"Rezem em casa": autoridades religiosas e fiéis se adaptam ao coronavírus

Por Claire GOUNON con las oficinas de la AFP en Oriente Medio y Norte de África
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Um voluntário oferece álcool em gel a um palestino que se dirige à oração de sexta-feira, diante da mesquita Al Aqsa, en Jerusalém

De Rabat a Teerã, as autoridades religiosas apoiam, em sua maioria, as medidas para frear a propagação do novo coronavírus, e em alguns casos autorizaram os fiéis a seguirem comportamentos pouco condizentes com a ortodoxia.

No entanto, para alguns líderes religiosos, trata-se de uma "apostasia" e criticaram o fechamento dos lugares de culto, em regiões como Oriente Médio e Norte de África, onde a religião exerce um papel importante no dia a dia da população, de maioria muçulmana.

"Rezem em casa" no lugar de "Venham para a oração". Em vários países dessas regiões, como Argélia ou Kuwait, os muezins seguiram as ordens das autoridades de fechar as mesquitas e modificaram suas convocações à oração.

Em Israel, o grande rabino sefardita Yitzhak Yosef aconselhou os judeus a manter seus telefones ligados durante o sabbat - normalmente considerado uma profanação - para receber informações urgentes sobre o vírus.

No Irã, um dos principais focos da epidemia, o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, mostrou rapidamente seu apoio à equipe de saúde e às decisões do governo.

- Propagar "é pecar" -

No dia seguinte de uma sexta-feira de oração na qual os fiéis se reuniram em massa nas mesquitas, apesar do aumento diário de casos de contágio, as autoridades do Egito ordenaram o fechamento de todas as mesquitas e igrejas durante duas semanas.

No Líbano, onde existem 18 comunidades religiosas, os líderes espirituais respaldaram a declaração de "estado de emergência sanitária" e as medidas de confinamento.

Várias igrejas estão divulgando suas missas através das redes sociais. Com uma cruz e recitando orações, um padre abençoou o país sobrevoando Beirute com um helicóptero.

"O vírus pode ser vencido se cada um assumir suas responsabilidades", afirmou Hassan Nasrallah, chefe do movimento xiita Hezbollah. Respeitar as instruções das autoridades de saúde é um dever religioso, afirmou.

"A religião muçulmana nos exige higiene", declarou o xeque Majed Saqer, responsável do ministério palestino de Assuntos Religiosos. "Se um muçulmano transmite o vírus, consideramos que pecou".

No Iraque, as influentes autoridades religiosas lançaram campanhas de sensibilização.

O ministro da Saúde se reuniu com o aiatolá Hussein Ismail Al Sadr, junto a uma equipe de televisão, para pedir aos iraquianos que fiquem em casa.

- "Vírus enviado por Deus" -

Sua mensagem, no entanto, não teve tanto efeito, já que dezenas de milhares de peregrinos caminharam até Bagdá para comemorar, no sábado, o martírio do imã Kazem, uma figura importante do islamismo xiita.

"Se todos os iraquianos estão em suas casas confinados, quem irá visitar o nosso imã?", questionou um peregrino que tentava aproximar-se do mausoléu, vigiado por militares.

Embora a maioria dos líderes religiosos apoiem as medidas das autoridades, há algumas vozes discordantes.

Na Argélia, o imã Chems Eddine Aldjazairi afirmou no Facebook que tem "medo de que Deus nos tenha enviado este vírus para que nos aproximemos dele, e quando ver que fechamos as mesquitas, nos enviará outro vírus mais maligno".