Rio esvaziado: boemia carioca teve de aderir às restrições impostas pelo repique da pandemia no país

Rodrigo de Souza
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Parecia uma manhã de segunda-feira, mas era uma noite de sábado. Não passava das 22h30 quando tudo o que se via na avenida Olegário Maciel, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, eram estilhaços de garrafas, restos de comida e pequenos grupos de pessoas se preparando para ir para casa. Num dia comum, o tempo aberto e a temperatura agradável (25°C) seduziriam centenas de pessoas à rua, que não esvaziaria enquanto o sol não raiasse. Neste sábado, entretanto, o local — que já protagonizou cenas de grandes aglomerações ao longo da pandemia — aparentava estar de ressaca antes ainda da meia-noite.

A imagem se repetiu por toda a cidade. Entre a noite deste sábado e a madrugada deste domingo, O GLOBO circulou por pontos movimentados de diferentes regiões do Rio: Zona Oeste, Zona Sul e Centro. Dois dias após a decisão da prefeitura de estender o horário de funcionamento de bares e restaurantes durante a vigência das medidas restritivas, frequentadores da noite carioca aproveitaram as quatro horas a mais para comer, beber e confraternizar. Depois das 21h, contudo, as ruas mostraram que a boemia carioca teve de aderir, ainda que temporária e reluntantemente, às transformações impostas pelo repique da pandemia no país.



Ao longo da Olegário Maciel, quatro grupos de jovens — cerca de 20 pessoas ao todo, todas sem máscara — aproveitavam os últimos minutos de permanência permitida na rua, vedada das 23h às 5h por decreto da prefeitura. Dois carros da Guarda Municipal faziam o patrulhamento da área por volta das 22h30. Segundo os agentes, os bares e restaurantes da avenida se fecharam pontualmente às 21h, sem tumulto. Apesar disso, durante a passagem da nossa equipe pelo local, nenhum agente foi visto orientando os transeuntes sobre a necessidade de proteção facial.

— Chegamos aqui há pouco tempo e já vamos embora. Viemos para ver se tinha algo, mas não tem — disse um frequentador, acompanhado da namorada, que não quis se identificar.

Na Rua Dias Ferreira, no Leblon, Zona Sul, o cenário fantasmagórico capturado pelo GLOBO no último dia 5, sexta-feira, se repetiu neste sábado, à exceção dos vestígios de uma movimentação moderada que aconteceu até as 21h. Ao longo da via, por volta das 23h15, quatro patrulhas da Guarda Municipal e uma viatura da Polícia Militar foram vistas.

Embora algumas equipes estivessem a postos no local, nenhum agente foi visto coibindo as pequenas aglomerações que se formaram em frente aos bares e restaurantes após as 21h. Em frente ao centro comercial Palm Beach, cerca de 30 pessoas, todas sem máscara, interagiam aos gritos. A menos de 20m, guardas do Canil da Guarda Municipal conversavam de pé.

Funcionário de um bar da Dias Ferreira, George Alves, de 30 anos, afirma que o movimento na área aumentou com o novo horário de fechamento dos bares e restaurantes, mas nem de longe é equivalente ao do período anterior aos decretos restritivos.

— Quando o bar fechava às 17h, as pessoas nem vinham, porque não ia ter o que fazer. Agora elas vieram, mas o movimento foi muito menor. Não sei se o impacto será suficiente — diz ele.

O garçom reconhece a urgência das medidas restritivas, mas se preocupa com o número de demissões no setor gastronômico motivadas pela pandemia.

— Meu bar já teve que demitir quatro pessoas por causa do pouco movimento. Estamos fazendo tudo com a maior proteção, operando a 40% da capacidade, mas não parece ser suficiente — afirma.

Na Lapa, coração da boemia carioca, um cenário distópico: sob os Arcos, no lugar das dezenas de barracas de comida e bebida que concentravam visitantes e atraíam pessoas de todas as partes da cidade, o escuro e o vazio absolutos. O mesmo se viu na avenida Mem de Sá, cujos bares costumavam produzir a habitual barulheira da região. Três viaturas da Guarda Municipal foram vistas na área por volta da meia-noite, quando nossa equipe passou pelo local.

As orlas da cidade, como a da Barra e do Leblon, também estavam mergulhadas em breu e silêncio neste sábado. A praia de Copacabana, normalmente iluminada pelas lâmpadas dos refletores e dos quiosques, refletia as luzes dos semáforos e das sirenes dos carros da Polícia Militar. Um ou outro grupo de transeuntes era visto na ciclovia. Por volta da 0h10, pouquíssimos quiosques estavam acesos, e todos estavam vazios.

Mas o respeito às medidas de combate à Covid-19 não foi unânime. Foi o que apontou uma operação da Secretaria de Ordem Pública (Seop) com foco em alguns pontos que, segundo a pasta, aparecem em denúncias recentes feitas pelo canal 1746. Além de fixar patrulhas em locais estratégicos da cidade, a Seop enviou um comboio com cerca de seis carros, entre veículos da Guarda Municipal, da Seop e da Polícia Militar, ao Recreio dos Bandeirantes e ao Terreirão, na Zona Oeste da cidade.

As viaturas chegaram à avenida Gilka Machado, no Recreio, por volta das 21h. O GLOBO acompanhou a operação por cerca de uma hora e meia. Por volta das 21h20, a pandemia — bem como o decreto de medidas restritivas — parecia não existir no local, movimentado ponto gastronômico da região. Como num dia comum, bares e restaurantes estavam apinhados. Nas calçadas, mesas e cadeiras disputavam espaço com transeuntes, que circulavam livremente — muitos sem máscara. Barraquinhas e ambulantes ocupavam o canteiro central da avenida.



Quando o comboio da Secretaria de Ordem Pública (Seop) chegou à avenida, vendedores correram para recolher suas mercadorias. "É a fiscalização!", alertou uma comerciante. Em minutos, dezenas de portas se arriaram, e a multidão de consumidores, antes reunidos e sentados, começaram a se dispersar. Os agentes da secretaria realizaram, ao todo, cerca de 35 interdições na avenida, diz a pasta.

Maria Stolben, de 57 anos, tem dois bares na avenida. Com medo de ser multada, ela teve de correr para fechá-los quando a fiscalização chegou, às 21h30. A empresária atribui a demora para fechar à insistência dos clientes.

— Concordo com as restrições, a gente tem que colaborar para ver se acaba com isso (a Covid-19), porque a gente já perdeu várias pessoas próximas. Eu queria ter fechado pontualmente às 21h, mas atrasamos uns minutinhos porque, para o pessoal (os clientes), isso ainda pode ser um pouco difícil de entender. Mas precisamos trabalhar também. Tenho oito funcionários e dois aluguéis para pagar — afirma.

Dona de uma loja de açaí na avenida, Tanila Barbosa, de 30 anos, já havia recolhido as mesas de seu estabelecimento quando a fiscalização chegou. Às 21h, ela passou a entregar os pedidos apenas pelo método take away (retirada na loja), permitido a noite toda.

— A prefeitura está correta, tem que haver fiscalização. O número de casos está muito alto. A gente precisa trabalhar, mas as pessoas precisam ter consciência do que está acontecendo. Quem quer comer faz seu pedido, leva ou consome num lugar aberto.

Um restaurante chegou a se fechar com clientes dentro. Cerca de 30 pessoas ainda comiam e conversavam quando o proprietário do estabelecimento, ao saber que a Seop circulava pelo local, decidiu baixar as portas. Por dez minutos, ninguém pôde entrar ou sair do local. Só quando os agentes da secretaria chegaram ao restaurante é que as portas se abriram novamente. A Guarda Municipal entrou, desligou o som e dispersou os clientes, todos sem máscara — e muitos deles saindo a contragosto.

O estabelecimento foi o único da rua a receber uma multa por infração ao decreto municipal. O proprietário do restaurante não quis comentar a interdição.

Novo decreto

Na última quinta-feira, ao decretar a prorrogação as medidas restritivas contra o avanço da Covid-19, a prefeitura do Rio decidiu estender o horário de fechamento de bares e restaurantes de 17h para as 21h. A decisão foi tomada após um imbróglio judicial com donos de estabelecimentos — que, no dia 5, quando o decreto anterior ainda vigorava, chegaram a obter na Justiça a permissão para funcionar até as 20h. Também no dia 11, um levantamento do GLOBO mostrou que os pedidos de internação de UTI para a Covid-19 aumentaram 90% em duas semanas.

Segundo o novo decreto, válido até o dia 22, bares, restaurantes e quiosques podem funcionar a 40% de sua capacidade. Os serviços de take away (retirada) e delivery (entrega) de alimentos está permitido mesmo após o horário final. A nova determinação também liberou serviços nas praias, incluindo ambulantes fixos e itinerantes, até as 17h, o que estava proibido no último decreto.

Segundo a decisão da prefeitura, continua proibido permanecer em ruas, espaços públicos e praças entre as 23h e as 5h. A multa para quem descumprir essa medida é de R$ 562,42. Ainda permanecem vetados eventos, festas e rodas de samba, assim como o funcionamento de boates, casas de espetáculo, feiras especiais, feiras de ambulantes e de artesanato.