"Rinha de vacinas": Briga de governantes pela imunização ajuda ou atrapalha o Brasil?

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A health worker inject the COVID-19 vaccine to residents during a mass vaccination in Rio De Janeiro, Brazil, on June 3, 2021. Rio de Janeiro does not receive flights from India, to try to contain the new Indian strain, , and tests people to detect possible contamination, and also does Vaccination against Covid19 at Galeao International Airport. North area of the city, Brazil has 467,000 deaths and 16.72 million cases of Covid-19, Brazil reached 467,706 deaths by covid-19. In the last 24 hours, there were 2,507 deaths and 95,601 new cases. In total, 16,720,081 cases were confirmed in the country. (Photo by Fabio Teixeira/NurPhoto via Getty Images)
Prefeitos e governadores têm adiantado a vacinação nos municípios e estado e brincado com o calendário nas redes sociais (Foto: Fabio Teixeira/NurPhoto via Getty Images)

Governadores e prefeitos em todo o Brasil começaram uma guerra, uma disputa que em muito anima os moradores das regiões: quem é capaz de vacinar mais rápido a população?

Flavio Dino (PCdoB), governador do Maranhão, foi um dos pioneiros em dar o primeiro passo para adiantar a imunização no estado. No último fim de semana, entre 11 e 13 de junho, o governo maranhense organizou o “Arraial da Vacinação contra a Covid-19” e começou a imunizar toda a população com mais de 29 anos.

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Enquanto isso, a maior parte dos estados ainda estava imunizando a população com mais de 50 anos. Eduardo Paes (DEM), prefeito do Rio de Janeiro, já havia chamado atenção ao anunciar o calendário completo de vacinação na cidade até 23 de outubro. Há a promessa que, na sexta-feira (18), novas datas serão divulgadas. 

Nas redes sociais, os paulistas começaram a “provocar” o governador João Doria (PSDB). No domingo, o tucano anunciou que todos os moradores do estado com mais de 18 anos poderiam se vacinar até setembro.

A competição para saber quem vacina mais rápido ganhou o apelido de “rinha da vacina” nas redes sociais. Aos poucos, mais e mais políticos entram na disputa. Nesta terça-feira (15), foi a vez do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB) entrar na briga.

“Aí, Eduardo Paes! Se João Doria é o pai da vacina e você diz que adotou o imunizante, é bom alertar alertar que ela fez amizade forte com o guri do RS! A gente segue na frente nas 2 doses e, do jeito que vai, a gauchada estará imunizada pra semana Farroupilha, 20/09!”, escreveu Leite nas redes sociais.

Moradores de outros estados não aceitam que os respectivos governos fiquem para trás e marcam os mandatários. “Vai deixar?”, questionam.

Também na terça, o governo de Minas Gerais reformulou o calendário e prometeu vacinar todos com mais de 18 anos até o mês de outubro. A “onda” de otimismo na possibilidade de aplicar a primeira dose o quanto antes parece estar contagiando governadores e prefeitos.

Para o analisa político Creomar de Souza, fundados da consultoria política Dharma, há um aspecto saudável nessa disputa pela vacinação. “Podemos dizer que essa ‘rinha’ de governadores é um processo de difusão de política pública, na qual um governador ou prefeito de sente coagido pelo outro”, explicou. “Isso cria uma espiral positiva, baseada em constrangimento mesmo.”

Creomar de Souza lembra que, em 2020, o governador de São Paulo, João Doria, era alvo de críticas de outros mandatários, por agir “sozinho” em busca de vacinas. Depois, muitos se juntaram ao tucano para enfrentar o governo federal.

Briga política entre possíveis concorrentes

Sao Paulo's Governor Joao Doria (L) and former Brazilian President (1995-2003) Fernando Henrique Cardoso pose for pictures as they hold a video conference with former presidents (2016-2018) Michel Temer (L) and (1985-1990) Jose Sarney during an event in defence of life and to promote the importance of the vaccine against the novel coronavirus COVID-19, at Bandeirantes Palace in Sao Paulo, Brazil, on January 25, 2021. (Photo by Nelson ALMEIDA / AFP) (Photo by NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)
João Doria confirmou que quer ser candidato à Presidência da República em 2022 (Foto: Nelson Almeida/AFP via Getty Images)

Um ponto que pode tornar a briga ruim para os brasileiros é a eleição de 2022. De olho no pleito, alguns políticos podem tentar “puxar o tapete” de possíveis adversários. É o lembra Marcio Black, cientista Político e Coordenador do Programa de Democracia e Cidadania Ativa da Fundação Tide Setuba.

“Acho que, em alguns momentos, pode soar uma coisa bem-humorada, divertida e poderia ser uma competição saudável – se estivesse acontecendo em termos melhores. Mas, a gente sabe que, no cenário político de polarização que o Brasil se encontra hoje, não é nada saudável”, afirma.

Marcio Black usa como exemplo a situação de Minas Gerais. Na última terça-feira (15), o secretário de Saúde de Belo Horizonte, Jackson Machado Pinto, expressou descontentamento com o número de vacinas recebidas, 19,3 mil, quando o esperado eram 70 mil. Para o secretário, há um “uso político da vacina”.

A hipótese de opositores de Romeu Zema (Novo) é que isso estaria acontecendo porque Alexandre Kalil (PSD), prefeito de BH, já se colocou como candidato ao governo do estado em 2022. “O que ele (Zema) faz é, ao identificar que o prefeito de BH como um futuro adversário político, ele interrompe a vacinação, boicota a vacinação, como forma de fazer política. Então, esse é um risco muito grande”, diz.

Ao Estado de Minas, a secretaria-executiva de Zema afirmou que a distribuição de vacinas é feita de forma técnica.

Black ainda lembra do atrito entre Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, e João Doria. Os dos discutiram no Twitter após o tucano anunciar o novo calendário de vacinação de São Paulo. O ministro quis “marcar território” e dizer que as doses utilizadas foram compradas pelo governo federal.

“O componente da disputa eleitoral está colocado principalmente em figuras como o Flavio Dino, Doria, que são governadores que estão de olho, de certa maneira, na disputa eleitoral de 2022. E o atual governo federal já identificou esse governo como ameaças, então, no cenário como o que estamos vivendo hoje, não existe uma centralização. Nós já jogamos ao chão o PNI (Plano Nacional de Imunização), que seria centralizado no governo federal por meio do Ministério da Saúde, isso não existe.”

O governador de São Paulo, João Doria, já confirmou que pretende ser candidato à Presidência da República, mas, antes, precisa passar pelas prévias do PSDB. 

Creomar de Souza concorda que a eleição de 2022 é um ponto importante na discussão da vacinação. “Precisamos levar em consideração que esse é um ciclo eleitoral muito distinto, porque o próprio presidente está em campanha desde o primeiro dia de mandato”, opina. “Isso cria um constrangimento na dinâmica eleitoral. Acaba que, com essa proximidade, os governadores também são pressionados. Alguns querem se candidatar à reeleição, outros querem entrar no Senado, outros têm aspirações maiores, como a presidência da República.”

Balde de água fria

Brazilian President Jair Bolsonaro waves as he leads a motorcade rally with supporters in Sao Paulo, Brazil, on June 12, 2021. - Bolsonaro was fined $100 Saturday for violating Covid-19 containment measures in Sao Paulo state by failing to wear a face mask and provoking huge crowds at a motorcycle rally for supporters. (Photo by Miguel SCHINCARIOL / AFP) (Photo by MIGUEL SCHINCARIOL/AFP via Getty Images)
No dia 12 de junho, o presidente Jair Bolsonaro promoveu uma "motociata" em São Paulo, sem uso de máscara (Foto: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP via Getty Images)

Há, no entanto, um asterisco em todos os calendários que pode ser um balde de água fria nos governantes: a previsão está sujeita à entrega de doses pelo Programa Nacionais de Imunização, do Ministério da Saúde. A promessa do governo federal é vacinar toda a população brasileira até dezembro de 2021.

“O grande risco da ‘rinha de governadores’ é que você precisa de alguém que adquira as vacinas, e esse alguém é o governo federal. E a gente precisa lembrar que o governo federal entrou com atraso na busca por insumos”, diz Creomar de Souza. “Se não tiver vacina, alguém vai ter que pagar a conta do constrangimento de não ter vacina é o governador, porque o governo federal não prometeu calendário.”

O temor de Marcio Black é que haja um boicote do próprio governo federal – como, em alguns aspectos, ele aponta que já está acontecendo.

“O que você tem são os governadores correndo soltos e um presidente da República que fica melindrado com isso, fica incomodado com a proeminência e protagonismo que as pessoas assumem nesse caso”, aponta. “Então, o que ele faz também é tentar boicotar, seja criticando, tentar interromper o processo de vacinação, desestimular as pessoas a se vacinarem, enquanto, por outro lado, ele continua insistindo em negar a importância das medidas de isolamento, se colocando contra o uso da máscara e provocando aglomerações.”

A previsão de chegada de doses feita pelo Ministério da Saúde já sofreu diversas reduções. Há, ainda, a dificuldade na entrega de vacinas da Janssen, de dose única. A promessa do governo Jair Bolsonaro é disponibilizar mais de 500 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 até o fim de 2021.

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