Rio está entre as capitais que mais vacinaram com a segunda dose

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RIO — Com 13,6% da população total imunizada com a segunda dose contra a Covid-19, o Rio apresenta índices de vacinação maiores que outras capitais como São Paulo (10,3%) e superiores à média nacional (12,3%). Ao lado de Recife, é a segunda capital que mais vacinou, dentre as dez maiores do país, atrás apenas de Porto Alegre (18,9%) e Belo Horizonte (14,1%), segundo dados do Ministério da Saúde atualizados nesta segunda-feira. A cidade também aparece um pouco mais avançada no cronograma de imunização: enquanto São Paulo ainda vacina pessoas com comorbidades com mais de 40 anos e Belo Horizonte sequer abriu campanha para pessoas fora dos grupos prioritários, o Rio iniciou a vacinação da ampla população, seguindo critério de idade, nesta segunda-feira, começando por mulheres de 59 anos.

Com a inclusão gradativa de faixas etárias mais populosas, a capital fluminense está às vésperas de dias desafiadores em seu plano de vacinação. Para dar conta disso, a prefeitura mudará os locais de vacinação, aos poucos, considerando o perfil etário nos bairros da cidade, segundo o secretário municipal de Saúde do Rio, Daniel Soranz.

— A nossa previsão de vacinar toda a população maior de 18 anos até outubro é bem conservadora, baseada na distribuição nacional de 40 milhões de doses por mês pelo Ministério da Saúde, que é a média dos últimos meses. Com expectativa de ampliação para 50 milhões de doses por mês, temos a possibilidade de acelerar esse calendário. Vamos mudar alguns pontos de vacinação, de acordo com o perfil de cada idade. Durante a vacinação de idosos, por exemplo, tivemos que manter uma quantidade grande de pontos em Copacabana e na grande Tijuca. Vamos diminuir a quantidade nesses locais e abrir em outros, conforme os grupos de idade mudarem — explica.

Soranz diz que o planejamento para a distribuição dos imunizantes aos 280 pontos de vacinação da cidade tem priorizado dinâmica de estoque zero, e que pretende ampliar os grupos vacinados mantendo a mesma estrutura da campanha até aqui, fazendo apenas adaptações. Ele considera a logística para a vacinação de adultos e jovens mais fácil do que a de idosos, e ressalta que a convocação apenas por grupos de idade reduzirá fraudes.

— Agora, é um público mais fácil pela logística da prefeitura de vacinar. A idade é um critério mais objetivo, se exige menos documentação e reduz a possibilidade de tentar furar a fila, com falsos atestados. Vacinar a população idosa, acamada e com dificuldade de locomoção requer mais trabalho — justifica.

Para que a vacinação traga efeitos na redução dos impactos da pandemia, a médica Lígia Bahia, especialista em Saúde Pública da UFRJ, diz que a imunização deveria ocorrer de forma mais igualitária e acelerada não só no Rio, mas em todo país.

— Precisamos de altas coberturas vacinais do Oiapoque ao Chuí. Em contextos econômicos e sociais de países com alta renda a vacinação acelerada da população teve o efeito esperado reduziu abruptamente as taxas de óbitos. No Brasil, a vacinação segue muito lenta, considero que com apenas cerca de 14% da população imunizada não se pode esperar impacto na transmissão da covid-19. Seria necessário dispormos mais doses de vacinas para alcançarmos um ritmo de vacinação compatível com um cenário epidemiológico de altas taxas de transmissão — alerta.

Segundo Soranz, a velocidade de vacinação no Rio também se deve à recuperação da estrutura de saúde da família:

— Temos uma rede de equipes de saúde da familia que era muito robusta. A gente perdeu parte dessa rede, mas estamos reconstruindo isso. Nossa capital tem uma das maiores redes do Sistema Único de Saúde (SUS). Distribuir rapidamente a vacina para essas equipes faz toda diferença.

Enquanto o público-alvo da campanha de vacinação do Rio vai se tornando paulatinamente maior, cresce também a preocupação com a garantia de cobertura vacinal para todos os públicos contemplados. Para o secretério, esse receio, embora válido, não pode desacelerar o ritmo de execução do cronograma municipal.

— A prefeitura projetou um calendário que propunha a vacinação das pessoas com 70 anos ou mais até fevereiro e ele se concretizou. Também conseguimos vacinar pessoas com 60 anos ou mais até abril, como queríamos. É necessário termos metas de vacinação claras para perseguir — disse Soranz ao EXTRA no dia 13 de maio.

Acontece, porém, que nem todas as metas da prefeitura foram atingidas. A própria Secretaria municipal de Saúde admite que a vacinação de pessoas com comorbidades, grupo contemplado na fase passada da campanha, ficou 20% abaixo do número esperado. Ao todo, 496.409 cariocas pertencentes a esse público foram vacinados. Soranz atribui os resultados a possíveis problemas de estimativa:

— O último Censo foi feito há mais de dez anos. O que temos é uma projeção do Censo, calculada a partir da prevalência de determinadas doenças em relação a uma determinada população. Isso obviamente prejudica um pouco o planejamento, então a gente não sabe se essas pessoas não se vacinaram porque não procuraram se vacinar, ou se elas de fato não existem — afirma Soranz.

Apesar das incertezas, a vacinação da ampla população pelo critério de idade é uma medida “positiva” e “pragmática”, avalia o infectologista Alberto Chebabo:

— Agora, estamos entrando no grande grupo. Os números atuais de cobertura vacinal do Rio são um alento, mas precisamos avançar e avançar bastante. Não vamos conseguir um controle adequado dessa pandemia se não tivermos pelo menos 40% da população com duas doses. Aí, sim, vamos notar uma diferença nos índices de casos e mortes.

Mesmo quem já recebeu as duas doses da vacina no Rio ainda se diz inseguro com as altas taxas da epidemia e o tímido avanço da imunização. A idosa Marly Camargo, de 95 anos, que mora em um residencial gerontológico Vila do Sol em Botafogo e está entre as primeiras vacinadas no município, espera a ampliação da campanha de imunização para sair do isolamento e rever parentes e amigos.

— Estou tranquila, depois que tomei a vacina. Mas para que possa rever meus sobrinhos, eles ainda precisam estar vacinados. Devo sair do isolamento em breve para rever uma prima, que está cumprindo o tempo necessário depois que tomou a segundo dosa da vacina — conta ela, que não encontra pessoalmente com familiares desde o início da pandemia.

O professor de artes Paulo César Marques Assumpção, também vacinado com as duas doses, voltou a dar aulas presenciais ontem na Escola Municipal Herbert Moses. Mesmo imunizado, ele diz que ainda não se sente seguro em sair na rua e ter contato com outras pessoas.

— Cumpri um isolamento rigoroso. Para mim, sair na rua e enfrentar o transporte público, onde ha muita aglomeração e as pessoas não respeitam o uso obrigatório de máscaras, é um risco grande, mesmo estando vacinado. Tranquilidade mesmo, acho que só teremos de volta quando essa epidemia acabar.

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