Rian Johnson: 'Eu acho importante lembrar como o Twitter é pequeno'

Clarisse Loughrey, The Independent
Rian Johnson, no Rancho Skywalker, em agosto de 2017

LONDRES — Em 15 anos de carreira, Rian Johnson viveu sua carreira como uma montanha-russa. Sua hipnotizante estreia, o neo-noir "A ponta de um crime" (2005), eventualmente o levou ao sucesso "Looper: assassinos do futuro" (2012), com Bruce Willis, e à direção de três episódios de "Breaking Bad" — entre eles "Ozymandias" de 2013, frequentemente citado como o melhor da série. Com esse currículo, a Lucasfilm bateu em sua porta e Johnson foi escolhido para dirigir "Os últimos Jedi" (2017), o segundo filme da nova trilogia de "Star Wars". O longa foi um sucesso de bilheteria, com US$ 1,3 bilhão de bilheteria em todo o mundo, mas os fãs fizeram duras críticas ao modo como seu adorado universo apareceu na tela. No entanto, ele logo retornará a essa galáxia tão, tão distante para trabalhar em uma nova, super secreta leva de filmes para a franquia.

Johnson, que teve a ajuda de custo de seus familiares em seu primeiro filme, admite seus privilégios. É raro para um nome hollywoodiano ser tão aberto sobre o seu início não tão humilde, mas ele não vê razão para alguém tentar esconder sua trajetória privilegiada.

— Isso não significa que você não tenha trabalhado duro para chegar onde chegou — defende. — Não é dizer que você não deveria estar aqui, mas sim reconhecer que há problemas no sistema. Uma vez que você reconhece essas vantagens, fica mais fácil levantar a ponte levadiça para os outros.

"Entre Facas e Segredos", indicado em três categorias do Globo de Ouro, reflete essa característica do diretor. Quando os filhos do rico escritor Harlan Thrombey (Christopher Plummer) ficam sob suspeita após sua morte repentina, seus interrogatórios se tornam menos sobre explicar onde estavam e mais sobre justificar sua própria existência. Sua filha mais velha, Linda (Jamie Lee Curtis), apega-se à ideia de que é uma self-made woman, apesar de seus negócios imobiliários só decolarem após um empréstimo de US$ 1 milhão do pai.

O filme é, portanto, uma sátira social inteligente o bastante para propor uma autocrítica. Mas Johnson apresenta esses temas com uma generosa dose de entretenimento. "Entre facas e segredos" é, sobretudo, um engenhoso mistério de assassinato repleto de reviravoltas — e de astros de Hollywood.

Daniel Craig, que interpreta o detetive Benoit Blanc, (com um sotaque do Kentucky expecional), foi o primeiro a assinar. A partir daí, foi fácil aumentar o resto do elenco, já que "todo mundo queria trabalhar com Daniel". Craig e Curtis foram acompanhados por Chris Evans, Michael Shannon, Don Johnson, Ana de Armas, Toni Collette e Lakeith Stanfield.

Agatha Christie criava caricaturas de pessoas que reconhecia em seu próprio mundo — “Todo mundo tinha um tio que era coronel na guerra e agora não sabe o que fazer com eles” —, seguindo essa lógica, "Entre facas e segredos" traz esses personagens para 2019. Agora, há um “guru de lifestyle no Instagram” e um “troll de direita” entre os suspeitos.

De fato, o filme é tão culturalmente atual que muitos assumiram (incorretamente) que o "troll de direita", interpretado por Jaeden Martell, é uma referência direta a reação online tóxica a "Os últimos Jedi". Kelly Marie Tran foi a que mais sofreu. Ela deletou sua conta no Instagram após uma onda de comentários sexistas e racistas, e mais tarde escreveu sobre essa experiência no "New York Times".

Johnson também ouviu desaforos de gente que parece acreditar que a existência de um filme de "Star Wars" do qual não gostavam era tão grave quanto um crime de guerra. Essas queixas passaram a dominar a narrativa de um longa-metragem que arrecadou mais de US$ 1 bilhão em todo o mundo. Os mesmos argumentos continuam a surgir nas mídias sociais, mesmo dois anos depois. Mas Johnson reconhece a importância de dar um passo para trás.

— Acho importante lembrar quão pequeno o Twitter é — resume. — É fácil ficar com a cabeça nessa câmara de eco e pensar que é isso que o mundo inteiro está ouvindo. Por mais que os números pareçam grandes no Twitter, em relação à população real... são minúsculos. Acho que, no fim, sou otimista e acredito que, quando você se senta no cinema e as luzes se apagam, todo esse lixo desaparece. Você tem a experiência pura de um filme. O que quer que aconteça nessas duas horas no cinema será entre você e a tela.

Para ele, os cinemas são "um refúgio onde você pode ter fé por algumas horas". De fato, o próprio trabalho de Johnson sempre inspirou a compaixão como a última salvadora. Em "Os últimos Jedi", Rose, a personagem de Kelly Marie Tran lembra: "É assim que vamos vencer. Não combatendo o que odiamos. Salvando o que amamamos." Até mesmo "Entre Facas e Segredos" traz um pouco de otimismo por trás das punhaladas e falsidades da família Thrombey.

— Se você é gentil e tem um bom coração, isso se manifestará e fará diferença. Nas palavras de Paul Simon: "É por isso que Deus fez os filmes".