteve sua hegemonia esportiva e igualou Michael Schumacher em títulos (sete para cada), além de ter superado o recorde de 91 vitórias do alemão. Único piloto negro da modalidade, ele usou os holofotes para engajar mais gente na luta antirracista. Não foi às ruas apoiar o movimento "Black Lives Matter (Vidas negras importam), como tentou unir toda a categoria, marcada pela branquitude e pelo elitismo, nesta causa.

Alguns êxitos foram obtidos. Após a morte de George Floyd, o grid de largada do GP da Áustria foi um ato de protesto que contou com a presença de quase todos os pilotos. O gesto se repetiu em corridas seguintes. Mas a verdade é que, na rica Fórmula-1, muitos abandonaram o ativismo. Outros nunca aderiram. Algumas provas depois, Hamilton chegou a se queixar da queda na adesão tanto dos companheiros de disputa quanto das equipes, que não agiram para tornar o esporte mais inclusivo.

Inclusão também foi pauta para Naomi Ozaka. A tenista japonesa foi o grande acontecimento do US Open 2020. A cada vez que entrou em quadra, carregou em sua máscara o nome de uma pessoa negra que foi morta vítima do racismo entranhado na polícia americana. Como ela chegou até a final, foram sete homenageados: Breonna Taylor, Elijah Mcclain, Ahmud Arbey, Travyon Martin, George Floyd, Philando Castile e Tamir Rice. O título (o segundo no torneio) coroou seu talento e seu ativismo.

Enquanto Naomi Osaka chamou as atenções pelo talento e o engajamento na luta antirracista, o número 1 entre os homens, Novak Djokovic, virou notícia por sua postura negacionista diante da pandemia de coronavírus. Além de ter dito, em uma live de tenistas, que se recusaria a tomar uma vacina, organizou um torneio com público que virou um bomba disseminadora de Covid-19.

O Adria Tour contou com etapas na Croácia e na Sérvia e festas nos dois países. Resultado: após quatro casos de tenistas contaminados (entre eles o próprio Djoko), a competição foi cancelada. E a imagem de Djokovic ficou arranhada publicamente e com os próprios companheiros de esporte.

A mudança de neymar

Maior jogador brasileiro em atividade, Neymar já foi muito criticado por ter declarado, em 2010, que não se considerava negro, o que causou estranheza. Mas o tempo passou e, em 2020, ele deu claras demonstrações de ter revisto sua posição. Primeiro, em setembro, em jogo contra Olympique de Marselha. O atacante acusou o zagueiro espanhol Álvaro Gonzalez de disparar insultos racistas contra ele. Em campo e nas redes sociais, deixou claro que não toleraria atitudes como aquela. A federação francesa não puniu o acusado por falta de provas.

Em dezembro, o brasileiro não foi protagonista, mas emprestou seu apoio à manifestação dos jogadores do Istambul Basaksehir, adversário pela Liga dos Campeões. E não foi um protesto qualquer. Pela primeira vez que se tem notícia, um jogo de futebol profissional foi interrompido porque os atletas se recusaram a continuar em campo após o quarto árbitro insultar um membro negro da comissão técnica. A partida só teve sequência no dia seguinte, com um novo quarteto de arbitragem e protestos antirracistas antes do apito inicial.

Companheiro de Neymar na seleção, Richarlison já era conhecido por seu talento e por seu carisma. Mas, em 2020, consolidou-se como uma das vozes mais influentes entre os jogadores de futebol. O “pombo” como é apelidado, usou suas redes sociais para questionar o assassinato em massa de negros pela polícia brasileira e a omissão do governo na luta contra as queimadas que devastaram o Pantanal. Durante a pandemia, ele ainda emprestou sua imagem para ser o embaixador do projeto USP Vida, da Universidade de São Paulo, voltado para pessoas que tenham interesse em fazer doações para as pesquisas que a instituição tem desenvolvido no combate à Covid-19.

Para completar, Richarlison ainda ajuda financeiramente, sempre sem fazer alarde, pessoas carentes e projetos voltados para apoiá-las. Ao fim da temporada 2019/2020 do futebol inglês, ele recebeu um prêmio da associação de jogadores da liga que reconhece o atleta que mais se destacou em ações sociais.

Um grito que ecoou

O que era para ser apenas uma manifestação política individual ganhou contornos muitos maiores. Em setembro, a jogadora de vôlei de praia Carol Solberg usou o microfone para gritar “Fora, Bolsonaro!” durante a premiação da etapa de Saquarema do Circuito Brasileiro. Só que tanto o torneio quanto a Confederação Brasileira de Vôlei são patrocinados pelo Banco do Brasil. Embora ela não tenha feito nenhuma crítica à estatal, foi o suficiente para o Superior Tribunal de Justiça Desportiva denunciá-la com base em artigos que falam em descumprimento das regras da competição e conduta contrária a ética desportiva. Ela poderia ser suspensa por até 180 dias.

O caso imediatamente se politizou. A comissão de atletas do vôlei, presidida por Emanuel Rego, emitiu nota reprovando o gesto de Carol e prometendo lutar para que atletas não possam se manifestar politicamente. Já outros jogadores, ex-esportistas e jornalistas apontaram censura na decisão do STJD. O Ministério Público pediu explicações ao órgão e o questionou por falta de isonomia, já nunca entrou com ação contra os atletas que, à serviço da seleção de vôlei masculina, fizeram campanha para Bolsonaro durante a eleição de 2018.

Após receber uma advertência, Carol conseguiu ser absolvida em segunda instância. Já Emanuel ficou desgastado entre sua classe.

Por certo, 2021 começará com o esporte mais engajado e conectado com questões políticas, raciais e da ciência. E com atletas cientes de que o destaque pode vir também fora dos campos, quadras e pistas.