Ricos, brancos e bolsonaristas são grupos que menos tomaram vacina contra Covid

*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 06.06.2022 - Vacinação da 4ª dose da vacina contra a Covid-19 para quem tem a partir de 50 anos e profissionais de saúde na UBS Humaitá, na Bela Vista, em São Paulo. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 06.06.2022 - Vacinação da 4ª dose da vacina contra a Covid-19 para quem tem a partir de 50 anos e profissionais de saúde na UBS Humaitá, na Bela Vista, em São Paulo. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A parcela da população brasileira mais descrente com a vacina contra a Covid-19 é branca, rica, bolsonarista e evangélica. É o que aponta uma pesquisa realizada pelo Sou Ciência (Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência), da Unifesp.

Entre os mais ricos —quem tem uma renda superior a seis salários mínimos— , 41% afirmam ter recebido uma ou nenhuma dose do imunizante, contra 59% que dizem ter recebido ao menos duas. No geral da população, esses números são respectivamente de 21% e 79%.

Além disso, 32% de quem tem o ensino superior completo, 29% de quem se declarou branco e 29% dos homens entrevistados afirmaram terem tomado uma ou nenhuma dose da vacina, também acima da média da população geral.

A maior adesão ao imunizante está entre os mais pobres (86%) —cuja renda é de até um salário mínimo— com apenas o ensino fundamental (89%), mulheres (89%) e negros (87%).

Fatores políticos também influenciam no tema. A pesquisa mostra que 90% de quem diz votar em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tomaram duas, três ou mais doses da vacina contra a Covid-19. Já entre os eleitores de Jair Bolsonaro (PL), a porcentagem cai para 63%.

O centro de estudos realizou a pesquisa telefônica em duas rodadas, nos dias 27 de julho e 10 de agosto de 2022.

Ao todo, foram entrevistadas 1.200 pessoas em todas as regiões do país, com idade igual ou superior a 16 anos, de diferentes escolaridades, raça, cor, renda e classe social. A margem de erro para o total da amostra é de 2,85 pontos percentuais, para mais ou para menos.

Pré-candidato a deputado federal pelo PRTB, engenheiro civil e fundador da Aliança Nacional, Giovani Falcone é um exemplo do grupo que menos se vacinou.

Branco, com nível superior, evangélico e eleitor de Bolsonaro, ele afirma que só vai se aceitará o imunizante quando o atual presidente receber as doses.

Pai de três filhos, ele afirma que ninguém da sua família se vacinou. "Querem nos obrigar a tomar", diz ele. "Se fosse uma vez ao ano, eu tomaria. Mas, temos que tomar quatro doses, eu sou contra."

Falcone diz ainda que decidiu também não tomar a vacina da gripe neste ano. "Não tomei porque estava muito bagunçado e fiquei com medo de tomar e darem a da Covid-19 junto", afirma.

A pesquisa do Sou Ciência aponta que, entre aqueles que foram internados em decorrência de complicações do coronavírus, 28% têm ensino superior, sendo que 14% possui apenas o ensino fundamental. A porcentagem também é maior entre quem possui uma renda superior a seis salários mínimos (19%), e mais baixa entre os mais pobres (8%).

Outra diferença que o estudo aponta é a internação entre sexos —enquanto 22% dos homens precisaram do serviço médico, o número foi de 12% entre as mulheres.

O centro de estudos ressalta que a porcentagem pode estar ligada a outros fatores, como facilidade ou não à rede hospitalar. Porém, destaca que homens, mais ricos e mais instruídos foram ao mesmo tempo os que optaram por serem os menos vacinados e os que acabaram sendo os mais internados.

Falcone diz que nunca foi infectado pelo vírus e toma mensalmente ivermectina para se proteger contra a Covid-19 —o medicamento antiparasitário é desaconselhado pela Organização Mundial da Saúde e não tem eficácia comprovada no tratamento da doença.

O remédio integra o chamado kit Covid, que não tem comprovação científica, e também conta com outros remédios como hidroxicloroquina, cloroquina, a azitromicina e a doxiciclina.

A pesquisa mostrou ainda que os medicamentos sem eficácia são usados, principalmente, entre os evangélicos e entre apoiadores de Bolsonaro. Entre católicos e eleitores de Lula, o uso do kit entre aqueles que foram infectados pelo vírus é bem mais baixo.

Para Soraya Soubhi Smaili, pesquisadora da escola paulista de medicina da Unifesp e coordenadora do Sou Ciência, a pesquisa revela que o negacionismo científico não tem a ver com escolaridade. "[O movimento antivacina] está sendo importado, que ganhou muita força desse governo com versões e narrativas falaciosas", diz ela.

Para Pedro Arantes, também professor da Unifesp e coordenador do Sou Ciência, o estudo joga luz na parcela da população que mais tem se mostrado contrária às posições científicas.

"É uma espécie de elite rebelde", diz ele. "O que surpreende é que quem tem mais condição de acesso à informação e poderia tomar uma atitude consciente é quem está atuando de forma não precavida colocando os outros em riscos."

Ele chama atenção ainda para outro tópico da pesquisa que mostra que os mais ricos e com mais educação são os que defendem mais cortes no financiamento da ciência e das universidades.

Os números mostram que 19% dos mais ricos são favoráveis aos cortes, enquanto 46% são indiferentes. Entre os que têm o superior completo, 17% concordam com os cortes e 30% são indiferentes. No geral da população, os números são de 11% a favor, 62% contra e 22% indiferente.

"Estamos diante de uma parcela mais rica da população que não está nem aí se o Brasil deixar de ter um sistema de saúde, ciência e pesquisa", afirma o professor.