Ricardo Aleixo, em mesa com Lenora de Barros e Patrícia Lino na Flip: 'Poesia se confunde com respiração'

Poesia concreta, performance e videoarte estiveram na pauta do encontro “O corpo de imagens”, que aconteceu na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), nesta quinta-feira, às 19h, após a estreia vitoriosa da seleção brasileira na Copa do Catar.

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Os três convidados — a artista visual e poeta Lenora de Barros, o poeta e performer Ricardo Aleixo e a poeta e artista visual portuguesa Patrícia Lino — discutiram a centralidade do corpo e a influência da poesia concreta em suas obras. O trio, aliás, começou o bate-papo apresentando performances. Lenora e Ricardo mostraram vídeos, enquanto Patrícia leu trechos de seu livro "O kit de sobrevivência do descobridor português no mundo anticolonial".

— "Kit de sobrevivência" veio de performances que só depois viraram livro. O corpo é sempre fundamental, ele é o centro de tudo — explicou a portuguesa, que também é professora de artes visuais afro-luso-brasileiras na UCLA, nos Estados Unidos.

Lenora e Ricardo compartilharam com a plateia, que lotou a Tenda da Matriz, a forma como a poesia concreta entrou na vida de cada um deles. A artista paulistana começou relembrando a presença de Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari em sua casa, quando criança.

— Meu pai era artista, minha mãe adorava ler. Ela tinha um carinho especial pela língua. Cresci num ambiente com dois estilos, visual e verbal, e com a convivência com poetas concretos. Era um ambiente estimulante — lembrou a artista.

Ricardo, por sua vez, creditou a um professor de matemática, que lia poemas no início de toda a aula, seu contato com o concretismo:

— A poesia concreta foi a entrada para a linguagem. Me pareceu surpreendente, parecia palavra cruzada e não era, música e não era. Não era nada daquilo e era tudo. Fui um rapaz que escutou poemas concretos antes de lê-los. Escutar esses poemas me fez vê-los e quis entender tudo dessa forma sofisticadíssima de arte e muito simples.

O momento que rendeu mais aplausos da plateia foi a fala final do poeta mineiro, indicado ao prêmio Jabuti de melhor poesia neste ano por "Extraquadro". Ele compartilhou com o público "a sensação de vitória sobre os nossos medos" por estar ali:

— Estamos falando de um lugar regulado em que aconselham cautela a nós o tempo inteiro. Nós avançamos — disse. — Poesia se confunde com respiração, que não se limita. Se temos algo para comemorar é a possibilidade de conversa nisso aqui que, me falta uma palavra melhor, ainda chamamos de mundo.