Pressão de investidores será suficiente para evitar estouro da boiada no Meio Ambiente?

O ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. Foto: Evaristo Sá / AFP (via Getty Images)
O ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. Foto: Evaristo Sá / AFP (via Getty Images)

“Nós não erramos.

Quem erra são os outros.

Se você vê erros em nossas ações você ou não entendeu, ou não quer entender ou está de má-fé”.

Grosso modo, tem sido essa a filosofia central do governo Bolsonaro para qualquer assunto. Do combate à pandemia à retomada da economia, que já capengava bem antes do primeiro caso do coronavírus ser confirmado por aqui.

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Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, queria aproveitar as atenções da imprensa voltadas à doença para passar a boiada no sistema regulatório ambiental. Não deu muito certo.

A política de desmonte bolsonarista, com o incentivo velado e nem tão velado ao garimpo em áreas de preservação, levou a um recorde de desmatamento em junho na Amazônia. Desde o começo do mês, a devastação atingiu mais de 3 mil quilômetros quadrados da floresta, número 25% superior ao do mesmo período de 2019, que já tinha sido tenso.

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As informações são do Deter, o sistema de detecção de desmatamento em tempo real do Inpe (Instituto nacional de Pesquisas Espaciais).

Em agosto do ano passado, o então diretor do órgão, Ricardo Galvão, foi demitido porque o governo discordava dos números divulgados. No caso do desmatamento, já vigorava o embate entre opinião e investigação científica que se tornaria a tônica na crise do coronavírus.

Como nem todo mundo é adorador fiel do presidente, os índices relativos ao desmatamento levaram sete grandes empresas de investimento europeias a ameaçarem retirar investimentos no Brasil caso a destruição prossiga. Juntos, os investidores somam mais de US$ 2 trilhões em ativos.

Grandes empresas brasileiras começam a sentir os efeitos da política suicida do governo onde mais dói: o bolso.

O boicote, segundo algumas delas, já não está no campo apenas da ameaça. E já existe pressão, na Europa, para que supermercados suspendam a compra de alimentos brasileiros de empresas que “queimam a floresta”.

Tudo isso foi levado ao vice-presidente Hamilton Mourão durante uma reunião virtual na sexta-feira 10.

As queimadas ameaçam travar o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, o que leva representantes e apoiadores do governo a associarem a pressão ao lobby de produtores europeus que não querem concorrência brasileira em seu quintal.

O lobby, claro, existe, mas ninguém tem jogado mais contra a própria meta do que o governo brasileiro. Alguns sinais listados em reportagem deste domingo 12 na Folha de S.Paulo: Bolsonaro exonerou um servidor do Ibama que o multou por pesca irregular; criou um núcleo para revisar multas ambientais; seu ministro assinou (e depois recuou) projeto de anistia para desmatadores da Mata Atlântica; queda nas ações de fiscalização; visita de autoridades do Estado a madeireiros e área ilegal de soja; fundo bilionário em defesa da Amazônia paralisado após governo apontar problemas em contratos com ONGs; demissão de diretor e coordenadores de fiscalização do Ibama após ação contra madeireiros.

Tudo isso elevou a pressão sobre Ricardo Salles, o próximo ministro que pode deixar o posto. Ele é alvo de um pedido de afastamento do cargo assinado por 12 procuradores da República, que acusam o ministro de improbidade administrativa e desestruturação dolosa das estruturas de proteção ao meio ambiente.

Questionado sobre o filme queimado do Brasil com os investidores, o menino da porteira (obrigado, Foro de Teresina) relegou a governos anteriores a culpa pela situação. Detalhe: o aumento do desmatamento ocorre há 14 meses seguidos. Bolsonaro é presidente há 18 meses.

Na base da cloroquina e do desdém, Bolsonaro já mostrou o despreparo para coordenar as ações contra a pandemia.

Vai ser difícil tirar na testa o selo de vilão do meio ambiente.