Reverendo conduziu negociações de compra de vacina, segundo site do Ministério da Saúde

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Reverendo Amilton Gomes de Paula. Foto: Reprodução
Reverendo Amilton Gomes de Paula. Foto: Reprodução
  • Clérigo se encontrou com representantes da Davati

  • Trativas foram feitas de forma acelerada

  • Contrato de 400 milhões de doses de AstraZeneca foi negociado

O site oficial do Ministério da Saúde registrou uma negociação de compra de vacinas para o Brasil feita por um reverendo, que não tem relação com a pasta.

O reverendo em questão é Amilton Gomes de Paula, que preside a entidade que fundou em 2019, a Senar (Secretaria Nacional de Assuntos Religiosos). No ano passado, a organização passou a se chamar Senah - Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários. A Senah uma instituição privada e não tem relação oficial com o governo.

O nome do reverendo e a Senah aparecem em e-mails que Laurício Monteiro Cruz, diretor de Imunização do Ministério da Saúde, trocou com Herman Cardenas, presidente Davati Medical Supply.

No dia 9 de março, o diretor de Imunização do Ministério da Saúde, Laurício Cruz, autorizou o reverendo Amilton para que realizasse as negociações com a Davati para compra de 400 milhões de doses da vacina Oxford/AstraZeneca, representando governo brasileiro, mesmo sabendo que a empresa norte-americana não é representante oficial do laboratório que fabrica o imunizante.

No dia seguinte, em 10 de março, as negociações foram oficializadas no sistema eletrônico de informações do Ministério da Saúde. Menos de meia hora depois, o processo foi encaminhado para o gabinete da Secretaria-Executiva da pasta, responsável pela compra de vacinas.

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Em uma das cartas enviados pelo Senah ao Ministério da Saúde e para a Davati, datada de 4 de março o reverendo afirma: “Esta carta de intenção é endereçada para estabelecer o urgente e iminente interesse do nosso governo do Brasil em contratar e autorizar o vendedor para adquirir o suprimento de 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca”. As informações são do Jornal Nacional.

Em outra carta, enviada para o presidente da Davati, Herman Cardenas, afirma: “Nossa instituição está solicitando, como questão de urgência, uma cópia do SGS do lote das vacinas da AstraZeneca que estão no domínio da Senah, para que possamos apresentar numa reunião extraordinária com o governo federal brasileiro”.

SGS é uma empresa de certificação, que trabalha para avaliar se produtos atendem às especificações exigidas.

O representante da Davati no Brasil, Cristiano Carvalho, afirmou ao Jornal Nacional que se encontrou com o então secretário-executivo da pasta, Élcio Franco, no dia 12 de março. Ele foi exonerado do cargo no mesmo mês.

Um representante da Senah, durante as tratativas, passou para a Davati o nome de duas empresas norte-americanas para as quais o pagamento de comissão podia ser realizado, caso o contrato das 400 milhões de doses fosse fechado.

As empresas são a DFRF Golden Angel Foundation Corporation e a DFRF American Golden Eagle Trading Company, ambas sediadas na Flórida. No e-mail e o nome do reverendo Amilton Gomes de Paula estão associados às duas empresas, incluindo dados bancários.

A DFRF Golden Angel está registrada como entidade sem fins lucrativos. Entre seus diretores, está Amilton e Daniel Fernandes Rojo Filho.

Daniel Fernandes foi preso em 2015 nos Estados Unidos acusado de envolvimento em uma fraude multimilionária.

O diretor Laurício Cruz afirmou, em entrevista ao Jornal Nacional, que foi chamado para negociar com o reverendo Amilton, mas que não se sabia do que se tratava. O encontro teria ocorrido no escritório de Cruz. Ele disse também que indicou o nome do reverendo para o CEO da Davati nos EUA como responsável pelas negociações.

Na mesma entrevista, Cruz revelou que o ministério não conferia a idoneidade das pessoas que conseguiam agendamento de reuniões para oferecer vacinas. Ele admitiu que se as denúncias forem reais, houve ao menos uma enganação. “No mínimo, uma enganação. No mínimo, no mínimo, uma enganação. Vamos dizer assim”, declarou.

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