Rio adota 'sommeliers de água' em pacote para evitar nova crise de geosmina

***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 24.11.2022 - Funcionários da Cedae experimentam provas de água da estação de tratamento. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 24.11.2022 - Funcionários da Cedae experimentam provas de água da estação de tratamento. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - "É ela", disse o químico Alexandro Pereira da Silva.

A suspeita do servidor da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos) era de que a última das cinco amostras de água experimentadas no novo laboratório da Estação de Tratamento de Água (ETA) do Guandu contivesse a famosa geosmina, substância que marcou a crise no abastecimento nos últimos verões no Rio de Janeiro.

No segundo gole, ele notou que o leve gosto ruim não parecia barro, mas mofo. Ele era causado por uma pequena dose de MIB, sigla para metilisoborneol, substância menos famosa que também deu dor de cabeça à Cedae nos últimos verões.

A presença da substância não era um alerta. Fazia parte de uma amostra de controle para ver se os cinco técnicos que experimentam duas vezes ao dia a água que sai da estação conseguiam notar a presença de contaminantes. As três anteriores, também distribuída aos quase 9 milhões de moradores da região metropolitana na quinta-feira (24), estava de boa qualidade na avaliação dos "sommeliers de água" da Cedae.

O painel sensorial, nome técnico do grupo, é o mais barato de um pacote de R$ 82,4 milhões de investimento concluído este ano pela companhia para tentar evitar que a geosmina ou outras substâncias menos conhecidas causem transtornos ao abastecimento de água da região metropolitana carioca.

A Cedae capacitou 15 técnicos do laboratório a participarem do painel sensorial a fim de que conseguissem identificar as substâncias no limite mínimo de detecção humana. Para isso, eles têm breves limitações, como não tomar café 30 minutos antes de qualquer sessão.

A figura do "sommelier de água" foi alvo de pilhéria quando sugerida pelo ex-presidente da Agenersa (Agência Reguladora de Energia e Saneamento) Luigi Troisi durante o auge da crise da geosmina, em janeiro de 2020. O painel sensorial, porém, é comum em outras distribuidoras de água, como a Sabesp.

"Não é uma invenção nossa. É feito no mundo todo. O painel simula o contato do usuário com o produto", disse Robson Campos, coordenador de controle de qualidade da água da ETA.

Os investimentos incluem também a criação de um laboratório dentro da estação de tratamento capaz de detectar com mais rapidez eventual contaminação na água.

"Tínhamos uma resposta lenta porque nossa capacidade analítica era muito limitada. Tínhamos que terceirizar muitas análises e elas levavam muito tempo. Para detectar geosmina, a gente levava até sete dias", afirma Campos.

A companhia também adquiriu oito boias de tecnologia holandesa que emitem ondas de ultrassom capaz de monitorar e controlar a proliferação de algas no sistema lagunar do Guandu, origem da água tratada para os moradores da região metropolitana.

A estatal também decidiu fazer um bombeamento da água do Guandu para a lagoa onde se concentrou a proliferação da geosmina há dois anos. O objetivo é diminuir a temperatura e aumentar a renovação da água, dificultando a reprodução dos contaminantes. Além disso, instalou uma UTR (Unidade de Tratamento de Rio) na confluência dos rios Poços e Queimados para tratar a água poluída antes de chegar à ETA.

De acordo com a estatal, as medidas geraram uma economia de R$ 165 milhões em produtos químicos usados para mitigar cheiro e gosto ruins causados pela geosmina.

Os efeitos da poluição no abastecimento de água do Rio de Janeiro atingiram seu auge no início de 2020, quando o líquido que saía das torneiras da região metropolitana passou a ter cheiro e gosto de terra. A causa era a geosmina, produzida quando há muita alga e bactéria na água. A substância não deu indícios concretos de malefícios à saúde.

As falhas geraram multa à Cedae e o cancelamento de aulas em escolas públicas.

O problema se repetiu em menor escala no ano seguinte. No verão deste ano não houve ocorrência mais grave, embora a poluição da bacia hidrográfica que abastece a maior parte do estado seja vista como uma "bomba-relógio".

Os investimentos são considerados paliativos até a solução definitiva do saneamento básico da bacia hidrográfica do Guandu, previsto na concessão feita no ano passado. Está a cargo da concessionária Águas do Rio a construção, nos próximos cinco anos, de uma galeria para impedir o despejo de esgoto na bacia do rio.

"A geosmina por dois anos criou uma imagem muito ruim para empresa, não obstante a Cedae seja muito mais vítima do que qualquer outra coisa. A geosmina é consequência, fundamentalmente, de crescimento desordenado que joga porcaria em rio", disse o presidente da Cedae, Leanardo Soares.

Desde a concessão, a empresa deixou de ser responsável pela coleta e tratamento de esgoto, focando sua atividade apenas na produção de água. A mudança levou a uma reestruturação da empresa, que reduziu o quadro de servidores de 4.200 para 3.500.