Rio de Janeiro continua lindo: livro com fotos das paisagens da cidade desde 1822 é lançado

Os versos cantados por Gilberto Gil em “Aquele abraço”, música que é uma declaração de amor ao Rio de Janeiro a partir de suas características, como a torcida do Flamengo e a escola de samba Portela, poderiam ser atualizados a partir de uma reunião de fotos da cidade, que mostram que a beleza se manteve presente e sempre em transformação nos últimos 200 anos. Além de prédios e novos meios de transporte adicionados a cartões-postais como o Pão de Açúcar e as ruas do Centro do Rio, são destacadas novas paisagens, já após uma expansão para os subúrbios, como o Parque Madureira, ou para a Zona Oeste, como o Parque Olímpico, na Barra da Tijuca. Essas imagens estão disponíveis em um fotolivro lançado pela Prefeitura do Rio nesta quinta-feira, intitulado "Álbum da Cidade do Rio de Janeiro: Bicentenário da Independência — 2022", que contam a história visual da cidade em comemoração à data histórica comemorada no último 7 de Setembro, a partir de material editado pelo Arquivo Geral da Cidade (AGCRJ).

O evento no Palácio da Cidade, em Botafogo, na Zona Sul do Rio, apresentou a reunião de imagens apresentadas em 176 páginas, a uma plateia de cônsules e outros convidados, como o prefeito Eduardo Paes e seu secretariado . A obra editada pelo Arquivo Geral da Cidade faz parte dos lançamentos em comemoração ao bicentenário da independência, que contam também com um documentário a partir de manuscritos inéditos recuperados do período da independência.

— Existia um álbum do centenário da Independência, de 1922, da Biblioteca Nacional. Mas tecnicamente ele já não estava bom, então decidimos fazer um novo, sobre os 200 anos da Independência. Fomos atrás de lugares que foram importantes para a Independência no Rio de Janeiro, procuramos imagens deles, além de registrar o Rio atual — contou Rosa Maria de Araújo, presidente do Arquivo Geral da Cidade do Rio, que contou com uma equipe que foi de historiadores à equipe técnica, responsável por colorir as imagens. — É um álbum de fotos, para colocar em cima da mesa, e que se a pessoa não quiser ler, não lê, mas precisa ficar encantada com as fotografias.

A obra é dividida em três partes: uma dedicada ao Rio de Janeiro de 1822; outra para o Rio pós-1922; e, por fim, uma dedicada às imagens contemporâneas da cidade.

Na primeira parte, são usadas, sobretudo, as aquarelas de Debret, que dão conta daquela cidade do século XIX, de mão de obra escravizada e um Centro pulsante. Em seguida, imagens ainda em preto e branco — que passaram por um tratamento para serem usadas coloridas, muitas mostrando as duas versões, para o leitor poder comparar — apresentam uma capital que se expandia para as Zonas Norte e Sul, por meio de bondes e charretes, e de cidadãos trajados de vestidos longos (no caso das mulheres) ou paletó e cartola (no caso dos homens). Por fim, as imagens mostram um Rio contemporâneo, com expansão para a Zona Oeste e com construções novas, que alteraram as paisagens características da cidade: o Pão de Açúcar como cartão-postal é retratado já com muitos prédios aos seus pés.

— Nos debruçamos sobre o nosso acervo, que é de quatro séculos, e temos essa grande missão de levar o conhecimento a toda a população, já que a História do Rio se confunde com a do Brasil e também com a de Portugal — explica Elizeu Santiago, diretor do Centro de Ensino e Pesquisa do Arquivo da Cidade, que também narra a maneira como são contadas as histórias no fotolivro, com imagens históricas para mostrar as transformações espaciais:

— A parte mais transformada, sem dúvida alguma, foi a Zona Oeste. Você tem uma expansão para lá e em direção para a Baixada Fluminense, mas a cidade inteira se transforma. O centro histórico menos, porque a maior parte é tombada, enquanto as áreas de habitação recentes permitem uma política urbanística muito mais flexível — conclui.

O fotolivro recupera regiões da cidade que nem existem mais. Em uma imagem do Paço Imperial, de 1865, o Morro do Castelo aparece ao fundo, anos antes de ser colocado abaixo, em 1922. Outra foto de uma paisagem extinta é a da Praça Onze, berço do samba, que deixou de existir depois da construção da Avenida Presidente Vargas, região que atualmente abriga também o Sambódromo.

Um Paço Imperial com muita área verde, ainda sem o Jardim Zoológico, ou uma Central do "Brazil", com grafia ainda com Z também são destaques na edição. Na Zona Sul, o contraste se dá na Avenida Atlântica, com um calçadão ainda não tão largo, sem os prédios enormes e, muito menos, roupas de banho: o paletó estava presente à beira-mar.

Se no século XIX o Rio de Janeiro apresentado na obra é de bondes, as imagens contemporâneas dão espaço ao Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), legado Olímpico dos jogos realizados em terras cariocas em 2016, e aos ônibus trafegando pelas ruas asfaltadas. O prefeito Eduardo Paes, no evento desta manhã, demonstrou vivenciar essa nova configuração da cidade:

— Queria primeiro pedir desculpas pelo atraso, o bonde não estava funcionando, então vim de carro mesmo e o trânsito estava insuportável — brincou. Paes também destacou as novas construções, que chamaram sua atenção nas imagens reunidas.

— A gente vê como eram as favelas na cidade do Rio de Janeiro, o padrão construtivo das casas, e a oferta de serviços públicos, que não acontecia naquele período. O Brasil conseguiu evoluir na Nova República. É muito difícil você ver uma favela do Rio de Janeiro que não tenha recebido algum tipo de urbanização. As casas não são mais de pau a pique, são casas construídas com tijolo, às vezes até com exagero, de cinco, seis andares.

As imagens contemporâneas, na parte final da obra, são do fotógrafo Claudio Edinger, que contou até com um helicóptero para a realização do trabalho. Novas construções ganham destaque, com imagens feitas do alto: como o Parque Madureira, Parque Olímpico, Museu do Amanhã e o estádio Nilton Santos (Engenhão).

— Falar do Rio de Janeiro é uma declaração de amor, para nós que nascemos e vivemos. O Rio é irresistível. Esse trabalho materializa isso. Viva o Rio! O querido e saudoso Tim Maia diria do Arpoador ao Leblon, e eu vou além: passando pela Mangueira, por Madureira. O Rio é tudo isso — afirma Haroldo Costa, ator, autor e sambista convidado para o evento.

O álbum, que ficará disponível em edição digital no site do Acervo da Cidade, é uma edição conjunta de Prefeitura do Rio, Acervo Geral da Cidade, Organização dos Estados Ibero-Americanos, Museu de Arte do Rio e Aprazível Edições e Arte. As 176 páginas contam com textos em português e, também, em inglês.