A balela venceu a ciência

Ex-diretor do Inpe Ricardo Galvão debate com o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles (Reprodução/Globo News)

O Painel da Globo News, programa de debates comandado por Renata Lo Prete, colocou na mesma mesa o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) exonerado após rebater as críticas de Jair Bolsonaro à divulgação de índices sobre desmatamento na Amazônia. O programa foi exibido na noite de sábado, 10/08, e é um tutorial para quem quer entender a estratégia do governo para se comunicar desinformando.

Essa tática exige uma linguagem corporal simples, que mantém o olhar fixo mesmo quando os olhos são desmentidos, e consiste em insistir no absurdo, ouvindo apenas o que se quer, e acusando o sectarismo de adversários quando estes revidam com a razão.

No embate televisionado, a razão saiu ilesa – e, como alguém definiu, Salles só não saiu completamente desmoralizado porque ele realmente acredita no que diz ou está realmente disposto a fazer alguém acreditar que ele acredita no que diz.

Aos 71 anos, Galvão é professor titular da USP, com graduação em engenharia de telecomunicações, mestrado em engenharia elétrica pela Unicamp e doutorado no MIT, nos EUA. Ele dirigiu o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, a Sociedade Brasileira de Física e estava à frente do Inpe desde 2016. Sua contribuição à ciência rendeu a ele diversos prêmios ao longo da carreira.

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Salles é advogado e atuou como presidente do Movimento Endireita Brasil. Em seu currículo há uma condenação por improbidade administrativa e uma vergonhosa menção a um mestrado fictício na Universidade Yale, nos EUA.

Era o encontro de um professor, com formação de professor, postura de professor, referências de professor, com um mau aluno, desses que exigem paciência para não serem colocados para fora da sala por petulância.

Mas, em um país de ponta cabeça, e com todos os atalhos de projeção e poder abertos pela comunicação em rede, Salles se tornou um costa-quente, alguém a quem o diretor devia sujeição se quisesse se manter no cargo.

Exonerado após rebater a fala de Bolsonaro, segundo quem o Inpe estava a serviço de ONGs e divulgava números mentirosos sobre desmatamento, o pesquisador estava livre para colocar o mau aluno no lugar onde estaria até hoje, não estivéssemos no auge do empoderamento do orgulho ogro, do tipo que justifica a preguiça e a incapacidade de interpretação de texto a uma falsa consciência sobre um complô ideológico que o impediu de se debruçar em livros e dados científicos durante a formação.

Galvão, a certa altura da conversa, disse que qualquer dirigente de qualquer país deveria entender que não existe autoridade acima da soberania da ciência.

Salles respondia dizendo que o problema é quando a ciência se disfarçava de ideologia – não explicou qual, nem como, nem para quê, perguntas básicas do embate científico. Foi lembrado pelo pesquisador que o presidente é quem estava aparelhando as instituições científicas.

O subordinado de Bolsonaro saiu em defesa do chefe. Para ele, a ciência se arrogava “do direito de dizer isso ou aquilo” – oi? – e se queixou da forma desrespeitosa com que Galvão se referiu ao patrão. (Antes de ser demitido, o professor chegou a questionar a capacidade do presidente de entender estatísticas).

“Desrespeitoso foi o presidente da República com a ciência brasileira. Ele falou categoricamente que os dados do Inpe são mentirosos. Ele está acusando todos os cientistas do Inpe de terem cometido crime de falsidade ideológica”, rebateu o pesquisador.

Ele finalizou dizendo que um programa de desenvolvimento sustentável tem de ser articulado entre a academia, empresas e governo. “O que nós usamos é publicação científica. Fui ver trabalho científico, não balela, não coisa de jornalzinho, de Twitter”, afirmou.

Uma pena que esse tipo de embate tenha o efeito apenas de expor o despreparo de quem, durante a eleição, evitou qualquer debate televisionado. A essa altura, o efeito é nulo, e no radar não há qualquer sinal de que a aula do professor tenha servido para que o aluno brigão com os fatos um dia aprenda e mude a postura.

Por falar em radar, o chefe segue fazendo escola, dando de ombros para o que dizem os estudos, as evidências e a opinião pública sobre determinados assuntos pelos quais demonstra não interesse, mas obsessão.

Nesta segunda-feira, 12/08, Bolsonaro anunciou que o Brasil não terá mais radares móveis em rodovias federais a partir da semana que vem. E atribuiu a existência dos “pardais” a uma máfia de multas que vai para o bolso de alguns poucos nessa nação. Puro terraplanismo rodoviário.

Questionado sobre em quais estudos ele embasava a decisão, a resposta foi uma carta de intenções: Chega de estudiosos e especialistas que só fazem assaltar o contribuinte.

No Brasil de Bolsonaro, pouco importam as evidências sobre as mortes no trânsito evitadas com os radares, como pouco importam os dados sobre desmatamento e sobre outros aspectos da vida social: se o conhecimento contradiz as convicções, ele está a serviço de uma suposta “ideologia”. Logo, é inimigo. É quase a inversão do método cartesiano: não penso, logo insisto.

A “balela” de Twitter venceu a razão.