Reunificação de famílias de migrantes separadas por Trump é um desafio logístico

Ariela NAVARRO con la oficina de El Salvador
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Um menino hondurenho de dois anos chora enquanto sua mãe é detida na fronteira dos Estados Unidos com o México, em 11 de junho de 2018

No Natal de 2017, Karina, uma criança salvadorenha, foi separada de sua mãe por agentes da fronteira dos Estados Unidos durante 16 meses, agravando os traumas decorrentes da violência em seu país. Hoje, centenas de famílias divididas pela política de "tolerância zero" à migração irregular do governo Donald Trump continuam esperando.

O presidente Joe Biden quer reverter os efeitos da política de seu predecessor republicano e busca fazer da reunificação dessas famílias uma "prioridade máxima".

Para isso, vai criar um grupo de trabalho com o objetivo de reunir os cerca de 600 menores que ainda estão separados dos pais, segundo dados dos processos judiciais.

A política de Trump - estabelecida entre 2017 e 2018 - buscava conter o fluxo de migrantes sem documentos que tentavam entrar pela fronteira sul, muitos deles famílias da América Central fugindo da violência.

Sua implantação, que afetou cerca de 5 mil menores de idade, foi suspensa após uma onda de indignação.

Desde então, ONGs e advogados têm procurado reunir as famílias, com grande dificuldade porque muitos desses pais foram deportados e vivem em áreas rurais da América Central.

"Vamos trabalhar para desfazer a vergonha moral e nacional feita pelo governo anterior que de forma literal, não figurativa, arrancou crianças dos braços de suas famílias", afirmou Biden nesta terça-feira.

Altos funcionários indicaram que soluções serão propostas para esses reencontros, sem especificar se isso poderia incluir o retorno de adultos deportados aos Estados Unidos.

Para o diretor do Instituto Salvadorenho do Migrante, César Ríos, a separação de pais e filhos que, fugindo da violência e da pobreza, buscavam refúgio nos Estados Unidos, foi "uma medida desumana".

Na Guatemala, Leonel Dubón, diretor da ONG El Refugio de La Niñez, comemorou a medida e classificou a política de Trump como "violadora dos direitos humanos" e do direito à família.

- Tormento de 16 meses -

Karina e sua mãe Lorena - pseudônimos usados nos registros judiciais para protegê-las - fugiram de El Salvador para os Estados Unidos depois que um homem espancou a mulher e a deixou à beira da morte.

O agressor passou três dias na prisão e então ameaçou sequestrar a filha de Lorena.

Depois de serem detidas nos Estados Unidos, elas foram colocadas em uma prisão lotada que os migrantes chamam de "geladeira", por causa do frio.

Nas celas, crianças doentes vomitavam e ninguém limpava.

No dia de Natal, os guardas separaram Lorena de sua filha, sem dar a elas a oportunidade de se despedirem. Ela viu como a menina chorou e fez um sinal de coração com as mãos.

Começou assim um tormento de 16 meses, um pesadelo que para alguns ainda não terminou.

O governo Trump manteve registros muito ruins e fez pouco para cooperar com os grupos que tentavam reunir famílias de migrantes.

Os poucos dados disponíveis vieram principalmente de processos judiciais.

De acordo com o registro de um dos casos datados de janeiro, há 611 crianças que ainda estão separadas dos pais e "estima-se" que 392 pais foram deportados, outros 201 supostamente permanecem nos Estados Unidos, e em 18 casos sequer há rastros.

- "Não confiam em ninguém" -

Um funcionário do governo Biden reconheceu que ninguém sabe realmente quantas crianças estão longe de suas famílias. "Poderiam ser até 1.000", disse ele.

Essa força-tarefa precisa delinear as políticas e resolver uma questão-chave: se as famílias vão conseguir permanecer legalmente nos Estados Unidos.

Lorena, apesar de ter sido deportada, conseguiu retornar aos Estados Unidos.

Para os defensores dos migrantes, ficar nos Estados Unidos permitiria um monitoramento psicológico. No caso de Karina, a separação levou a pensamentos suicidas, ainda que diga que sabia que sua mãe a amava. Até hoje ela segue com sequelas.

A equipe de Biden tem sido cautelosa, dizendo que vai agir de acordo com a lei, mas que cada família representa uma situação diferente.

Cathleen Caron, diretora da organização Justice in Motion, explicou à AFP que encontrar os pais que foram deportados é muito difícil devido à má qualidade dos dados, o que se somou ainda à pandemia e depois aos dois furacões que atingiram a América Central em novembro.

“As famílias vêm da zona rural, a maioria delas da Guatemala”, afirmou. "A busca em comunidades montanhosas, inacessíveis, com base em informações deficientes, é árdua."

Além disso, ela explicou que há a falta de confiança das famílias após o trauma vivido.

“Eles foram profundamente prejudicados pelo governo dos Estados Unidos, por isso não confiam em ninguém”, concluiu.

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