Ricardo Galvão assume o CNPq e diz que truculência negacionista foi derrotada

***ARQUIVO***SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, SP, 31.08.2018 - Ricardo Galvão, diretor do Inpe, durante solenidade em comemoração aos 30 anos de parceria com a China, organizada pela Agência Espacial Brasileira (AEB), é realizada no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP).  (Foto: Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, SP, 31.08.2018 - Ricardo Galvão, diretor do Inpe, durante solenidade em comemoração aos 30 anos de parceria com a China, organizada pela Agência Espacial Brasileira (AEB), é realizada no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP). (Foto: Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O físico Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), assumiu nesta terça-feira (17) a presidência do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) em uma cerimônia marcada pela emoção e pelo anúncio da recomposição integral do orçamento do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), principal instrumento público de financiamento da ciência no país.

A escolha do pesquisador de 75 anos foi antecipada pela Folha de S.Paulo e celebrada no evento desta terça, prestigiado por diplomatas, reitores e pesquisadores como Renato Janine Ribeiro, presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), e Helena Nader, presidente da ABC (Academia Brasileira de Ciências).

Em seu discurso, Galvão fez vários agradecimentos, incluindo um reconhecimento ao trabalho dos servidores públicos, e compartilhou uma reflexão sobre o embate com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ocorrido em 2019.

Em julho daquele ano, ao ser cobrado pela imprensa estrangeira sobre os altos níveis de alertas de desmatamento que vinham sendo registrados pelo sistema Deter, do Inpe, Bolsonaro disse que tinha "convicção" de que os dados eram "mentirosos" e acusou Galvão de estar "a serviço de alguma ONG".

O pesquisador reagiu imediatamente e, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, criticou a atitude do então presidente, que o exonerou duas semanas depois. O monitoramento do Inpe, porém, continuou mostrando, mês a mês, que o desmatamento da Amazônia seguia sem freio.

Após o embate, Galvão foi escolhido pela revista Nature como uma das dez pessoas mais importantes para a ciência no ano de 2019 e, em 2021, foi contemplado com o prêmio internacional de Liberdade e Responsabilidade Científica concedido pela AAAS (Associação Americana para o Avanço da Ciência).

"Será que após cerca de 50 anos de vida profissional dedicada a dar o melhor de mim para o crescimento da ciência no país eu veria em meus últimos anos de atividade um enorme retrocesso?", disse Galvão nesta terça (17), lembrando o apoio que recebeu de colegas e entidades e os pensamentos que o afligiram após a exoneração.

"É claro que eu e outros colegas pesquisadores não fomos arrastados pelas ruas de nossas cidades. Estávamos sofrendo não fisicamente, mas no âmago de nossas almas devotadas à soberania da ciência devido aos ataques perversamente negacionistas de um governo tresloucado", complementou.

Visivelmente emocionado, Galvão afirmou que a truculência negacionista foi derrotada e que a cerimônia e a nomeação da professora Mercedes Bustamante para presidir a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) provam que a ciência brasileira sobreviveu.

"No dia de hoje, viramos essa página triste da nossa história com a convicção de que a ciência voltará a promover grandes avanços", afirmou antes de encerrar com uma citação de Guimarães Rosa: "O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem."

Anúncio de recursos A fala de Galvão foi sucedida pela de Evaldo Vilela, ex-presidente do CNPq, e da ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos (PCdoB), que anunciou as primeiras medidas para garantir recursos para a área.

"Hoje tenho a satisfação de anunciar a recomposição integral do orçamento do FNDCT e o fim dos limites impostos pela MP 1136, editada pelo governo anterior e que perderá validade nos primeiros dias de fevereiro", disse.

A medida provisória impõe limites para a utilização de recursos do FNDCT, que vem sofrendo sucessivos bloqueios. Entre 2010 e 2021, a estimativa é de que R$ 35 bilhões tenham deixado de ser aplicados em ciência no Brasil e a garantia dos recursos do fundo era uma das medidas que, na visão dos cientistas, deveriam ser priorizadas já no início da gestão.

"Com a liberação integral dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, principal instrumento público de financiamento da ciência, encerramos um longo período de descaso e desvalorização da pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico do país", complementou a ministra.

Santos também anunciou que o ministério voltará a realizar a Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia e manterá contato contínuo com a comunidade científica.