Rio faz protocolo para definir quem terá leito e respirador: para médico, escolha marcará a vida dos que estão na linha de frente

Felipe Grinberg, Lucas Altino e Paulo Cappelli
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Estado do Rio já perdeu mais de 800 pessoas para a Covid-19

Um dia depois de o secretário estadual de Saúde do Rio de Janeiro, Edmar Santos, admitir que, com o número crescente de casos de Covid-19, não haverá respiradores suficientes para todos os pacientes em estado grave, o Estado já estuda critérios para escolher quais doentes terão direito a uma vaga em UTI. De acordo com o protocolo técnico que está em análise, e que vai tirar o peso da “escolha de Sofia” dos ombros dos médicos, serão analisadas as condições de seis órgãos e atribuídas notas ao seu funcionamento, de 0 (boa) a 24 (péssima). Quanto menor a nota, mais chances o doente terá de conseguir um leito. Nesta quinta-feira, mais de mil pacientes com casos suspeitos ou confirmados do novo coronavírus aguardavam uma vaga em UTI ou enfermaria no estadoo. Desse total, 361 estavam em estado grave.

 

O primeiro item analisado será o funcionamento de seis órgãos, como pulmões, rins e coração. Os médicos vão atribuir uma nota ao paciente de acordo com a existência, ou não, de doenças preexistentes. Quem tiver algum problema que pode ser fatal, independentemente da Covid-19, em até um ano, ganhará 4 pontos e ficará atrás na fila de quem não tiver mal algum (0 ponto) ou de quem tenha uma comorbidade que permita sobrevida maior do que um ano (2 pontos).

O documento também prevê critérios de desempate, caso haja pontuações idênticas. O primeiro é se o paciente está em ventilação mecânica, já ligado a um respirador . O segundo é a idade do doente. Os mais jovens, com até 60 anos, ganharão uma vaga antes dos que têm entre 61 e 80 anos. Os acima dos 80 ficarão por último na disputa por leito. De acordo com a proposta, profissionais que atuem diretamente no combate ao coronavírus terão prioridade, caso precisem de um leito de CTI, e passarão à frente de todos. Por último, o lugar será decidido pela ordem de solicitação da vaga.

O documento, que já foi assinado por Renata Carnevale de Miranda, subsecretária estadual de Regulação e Unidades Próprias, e aguarda apenas o aval do secretário de Saúde, Edmar Santos, para ser publicado no Diário Oficial, foi desenvolvido pelos integrantes da secretaria em conjunto com outras entidades, como o Conselho Regional de Medicina do Rio e a Academia Nacional de Cuidados Paliativos, diz que a escolha terá que ser feita porque haverá “uma inevitável sobrecarga dos equipamentos de saúde quando alcançado o período de ápice de infecção, havendo a imediata necessidade de se promover soluções que evitem o colapso da rede estadual”.

Segundo o texto, o grupo de trabalho levou em consideração os “Princípios de Triagem em Situações de Catástrofes” da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a resolução do Conselho Federal de Medicina que estabelece os critérios de admissão e alta em unidades de terapia intensiva, além de um protocolo publicado no “Journal of the American Medical Association”.

Números alarmantes

O Rio de Janeiro confirmou nesta quinta-feira 9.453 casos do novo coronavírus em 78 dos seus 92 municípios. Ao todo, o estado já contabiliza 854 mortes pela Covid-19. Outros 294 óbitos suspeitos ainda estão sob investigação. De acordo com o boletim divulgado pela Secretaria estadual de Saúde, foram registradas em apenas 24 horas, de quarta para quinta-feira, 60 novos óbitos e 584 novas pessoas infectadas. A capital fluminense continua sendo o epicentro da pandemia no estado, registrando 39 mortes entre quarta e quinta-feira. No total, a cidade tem 5.903 infectados confirmados, com 535 mortes.

 

Médico sugere união de redes pública e privada

Para o ex-chefe de cardiologia do Hospital dos Servidores Luis Maurino Abreu, que trabalha há mais de 35 anos em UTIs, o protocolo pode deixar muitos doentes desassistidos. Ele defende que é melhor criar mais leitos de UTI do que escolher quem tem chances de sobreviver ou não.

— Com o escore, sempre teremos pacientes com potencial de recuperação que não serão contemplados. Se a situação se agravar, só terão acesso à UTI pacientes dentro uma pontuação mais favorável. A melhor alternativa é buscar mais leitos de UTI, o que pode ser alcançado, como foi feito na Espanha, com unificação da fila nas instituições públicas e privadas — diz Abreu, afirmando ainda que a decisão de escolher quem poderá usar ou não um respirador marcará a vida de todos os médicos que estão na linha de frente do combate ao novo coronavírus: — Estamos mandando todos para a guerra, até os jovens que não estão tão preparados para enfrentar uma pandemia como essa.

Nesta quinta-feira, a Assembleia Legislativa (Alerj) aprovou um projeto de lei que altera as regras do Fundo Especial da Alerj. Na prática, a medida permitirá que a Alerj repasse R$ 5 milhões para a UFRJ fabricar mil respiradores, em trinta dias, para auxiliar pacientes acometidos pelo novo coronavírus. O texto será encaminhado para sanção ou veto do governador Wilson Witzel, que, a partir do recebimento, nesta segunda-feira, terá até 15 dias úteis para tomar a decisão.

‘Já chegamos ao nosso teto’, diz secretário

Esperança para o sistema de saúde do Rio, os hospitais de campanha ainda aguardam equipamentos e profissionais para serem inaugurados. As estruturas de grande parte dessas unidades já estão prontas. Mas, o problema é o vazio em seus interiores. O governo esbarrou justamente na dificuldade para garantir respiradores, além de médicos, para cumprir o prazo inicial de abertura até o fim de abril.

Segundo Edmar Santos, serão cerca de 3,4 leitos extras, sendo dois mil de iniciativa do governo estadual e os demais de prefeituras ou governo federal. O secretário prometeu que ao menos seis dos nove hospitais de campanha do estado ficarão prontos nas próximas semanas.

Nesta quinta-feira, ao “RJTV”, o secretário de Saúde afirmou: “Vamos abrir Maracanã, São Gonçalo, Nova Iguaçu, Jacarepaguá, Caxias e terminar Leblon nos próximos 15 dias. Os outros três (Casimiro de Abreu, Campos e Friburgo) vão demorar um pouco mais. Estamos no limite do colapso. Mais na frente, vamos precisar de mais leitos, mas já chegamos no teto. Mesmo se construir mais, não há profissionais ou equipamentos suficientes. Quando a curva fica descontrolada, é impossível o sistema acompanhar”.

Dos nove hospitais de campanha do estado, apenas o do Leblon, em parceria com a Rede D’or, foi inaugurado, mas ainda com operação bem abaixo do prometido. De 200 leitos, sendo 100 em UTIs, apenas 30 foram abertos. Pelo cronograma, a próxima inauguração seria o Maracanã, com 320 leitos de enfermaria e 80 de UTI, o segundo maior dos hospitais de campanha do estado, atrás apenas do de Nova Iguaçu, cuja estrutura para 500 leitos já está totalmente pronta há quase duas semanas, mas ainda sem sinais de operação.