Rio abre primeiro Carnaval antecipado pós-restrições da pandemia temendo segurança

RIO DE JANEIRO, RJ, 08.01.2023 - Músicos do bloco Canários do Reino desfilaram no centro do Rio de Janeiro na abertura do Carnaval não-oficial da cidade. (Foto: Yuri Eiras/Folhapress)
RIO DE JANEIRO, RJ, 08.01.2023 - Músicos do bloco Canários do Reino desfilaram no centro do Rio de Janeiro na abertura do Carnaval não-oficial da cidade. (Foto: Yuri Eiras/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Mais de 30 blocos saíram de diferentes pontos do centro do Rio de Janeiro, neste domingo (8), na abertura do tradicional Carnaval não oficial, evento que reúne blocos com e sem autorização do poder público.

Cariocas e turistas não se inibiram com o tempo chuvoso e mataram a saudade da folia antecipada, cancelada em 2021 devido à pandemia do novo coronavírus.

No ano passado, o desfile não oficial ocorreu de forma clandestina no próprio feriado de Carnaval após a prefeitura cancelar os cortejos autorizados em razão do avanço da variante ômicron.

A preocupação desta edição é a violência na região central da cidade. A Desliga dos Blocos, organização que representa os blocos do que chama de Carnaval livre --aqueles grupos que não figuram na listagem de autorizados pela prefeitura--, divulgou na última semana uma carta coletiva em que aponta preocupação com a situação do centro.

O documento diz que o processo de degradação do centro resulta em falta de segurança.

Na última quarta-feira (4), o guia de turismo Daniel Mascarenhas, 31, foi morto a facadas depois de reagir a um assalto no centro. Duas mulheres foram presas na sexta-feira (6) sob suspeita de serem as autoras do crime.

"A atual prefeitura até tem um projeto de ocupar o centro no futuro, mas, na prática, a região está cada vez mais vazia. Não temos incentivo eficaz para ocupar a região com moradias. Quando o centro da cidade está deserto, consequentemente tem menos segurança. A gente que faz Carnaval tenta pôr menos blocos à noite e tentamos sair todos juntos, porque é mais seguro", afirma o aposentado Luis Otávio Almeida, 58, participante da Desliga dos Blocos e fundador do Boi Tolo, um dos blocos mais famosos do movimento.

O engenheiro Leonardo Lannes Vieira, 29, curtiu diferentes blocos neste domingo, sempre atento à segurança.

"Eu e meus amigos tentamos andar sempre em grupo, mesmo na hora de fazer xixi. Tomo certos cuidados, como não pegar muito no celular, andar de doleira [uma espécie de pochete colada ao corpo]", diz o folião, presente no Canários do Reino, que saiu em cortejo pela Praça 15.

A analista de e-commerce Gabrielli Gomes, 25, frequenta os blocos de Carnaval mesmo fora de época. Ela afirma que se sente mais segura nos cortejos não oficiais, porque são mais vazios.

"O Carnaval oficial é mais cheio e tem um pessoal mais normativo, por isso tem muito mais roubo, mais assédio. Eu me sinto mais confortável para ir com a bunda de fora nesses blocos não oficiais. Além disso, eles representam a alma do Carnaval. Estamos ocupando o espaço da rua", diz a foliã.

Em nota, a Polícia Militar afirma que o 5° Batalhão (Praça da Harmonia), responsável pela região, ganhou o reforço de agentes no Regime Adicional de Serviço (RAS), "visando a redução de furtos e roubos de transeuntes em sua área de atuação".

A PM diz ainda que o batalhão apreendeu mais de 500 objetos perfurocortantes nos últimos dois meses. O governo do estado, por meio do programa Segurança Presente, afirma que já está em andamento o Plano Verão, que prevê "reforço do policiamento em todas as áreas turísticas e de grande concentração de pessoas", inclusive no centro.

A Guarda Municipal e a CET-Rio, órgãos vinculados à prefeitura, atuam no monitoramento de trânsito e na análise de eventual necessidade de desvio de trânsito, ou fechamento de ruas.

No Butano na Bureta, bloco fundado por químicos que também se apresentou na região da praça 15, o fisioterapeuta Bruno Rodrigues, 41, e o roteirista Fidelis Fraga, 50, combinaram a fantasia: Rodrigues foi de abacaxi, e Fraga, de melancia. Ambos comemoraram a volta do Carnaval de rua.

"Ano passado, por conta da pandemia, acabamos indo a festas fechadas. Percebemos que íamos fantasiados e as outras pessoas não. Foi um pouco desanimador", lembra Rodrigues.

Com a volta dos blocos, Fraga celebra a possibilidade de criar figurinos. O das frutas foi reaproveitado de uma performance artística do ano passado. "Neste ano já preparamos mais de dez fantasias, uma para cada dia de folia. E planejamos ainda mais."

A engenheira Carolina Bocaiuva, 29, faz parte de um grupo de amigas que brinca o Carnaval do alto das pernas-de-pau. "Esse retorno depois da pandemia é maravilhoso, sensação de ter os pés no chão, os movimentos sendo restabelecidos. Quem curte Carnaval espera por ele como um Ano-Novo."