Revolta por caricatura do BTS no Grammy reforça manifestação contra xenofobia: 'Racismo não é comédia'

Louise Queiroga
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Manifestações contra racismo a asiáticos e seus descendentes nos Estados Unidos ganharam enorme proporção na noite desta terça-feira, dia 16, muito em razão dos ataques em Atlanta que deixaram seis mulheres mortas. Uma série de episódios considerados xenofóbicos contribuiu para elevar a revolta. Em parte, despontaram as hashtags #RacismIsNotComedy (Racismo não é comédia), #StopAsianHate (Pare o ódio a asiáticos) e #AsiansAreHuman (Asiáticos são humanos). Estas três foram levantadas no microblog por armys, como são chamados os fãs do grupo sul-coreano BTS.

Os integrantes do septeto foram retratados com os rostos machucados, com cada membro contido num buraco, da mesma forma como acontece no jogo de estilo "bater na toupeira", sendo que a arma para golpeá-los foi representada como o troféu do Grammy.

O conjunto, que recebeu a primeira nomeação do K-pop, concorreu na categoria de melhor performance pop de duo ou grupo pela música "Dynamite". A vitória foi para Lady Gaga e Ariana Grande, por "Rain on me", conforme anúncio feito no pré-evento, realizado na tarde de domingo.

O que mais desagradou os armys nos Grammy, porém, foi o fato de a premiação ter colocado a apresentação do BTS para o final da cerimônia principal. Muitos fãs alegaram que a escolha por deixá-los perto do encerramento foi desrespeitosa e uma forma de usá-los para segurar a audiência que, com o passar dos anos, tem caído.

Nesse contexto, a empresa norte-americana Topps, que produz cards esportivos e de cultura pop, divulgou caricaturas de alguns artistas que se apresentaram no Grammy. Com relação ao desenho do BTS, armys chamaram atenção para a retratação de uma cena violenta e então viralizaram as tags de protesto.

"Você pode explicar por que escolheu ilustrar o BTS dessa forma? Os outros artistas que você incluiu não têm representação de violência em suas ilustrações. Por que isso recebeu luz verde?", questionou o influencer @@TheJose8A no Twitter.

Diante da repercussão negativa, a Topps emitiu um comunicado sobre o assunto nesta quarta-feira:

"Ouvimos e entendemos nossos consumidores que estão chateados com a representação do BTS em nosso produto GPK Shammy Awards e pedimos desculpas por incluí-lo. Removemos o cartão autocolante BTS do conjunto, não imprimimos nenhum cartão autocolante e não estará disponível", afirmou a empresa, sediada em Nova York.

O pedido de desculpas, contudo, não foi bem recebido, já que não deu qualquer menção à questão das acusações de racismo.

"Tratar essa raiva como sendo sobre a inclusão de um retrato em vez do retrato sendo, na pior das hipóteses, abertamente racista e, na melhor das hipóteses, estúpido e surdo em uma época marcada por ataques anti-asiáticos não é realmente o pedido de desculpas que você pensa que é", desabafou uma usuária do microblog.

A forma como o Grammy lidou com a performance do BTS abriu espaço ainda para jornalistas que atuam na imprensa norte-americana a relatarem episódios de xenofobia nas próprias redações.

Ex-editora do site do Grammy, Rachel Brodsky contou que vivenciou dificuldades para escrever sobre o BTS.

"O BTS foi um ponto problemático quando editei http://Grammy.com. Qualquer post sobre eles fez números épicos e refletiu para onde a música está indo, etc. Mas a diretoria da RA (Academia de Gravação)... eles realmente recuaram em nossa escrita sobre o BTS. Por razões que nunca entendi totalmente, mas parecem óbvias em retrospecto", afirmou Brodsky em uma postagem.

O post dela repercutiu e motivou outros a compartilharem suas experiências:

"Alguém uma vez me disse que artistas coreanos falando coreano para um vídeo inteiro não seria bom para a retenção de público em nosso canal do YouTube", disse a jornalista Crystal Bell.

"E ainda é um ponto problemático para algumas publicações, não posso dizer quantos lugares recusaram ou queriam alterar pesadamente as histórias sobre o BTS, então as oportunidades foram perdidas. Grite para os escritores e editores que estão fazendo o trabalho para avançar, no entanto, sabemos quem venceu no final", afirmou Jeff Benjamin, conhecido por escrever artigos para a "Billboard", entre outros sites de cultura pop.