Rio sofre com 'corrente do mal', diz Marcelo Freixo

***FOTO DE ARQUIVO*** RIO DE JANEIRO, RJ, 16.09.2022 - Entrevista com o candidato ao governo do estado do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo (PSB). (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO*** RIO DE JANEIRO, RJ, 16.09.2022 - Entrevista com o candidato ao governo do estado do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo (PSB). (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Marcelo Freixo (PSB), 55, candidato ao Governo do Rio de Janeiro, vê uma "corrente do mal" no estado da qual os produtos mais recentes são o presidente Jair Bolsonaro (PL) e o governador Cláudio Castro (PL), candidatos à reeleição.

"Nenhum lugar tem cinco governadores presos. Nenhum lugar tem a milícia se organizando como projeto político. Não é à toa que Bolsonaro e essa extrema direita baseada na arma, no desrespeito a instituições, no medo e na violência venham daqui. É contra isso que a gente se organiza para vencer a eleição."

Aliado ao ex-presidente Lula (PT), Freixo vê uma distinção entre o que descreve como máfia enraizada na estrutura de poder fluminense e os esquemas de corrupção identificados nas gestões do petista.

"Tem corrupção em todos os governos. Alguns investigam a corrupção, outros não. Máfia não é corrupção. Estou falando de uma estrutura de poder."

Freixo, que construiu sua trajetória como defensor dos direitos humanos, diz que, em um eventual governo, a polícia seguirá fazendo operações em favelas. "Pode ter confronto? Pode. Pode ter vítima no confronto? Pode. Vamos buscar uma polícia com técnica e inteligência, que possa ser preventiva e eficaz."

PERGUNTA - Sua campanha tem usado muito a imagem do ex-presidente Lula. Sua candidatura depende da vinculação a ele?

MARCELO FREIXO - É uma eleição nacional. Não tem como fugir disso. Bolsonaro é do Rio de Janeiro. Não tem como essa eleição não ser estadual e nacional.

Lula entra num eleitorado mais pobre, que o senhor ainda tem dificuldade de entrar. Por que o sr. acha que ainda não conseguiu crescer nesse setor?

M. F. - A gente já tem um percentual de intenção de votos que supera o histórico de candidaturas desse campo [no RJ]. É a primeira vez que a gente tem um tempo de televisão para se apresentar. Isso começa a fazer efeito agora, estamos sentindo na rua.

O RJ é o estado do Sudeste onde a disputa presidencial está mais apertada.

M. F. - É o lugar de onde Bolsonaro vem. Por que só aqui tem as milícias? Existe um establishment de crime e política estabelecido ao longo de muitos anos. Uma máfia política no poder há muito tempo. A gente identifica alguma corrente do mal.

Nenhum lugar tem cinco governadores presos. Nenhum lugar tem a milícia se organizando como um projeto político. Aqui tem. Então não é à toa que Bolsonaro e essa extrema direita baseada em arma, desrespeito às instituições, medo e violência venham daqui. Isso é muito do que foi o RJ nos últimos anos, nos últimos governos. E é exatamente contra isso que a gente se organiza para vencer a eleição.

Cláudio Castro faz parte da continuidade do que o sr. tem chamado de máfia?

M. F. - Cláudio Castro não rompeu com o que existiu no governo [Sérgio] Cabral, não rompeu com o que existia no próprio governo dele, no de [Wilson] Witzel nem no do [Luiz Fernando] Pezão. Os setores que foram dominantes em todos esses governos que tiveram secretários e governadores presos estão mantidos no governo Cláudio Castro.

Não há uma diferença de tratamento quando o sr. fala da máfia que diz existir no Rio com os casos de corrupção nos governos do PT?

M. F. - Quantas vezes o PT pediu sigilo de cem anos em alguma investigação? Quantas vezes o governo Lula teve um chefe de polícia que fizesse o que o Allan Turnowski fez com Castro? Pelo contrário, todos os órgãos tiveram independência para investigar, ganharam autonomia e foram fortalecidos. Não é o que a gente vê com o Castro. Então são coisas completamente diferentes.

O sr. fala de um controle das instituições, mas a prática de corrupção...

M. F. - Mas eu não estou falando de corrupção. Tem corrupção em todos os governos, alguns governos investigam a corrupção, outros não. Estou falando de máfia. Máfia não é corrupção. Estou falando de uma estrutura de poder. O [caso do] Ceperj é um indicativo de máfia. Por que tem 250 prisioneiros recebendo dinheiro da Ceperj? Que relação é essa? O único momento em que as milícias tiveram uma redução do seu poder foi na CPI das milícias. E no governo Cláudio Castro e Witzel é o momento de maior crescimento das milícias.

O sr. tem repetido que cinco ex-secretários [do governo Witzel-Castro] foram presos e que o governador aparece em delações. É uma situação que o ex-presidente Lula viveu: foi citado em inúmeras delações, teve alguns ex-ministros importantes presos e hoje está concorrendo com seu apoio. O sr. não deveria dar o mesmo benefício da dúvida para Castro?

M. F. - Quem é o Sérgio Moro do Cláudio Castro? São situações completamente diferentes. Achar que essa quantidade de denúncias contra o Cláudio Castro é perseguição política do Judiciário é uma forçação de barra sem tamanho.

O Lula ia disputar uma eleição com fortíssima chance de vencer. Aí vem um juiz que burla todos os processos investigatórios, faz da investigação um projeto político, inviabiliza a disputa eleitoral de um candidato, dá a vitória ao outro e vira ministro. Isso é sem precedentes. O que isso tem a ver com o Cláudio Castro? O Ministério Público tem algum interesse contra ele? Não há paralelo.

O senhor não acha que usar a delação como argumento após tantas críticas ao instituto da delação premiada...

M. F. - Claro que a delação tem que ter prova. Mas tem que ser investigado, como ele é investigado pela Fundação Leão 13, pelo crime da saúde, pelo caso da mochila. São denúncias muito fortes. Não estou antecipando culpa nem condenação. Só não quero ver o RJ com mais um governador preso.

O senhor tem um vice [Cesar Maia] que foi alvo de algumas delações, depois arquivadas, e condenado por improbidade administrativa. Isso é romper com a máfia?

M. F. - Não tem comparativo. Não tem nenhuma denúncia criminal contra o Cesar. [Em relação à improbidade] Cabe ao Ministério Público fazer as denúncias e a investigação. Ele está respondendo. Agora, foi um excelente prefeito. É completamente diferente do que estou falando de envolvimento com o crime, de avanço das milícias.

Na época da CPI, o sr. disse que ele era politicamente responsável pelo avanço das milícias.

M. F. - Falei que o Cesar errou, não só o Cesar. Ele, o Eduardo Paes, comandantes da polícia na época, diversas autoridades. Não afirmei que eles tinham relação com milícia, porque não era verdadeiro. Eles tinham responsabilidade política no sentido de não entender. E o César foi o primeiro a me dar razão publicamente.

O sr. reconheceu que estava errado em relação ao debate das drogas. O sr. mudou de opinião ou acha que esse não é o momento de discutir esse tema?

M. F. - Mudei de opinião. Se você conversar com quem eu conversei, as mulheres, as mães, as avós desses lugares, essa é uma discussão que não tem nenhum senso de realidade. Já tem droga demais, arma demais, morte demais e nenhuma presença do estado. Não há nenhum caminho para que isso aconteça, não é factível, não é real no Brasil de hoje.

Preciso respeitar a opinião das pessoas que estão vivendo nos lugares em que essas drogas estão sendo vendidas, em que as crianças e as pessoas estão morrendo.

O senhor é deputado há 16 anos e concorreu a prefeito duas vezes. Só agora o senhor teve contato com essas pessoas?

M. F. - Agora a realidade do Rio de Janeiro se impôs de tal maneira que é...

Droga e arma existem há muito tempo no Rio de Janeiro, né?

M. F. - Sim, mas não nesse nível de avanço do crime, de domínio de território e o significado do governo Bolsonaro. Nunca se vendeu tanta arma como se vende no governo Bolsonaro. Nunca se teve uma ameaça tão grande à democracia e à vida como agora.

O sr. tem dito que as operações policiais vão continuar. Ações com grande número de mortes, como no Jacarezinho, podem vir a acontecer?

M. F. - Operação tem que ter protocolo. Morreu um policial no início da operação. Se essa operação continuar naquelas condições as chances de isso acontecer é enorme.

Mas se ela parar não é um estímulo a matar policiais para que a operação não aconteça?

M. F. - Você deve fazer operações com segurança para polícia, com inteligência, com controle e com responsabilidade. Os confrontos podem acontecer. O que não pode é você dizer que não vai ter operação e definir que aquelas pessoas que estão lá vão viver sob o comando do crime. Isso não pode.

Essas pessoas têm que ser protegidas. Então tem que ter operação com inteligência, com cuidado, com planejamento. Pode ter confronto? Pode. Pode ter vítima no confronto? Pode. A gente vai buscar uma polícia que tenha técnica e inteligência, que possa ser preventiva e eficaz.

Raio-X

Marcelo Freixo, 55

Criado em Niterói (RJ), foi o segundo deputado federal mais votado pelo Rio de Janeiro em 2018. Foi deputado estadual por três mandatos (2007-2018) e concorreu à Prefeitura do Rio em 2012 e 2016 --ficou em segundo lugar em ambas. Presidiu a CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Rio (2008) e foi ameaçado de morte por milicianos. É formado em história pela UFF (Universidade Federal Fluminense).