Reunião com empresários é o Baile da Ilha Fiscal de Bolsonaro

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A grafitti is seen on a wall of the Tijuca Health Basic Unit (UPA) showing President's Jair Bolsonaro face inside representations of the COVID-19 virus at the Tijuca neighborhood, Rio de Janeiro state, Brazil, on April 08, 2021. (Photo by Mauro Pimentel / AFP) (Photo by MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images)
Foto: Mauro Pimentel / AFP (via Getty Images)

Com o teste positivo para Covid-19, o atacante Luiz Adriano, do Palmeiras, foi afastado do restante do elenco que na quarta-feira 7 entraria em campo, na Argentina, para a primeira partida da Recopa Sul-Americana, contra o Defensa y Justicia. O protocolo foi cumprido pela metade.

Em vez de se recolher, como pedem as autoridades sanitárias, ele levou a mãe para fazer compras no shopping. O caso só veio à tona porque, no caminho, se envolveu em um acidente de trânsito.

De banal o episódio só tem a pecha de filme velho, que se repete e se repete a ponto de se banalizar.

Todo mundo conhece alguém que, sentindo-se bem, apesar do diagnóstico, evitou se recolher e saiu por aí distribuindo o vírus numa roleta russa que já vitimou quase 350 mil pessoas no país.

Quantos não tiveram contato com o vírus por causa de escapadinhas do tipo? A pergunta deveria atormentar quem, na ausência de sintomas ou co sintomas leves, decide colocar em risco não a própria vida, mas a de quem tiver o azar de cruzar pelo caminho em vias públicas nas quais o uso de máscara, idiotamente tratado como objeto de polêmica, na prática é facultativo.

Em que planeta vive essa galera?

Na mesma semana, ministros do Supremo Tribunal Federal se reuniram virtualmente para decidir se, no pior momento da pandemia, era razoável obrigar estados e municípios a abrirem igrejas e templos para receber fiéis em espaços propícios para a proliferação do patógeno e atualizar o maior sucesso do padre Marcelo Rossi. “Tem vírus voando neste lugar, no meio do povo e em cima do altar”.

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Por 9 votos a 2, os ministros reverteram o pedido de uma associação evangélica —e um deles ainda mandou o presidente do Senado abrir uma CPI para investigar as responsabilidades e omissões das autoridades públicas no combate à Covid. Há quem viva em outro Planeta e não veja razões para tal. Que Planeta é esse se não o que naturalizou a morte e banalizou ao ponto de uma mãe, casada com o suposto assassino, médico, vereador e cidadão de bem, a se vestir como se fosse para um baile e fazer selfie na delegacia antes de prestar depoimento sobre a morte do próprio filho? 

É o mesmo Planeta em que uma turma de empresários teria aplaudido o presidente da República que primeiro negou a gravidade da pandemia, depois garantiu que ela “só” mataria velhinhos e pessoas doentes; em seguida fez campanha contra o distanciamento social, o uso de máscara e a vacinação obrigatória, à qual tenta agora se converter em defensor de primeira grandeza pegando carona na aposta do governador de São Paulo, João Doria (PSDB) —a quem chamou de vagabundo na reunião com os executivos amigos. A vacina idealizada pelo “vagabundo” é responsável hoje por 80% das imunizações registradas no país até agora. Não fosse ela, a fila mal teria andado.

Em que Planeta se embrenham as mãos cheias de sangue que agora tanto aplaudem?

A localização exata é uma incógnita, mas lá os aplausos convivem certamente em harmonia com o silêncio de sepulcro que marcou a reunião ministerial comandada por Jair Bolsonaro em 22 de abril de 2020. O evento, um quadro no memorial da desgraça nacional, está prestes a completar um ano e não só está longe de desbotar como ainda oferece caminhos para entender como chegamos e nos mantivemos em cativeiro até aqui.

A reunião de 22 de abril de 2020, para quem se lembra, discutiu-se a gravidade de assuntos diversos; menos a pandemia que já matava quase 3 mil pessoas pelo país.

As preocupações palacianas eram outras: interferência na Polícia Federal, lealdade dos ministros que em breve desembarcariam do governo, liberação de armas para dar recado a esses “bostas” de prefeitos e governadores, legalização da jogatina para alavancar a economia, um certo plano Marshall que ficou na conversa e até um projeto para incentivar a juventude bolsonarista a acordar cedo, cantar o hino e construir estrada pela mesquinharia de R$ 200.

Se aquela reunião era o roteiro introdutório, o encontro de Jair Bolsonaro com os empresários aliados foi o episódio final. Sim, o fim da linha. Ainda não se sabe se para ele ou se para os brasileiros na fila do abate.

Além do ataque pelas costas ao governador paulista, Bolsonaro teria, no encontro, constrangido seu novo ministro da Saúde, o quarto desde o começo da crise, porque Marcelo Queiroga usava máscaras diante dos presentes.

Ainda assim, ouviu aplausos, segundo relatos dos presentes.

A atmosfera do encontro, em clima amistoso, afável e otimista tem tudo para ser lembrado em breve como o Baile da Ilha Fiscal da era Bolsonaro. Realizado em 9 de novembro de 1889, o regabofe original foi a última grande festa da monarquia antes da Proclamação da República, seis dias depois, e reuniu a nata da sociedade imperial para mostrar resiliência diante da onda republicana que se formava. Tudo ali cheirava a mofo, inclusive a decoração nababesca em jardins montados em duas mesas em formato de ferradura, onde os convivas se refestelam em torno de sorvete e faisão.

Em que mundo viviam? Um mundo que estava no fim e se desconectava de todo com o que acontecia do lado de fora.

Da versão 2021 daquela festa há versões de uma certa fissura. Quem estava dentro não queria sair e os de fora não queriam entrar. A polarização, ao que parece, chegou ao empresariado. Parte deles se nega a aplaudir e entrar para a história como os convivas do antigo império. Os demais precisam ser lembrados como sócios majoritários de um massacre.

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