Reunião de governadores com Pazuello mostra que a guerra da vacina já começou

Matheus Pichonelli
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Brazilian Health Minister Eduardo Pazuello delivers a speech during a ceremony to launch the Genomas Project at Planalto Palace in Brasilia on October 14, 2020. - The Genomas Project aims at making a population study to identify rare diseases by sequencing the DNA of 100,000 Brazilians. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
O ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello. Foto: Evaristo Sá/AFP (via Getty Images)

Em tempos normais, a margem para politização de um tema como a vacinação poderia até existir, mas estaria restrito pelo argumento de que qualquer decisão caberia aos técnicos dos órgãos responsáveis e ponto.

Como não são tempos normais, desconfia-se até se haverá decisão técnica em órgãos supostamente politizados. O fato de ter de usar aqui o supostamente mostra o nível de desconfiança sobre o assunto --que nunca, jamais, poderia estar hoje sob suspeita.

Este é o nível de avacalhação dos tempos atuais.

João Doria, governador de São Paulo, anunciou na segunda-feira 7 o seu cronograma para começar a vacinar a população em seu estado. Ainda ofereceu ajuda a outros entes da federação.

Fez isso mesmo sabendo que a vacina produzida pelo Instituto Butantan, em parceria com uma fabricante chinesa, ainda precisa passar por novos testes e registro. O anúncio antecipado jogou pressão sobre a Anvisa.

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No dia seguinte, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, foi enfático em dizer que todas as vacinas que tiverem seu êxito, sua eficácia e seus registros na Anvisa de maneira correta poderão ser adquiridas pelo governo federal.

Disse também que o plano nacional de imunização não pode ser paralelo. A esta altura do campeonato, pede que os entes falem a mesma linguagem --a de seu chefe, Jair Bolsonaro, é a linguagem da negação, da cloroquina e da não obrigatoriedade da imunização, mas vá lá.

“Nós só temos um inimigo: o vírus. Temos que nos unir”.

Corta a cena para a reunião do dia 22 de abril, quando o presidente quis mandar um recado para esses “bostas” de prefeitos e governadores ampliando o acesso a munição à população para lutar, se fosse o caso com armas, contra imposições de quem queria combater o vírus e evitar o colapso do sistema de saúde. Jogo que segue.

No encontro, Doria perguntou ao ministro se haveria restrições ideológicas em razão da procedência da vacina produzida em seu estado em parceria com a China. Pazuello cortou, dando a entender que o governador paulista usava o instituto de pesquisa para fins políticos.

Doria ainda foi criticado por colegas, caso de Ronaldo Caiado (DEM-GO), conforme relatou a coluna Painel, da Folha. Ele disse ser inadmissível que prefeitos da região tivessem de recorrer a São Paulo para providenciar a imunização de seus habitantes.

Caiado, que já se afastou e já se reaproximou novamente de Bolsonaro, evoca um incômodo de outros presentes na reunião.

Para eles, cabe ao governo anunciar calendário de vacinação, e não a um ou outro estado.

Certo.

Mas qual era o plano até ontem?

Nenhum.

O de hoje é que a vacinação comece em fevereiro se tudo correr bem.

São dois meses até lá.

Enquanto aqui a conversa ronda a farinha e o pirão alheio, o Reino Unido, que iniciou a crise com discurso negacionista, divulgou ao mundo a imagem de Margaret Keenan, de 90 anos, recebendo uma dose da vacina desenvolvida pela Pfizer/BionTech. Foi a primeira paciente do país a ser imunizada. O segundo foi um homem de 81 anos homônimo de William Shakespeare.

A guerra da vacina mal começou em território brasileiro. E não dá sinal de que acabará bem.