Rio registra aumento de 20,7% no número de imóveis vagos na pandemia; Confira bairros com queda no preço do aluguel

Pollyanna Brêtas
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O impacto da pandemia de Covid-19 na renda, no trabalho e no comportamento dos moradores redesenhou também o mapa de locação de imóveis na cidade do Rio. Bairros, antes muito cobiçados e com poucos imóveis disponíveis para aluguel, agora registram altas taxas de desocupação e queda nos valores cobrados aos novos inquilinos. Centro, Maracanã e Leblon estão com alta taxa de vacância e foram os bairros com mais imóveis vagos à espera de um locatário.

Segundo levantamento da administradora Apsa, na capital, o índice geral de desocupação cresceu 20,7%, em um ano, e encerrou 2020 em 16,9%, interrompendo a sinalização de que o mercado começava a reagir para locação. A taxa ideal é entre 8% e 10%. Ou seja, os estoques ainda estão bem mais elevados do que o nível esperado pelo mercado para se manter os valores de aluguéis em patamares mais altos. Antes da pandemia, a vacância estava em torno de 14%.

A alta é impulsionada por diversos bairros na zonas Sul, Norte e Centro. Na Zona Sul, por exemplo, Leblon, Copacabana e Ipanema terminam o ano passado com as taxas de vacância mais altas. O crescimento da desocupação é um dos fatores que explicam a variação negativa do preço do metro quadrado nestas regiões, em geral puxando para baixo o preço onde há mais casas, apartamentos e salas comerciais disponíveis.

No ano passado, só no Leblon, a taxa de vacância aumentou 90%, chegando a 21,3%, em dezembro. Apesar do aumento da disponibilidade de imóveis para alugar no bairro, os preços ensaiaram uma recuperação no último mês do ano, subindo 6,6%, em relação a novembro, com metro quadrado a R$ 64,95. Embora o mercado tenha percebido a elevação no fim de ano, o valor médio cobrado ficou 8,04% menor do que o praticado há um ano.

O Catete também registrou alta na disponibilidade de imóveis e é o segundo bairro com maior crescimento na vacância na Zona Sul. O metro quadrado fechou o ano em R$ 36,54.

Já na Zona Norte, a Tijuca também sofreu queda de valores. Os aluguéis hoje estão 6,32% menores em um ano, com o metro quadrado saindo a R$ 22,98. A vacância é de 13,9%, um crescimento de 26,36% em seis meses.

Sem estoque:

Para Jean Carvalho, gerente de imóveis da Apsa, a taxa de vacância no patamar de 17%, por sete meses consecutivos, reflete a perda de renda dos cariocas devido à pandemia. Ele também aponta que a mudança na configuração do trabalho, com pessoas trabalhando de casa, o provocou dois movimentos no mercado de locação: famílias procurando mais qualidade de vida, e imóveis maiores, ou decidindo sair de regiões centrais, em busca de aluguéis mais baratos:

— Tínhamos expectativa de fechar o ano com uma vacância menor, afinal o mercado de locação estava se recuperando, com muitas pessoas preferindo alugar em vez de comprar, para ter maior flexibilidade. Mas o cenário ainda não é dos melhores. Com o home office, há famílias buscando moradia até mesmo fora do Rio, onde os aluguéis são mais baixos — explica Carvalho.

Outro fator apontando por especialistas é que com juros mais baixos para o financiamento imobiliário famílias conseguiram sair do aluguel e comprar o próprio imóvel.

— Com as pessoas em home office e as crianças passando mais tempo em casa, os inquilinos estão buscando mais qualidade de vida, procurando casas ou apartamentos maiores, e mais novos. Há pessoas deixando a Zona Sul e Tijuca, e voltando para Barra ou Recreio — observa Solange Portela de Andrade, diretora da JB Andrade.

Segundo os analistas de mercado imobiliário a situação do Centro da cidade é uma das mais graves do Rio. Depois do início da pandemia, a maior parte dos escritórios e as empresas deixou de operar presencialmente, e houve um debandada de pessoas que trabalhavam ou moravam na região. Os valores de aluguéis no Centro seguem a tendência de queda, com redução de 5,97% em um ano, chegando a R$ 27,90, o metro quadrado. A taxa de vacância já atinge 33%, valor 55,61% mais alto do que nos seis meses anteriores.

Edison Parente, vice-presidente da Administradora Renascença, lembra que a nova administração municipal quer tirar do papel um antigo plano de ocupação residêncial da área que poderia dar um novo fôlego e trazer de volta moradores e trabalhadores para a região central:

— O Centro da cidade virou um bairro fantasma depois da pandemia. O que já foi uma área era pulsante e viva se tornou um deserto. Está realmente assustador. Quem voltou a trabalhar foi só parcialmente, e a vacância comercial muito elevada, puxou a desocupação residêncial. Muitas pessoasl que moravam no bairro também trabalhavam ali mesmo, e decidiram sair porque ficou até perigoso circular. Esperamos que o plano municipal sai do papel e incentive a reocupação — ressalta o executivo.

A prefeitura prepara um pacote de mudanças urbanísticas e tributárias que prevê, entre outras coisas, estímulos para que essa parte da cidade. Quem apostar na ideia de fazer de uma construção para novos moradores pode ter perdão de dívidas ou isenção de IPTU por até dez anos.

As propostas, que estão sendo discutidas, valerão tanto para quem tem imóveis fechados — há uma estimativa de que hoje existam pelo menos 500 prédios inteiros nesta situação.