Revisões do Caged ampliam insegurança em dados econômicos

Os dados da geração de emprego formal são um bom termômetro da economia. Mas desde que os parâmetros do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) foram alterados, as constantes revisões geram dúvidas em torno destas informações, reduzindo sua utilidade por agentes econômicos, que já se ressentem da falta de outras bases que estão suspensas por uma série de paralisações de servidores.

Nesta semana, uma nova revisão da geração de emprego “eliminou” 48 mil vagas que haviam sido divulgadas como criadas em março. Na publicação dos dados de emprego de abril, os números de março foram reduzidos da geração de 136,1 mil vagas para 88,1 mil. No fim do ano passado, uma revisão ainda maior fez com que a criação positiva de empregos CLT em 2020 de 142,7 mil vagas se tornasse negativa em 193 mil vagas.

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Para Piter Carvalho, economista da Valor Investimentos, pontua que a revisão dos dados é de uma diminuição de 35,2% de março teve impacto, pois os números mostram um cenário tranquilo, mas a realidade é outra.

— Se você não tem número oficial, não tem meta, ninguém vai criticar porque ninguém sabe os números oficiais. O mercado trabalha, mas sente falta do boletim Focus e ainda desconfiando dos dados do governo, uma ou duas vezes errado — diz.

Carvalho também lembra da greve dos servidores do Banco Central, que estão atrasando as divulgações de relatórios, o que pode afetar a divulgação dos dados do Copom na próxima semana. Além deles, servidores do Tesouro estão paralisados e também há atrasos nas divulgações de relatórios do setor.

Ele ainda argumenta que há uma comemoração pelo retorno aos patamares de emprego pré-pandemia, mas que já havia desemprego elevado nesse período e que a incerteza em relação aos dados podem gerar efeitos perversos tanto para as análises de mercado quanto para as decisões de governo.

— O que é ruim desses números é que mostram que (o ministro da economia Paulo) Guedes e equipe estão em voo cego. Fatalmente vão tomar medidas erradas na economia ou achar que estão na direção certa. Quando os números são revistos, mostram que eles estão enxergando outra realidade — pontua.

Para o economista Lucas Assis, da Tendências Consultoria, de modo geral, a revisão não altera a análise geral do mercado de trabalho formal.

— É importante destacar que as revisões do saldo líquido de vagas formais pelo novo Caged são frequentes e gradativas – ressalta.

Ele lembra que até 2020, antes da pandemia, a geração de estatísticas do emprego formal iniciou uma transição, em que o empregador deixou de prestar informações nos sistemas do Caged/RAIS e passou a usar o eSocial. Como a pandemia afetou fortemente o mercado de trabalho do Brasil, houve um aumento abrupto de fechamento de empresas, o que levou a subnotificações de desligamentos e, consequentemente, em um aumento nas declarações de ajuste fora do prazo.

Foi por isso que em novembro de 2021, houve uma grande revisão de dados que mostrou que em 2020, em vez de geração de empregos no ano da pandemia, houve destruição de empregos. Inicialmente, o governo havia anunciado a criação de 142,7 mil vagas, mas na verdade foram fechadas 193 mil.

Questionada, a pasta diz que a revisão – maior do que o usual – tem a ver com um problema na captação de informações do eSocial e processadas pela Dataprev. Esse problema atrasou a divulgação dos dados referentes ao mês de abril.“Na segunda quinzena de maio detectou-se uma ocorrência na incorporação dos eventos de alteração contratual do eSocial às bases da Dataprev, o que impediu o registro de todas admissões e desligamentos na competência adequada”, diz a pasta em nota.

Para Simone Pasianotto, economista chefe da Reag Investimentos, é melhor que o governo faça as revisões do que mantenha números errados. No caso desta última mudança, ela considerou a diminuição de 48 mil vagas uma mudança marginal, que não afetou a projeção de outros indicadores, como o PIB. Mas admite que as revisões são rotineiras e que o Caged perdeu parte de sua utilidade:

— As revisões são rotineiras. Toda vez que puxo os dados do Caged, puxo a série completa, porque tem muita correção lá de trás. Isso é ruim, porque com a mudança de metodologia no meio do caminho, o Caged perdeu o efeito para projeções por não ter série longa.

A economista ainda pondera que é natural que haja mudanças, porque o perfil do mercado de trabalho mudou, há novas formas de contratação que precisam ser consideradas e ajustes de metodologia terão de ser feitos. Um que ela considerada necessário é para que haja algum tipo de comunicação com as pesquisas do IBGE, que mensuram o desemprego, por exemplo.

— O mercado de trabalho mudou, não é o mesmo de dez anos atrás. Tem que incorporar os novos contratos, por exemplo. Estamos no caminho certo de mudança, mas ela foi muito drástica, perdeu-se o histórico. Mas o Caged tem outra utilidade para estudo de renda, análise setorial — avalia.

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