Revoltados, amigos e parentes de músico pedem justiça em seu enterro

Por Allison JACKSON
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Amigos e parentes de Evaldo dos Santos exibem bandeiras salpicadas de tinta vermelha, durante seu funeral no cemitério de Ricardo de Albuquerque, zona norte do Rio. Evaldo teve o carro em que viajava com a família atingido por 80 tiros, disparados por militares no domingo

Angústia e raiva se misturaram nesta quarta-feira (10), no enterro de Evaldo dos Santos, o músico morto ao ter o carro atingido por 80 tiros disparados por militares em Guadalupe, zona norte do Rio, uma tragédia atribuída por amigos e parentes ao presidente Jair Bolsonaro e às forças armadas.

Cerca de 200 pessoas clamaram por justiça várias vezes, enquanto o caixão com o corpo de Evaldo era depositado em um nicho no cemitério de Ricardo de Albuquerque, não muito longe de onde ele foi morto no domingo, quando dirigia o carro em que viajava com a família rumo a um chá de bebê.

Cinco pessoas estavam no veículo branco no momento em que os militares abriram fogo. Além de Evaldo, seu sogro, sua esposa, seu filho de sete anos e uma amiga da família.

Segundo o Exército, os militares procuravam um carro similar ao do músico dirigido por criminosos, durante uma "patrulha regular" no perímetro de segurança de uma área militar.

Milagrosamente, a mulher de Evaldo, seu filho e a amiga da família saíram ilesos, mas o sogro e um pedestre que tentou ajudar ficaram feridos.

A prisão rápida dos militares envolvidos na ação não foi suficiente para acalmar a revolta dos amigos e parentes do músico durante o sepultamento, realizado em um dia chuvoso e quente, após as chuvas torrenciais de segunda-feira que provocaram estragos e mortes na cidade.

Alguns gritavam, "A culpa é sua, Bolsonaro!", enquanto outros acusavam o capitão do Exército na reserva de dar às forças de segurança permissão para cometer atos de violência.

"A violência não era assim antes, não", disse à AFP Patrícia Lima, prima de Evaldo. "Esta é uma violência concedida", acrescentou.

Ciney Silva, membro do grupo de pagode Remelexo da Cor, fundado por Evaldo, tocou vários sambas com um cavaquinho durante o funeral, enquanto os demais presentes cantavam e aplaudiam.

"Ele foi brutalmente assassinado", disse Silva à AFP. "O que mais me revolta foi como aconteceu".

- "Somos só números" -

O assassinato de Evaldo, de 51 anos, que além de músico trabalhava como segurança, ocorreu dias depois de um adolescente ter sido morto a tiros por militares no Rio de Janeiro por furar um bloqueio, segundo a imprensa.

Bolsonaro chegou ao poder em 1º de janeiro, com promessas de aplicar uma política de tolerância zero contra a criminalidade, também compartilhadas pelo governador do estado, Wilson Witzel.

Em janeiro e fevereiro de 2019, os dois primeiros meses de Witzel no cargo, 305 pessoas foram mortas pela Polícia no Rio, segundo cifras do governo.

Este número representa um aumento de 17,6% com relação ao mesmo período de 2018, e é um recorde nos 16 anos em que se faz estatísticas sobre homicídios vinculados com a Polícia.

Witzel admitiu no fim de março que a Polícia recorre a atiradores de elite para atingir suspeitos armados à distância.

Nove soldados estão presos preventivamente por envolvimento na ação que resultou na morte de Evaldo, que o Exército qualificou nesta quarta-feira como um "triste incidente".

O advogado da família de Evaldo pediu que a Polícia cuide do caso.

"Estamos buscando uma apuração isenta", disse João Tancredo aos jornalistas presentes no cemitério.

Depois do funeral, dezenas de amigos e parentes do músico protestaram em frente aos postos onde estavam os militares.

Sob seus olhares, gritaram palavras como "assassinato" e "justiça", alguns segurando bandeiras do Brasil salpicadas de tinta vermelha como se fosse sangue.

"Nós somos só números", disse Patrícia Lima. "Ele deixou uma família, um filho de sete anos que era a sua vida. Era uma família linda de se ver e tudo isso aconteceu por nada".