Rico, evangélico, amigo de estrelas: como o sheik dos bitcoins moldou sua imagem

Um vitorioso empresário, dedicado evangélico, amigo de estrelas e rico. Muito rico. Foi assim, com a autoconstrução da imagem de sucesso, que Francisley Valdevino da Silva, o "Sheik dos Bitcoins", conseguiu angariar a confiança dos investidores para aplicar um golpe bilionário. Na medida cautelar de pedido de prisão do golpista, a Polícia Federal descreve em detalhes o passo a passo trilhado pelo sheik na montagem do embuste financeiro que chegou a contar com 240 microempreendedores de araque.

Francisley, que prefere ser chamado de Francis da Silva, está preso desde o dia 3 de novembro, acusado de fraude financeira e de continuar captando clientes, mesmo depois de ser indiciado em inquérito da PF. Estimativas indicam que ele teria arrecadado R$ 1 bilhão, oferecendo taxas de até 13,5% de juros mensais pelo aluguel de criptomoedas. Para a PF, o real esquema do Sheik era uma pirâmide financeira.

A cautelar da PF, obtida pelo GLOBO, sustenta que, desde o início de suas atividades, Francis manteve uma estreita relação com o meio evangélico. Para dar um ar de seriedade ao negócio, diz o documento, ele arregimentou nos templos religiosos funcionários com idade média de 25 anos, a maioria sem curso superior, que acatavam as suas ordens sem entendê-las bem e muito menos questioná-las.

O Sheik sempre anunciou a sua vinculação à Igreja Betel Church, gerida pelo pastor Ademar Ribeiro. Porém, seu contato com os evangélicos se aprofundou em 2019, quando ele passou a namorar a cantora gospel Isadora Pompeo, que se mudou para Curitiba, base dos negócios de Francis. Ele chegou a iniciar os trâmites para abrir uma igreja, que seria administrada por Isadora e pelo pai da cantora, Josué Carlos da Silva Pompeo. Mas o fim do relacionamento abortou o plano.

Apesar do rompimento com a cantora, diz a PF, o sheik manteve a sua ascensão em círculos evangélicos, se aproximando de pessoas como os pastores e bispos Antônio Cirilo da Costa, Deive Leonardo, Edir Macedo e Tiago Brunet. Para ganhar a confiança destes líderes e, assim, angariar investidores nos seus rebanhos, o grupo de Francis fez vultosas doações, como a Polícia comprovou em documentos apreendidos.

Gravadora gospel

De olho nos fiéis, Francis investiu R$ 18 milhões em um negócio com o pastor Silas Malafaia no ramo de venda de artigos religiosos, via marketplace. Também criou uma gravadora, a Sounder Music, onde conhecidos cantores gospel, como Aline Barros, João Figueiredo (marido de Sasha Meneghel, filha de Xuxa) e Priscilla Alcântara gravaram videoclipes.

Erguida a “falsa imagem de integridade aos seus negócios”, como afirma a cautelar, Francisley conquistou o apoio de pessoas influentes no público evangélico como meio de prospecção de novos agentes captadores. Ele criou um sistema de franquias e licenciou um grande número de agentes de captação ativos no meio protestante.

A Polícia apurou que o sheik a relação com o mundo da fé também serviu de ponte de “acesso a outras pessoas de fama nacional, como Janguiê Diniz, Minotauro e Minotouro, Neymar Jr., Wesley Safadão, Sasha Meneghel e Luciano Szafir, Whindersson Nunes e Tirulipa”. Para os investigadores, mais do que eventuais vítimas, essas figuras serviram como fonte indireta de publicidade dos negócios do grupo, na medida em que eram apresentadas ao público como “amigos pessoais”.

Imagens mostram Sasha e o marido a bordo de uma lancha de Francis. Safadão, que recebeu de Francis um jato como parte do pagamento de uma dívida, aparece em outra foto na empresa do sheik em Curitiba. Para consolidar as relações no mundo vip, Francis levava convidados para suas mansões em Angra dos Reis (RJ) e Governador Celso Ramos (SC), além de disponibilizar jatos e helicópteros nos deslocamentos dos amigos.

Os convidados não escondiam o deslumbramento com a casa de sete andares no litoral catarinense. Erguida no topo de uma colina à beira mar, a propriedade tem 17 suítes com ar-condicionado, duas suítes presidenciais, sala de cinema para 15 pessoas, quatro salas de jantar (sendo uma delas para 48 pessoas), duas adegas, spa, elevador, entre outros requintes. Esse encanto abriu caminho para que alguns destes amigos, como Sasha, fizessem aportes no esquema fraudulento do sheik.

Jesus is cool

A investigação, ao recuperar a trajetória do acusado, registra que Francisley abriu uma empresa de cursos evangélicos, a Jesus Is Cool, para formar o seu próprio rebanho. Em meados de 2021, a Orbank, empresa do grupo Intergalaxy, de Francis, patrocinou a estreia do ator Caio Castro em sua carreira no automobilismo, na classe GT3 da Porsche Cup.

Mais recentemente, no início desse ano, fase em que o pagamento aos clientes já não estava mais sendo efetivado e cresciam as suspeitas de calote, a PF apurou que o grupo chegou a contratar a cantora e ex-participante do programa Big Brother Brasil Gabi Martins, para o lançamento de publicidade em suas redes sociais, a fim de ganhar visibilidade e tentar recuperar a falsa imagem de credibilidade do negócio.

"Coração entristecido"

Citado na cautelar da PF como o pastor que introduziu Francisley no mundo evangélico, Ademar Ribeiro disse que, por acreditar no perdão, defende uma nova chance para o seu devoto. O religioso afirmou que a prisão o deixou de “coração entristecido”, mas que tem pedido a Deus “por ele todos os dias para que haja graça e misericórdia na esperança de que ele possa dar a volta por cima e restituir todas as pessoas prejudicadas”. Ribeiro admitiu que Francisley, embora não fosse assíduo, era de fato frequentador de sua igreja, “e que possível eu aconselhava e prestava atendimento, assim como faço com os demais irmãos que muitas vezes não podem estar conosco frequentemente”.

Também citado, o pastor Deive Leonardo admitiu que, há três anos atrás, fez um investimento com Francisley, mas afirmou que não foi o responsável por promover ‘nenhuma conexão’ do sheik com pessoas do gospel. Procurada, Isadora Pompeo não se pronunciou.