Rio tem 283 acolhidos aptos para adoção e mais de 3 mil interessados, mas mesmo assim a conta não fecha; saiba por quê

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RIO — Thayane Fonseca Marinho, então com 10 anos, já estava há quase dois vivendo em um abrigo com dois irmãos mais novos, todos vítimas de maus-tratos por parte do padrasto. O tempo passava, e o trio via crianças pequenas entrarem e saírem rumo a novos lares, enquanto os mais velhos ficavam para trás, à espera de uma guarida que, para a maioria, nunca chegava. A história mudou quando um casal, inscrito para atuar como família acolhedora — que oferece um lar temporário aos jovens até que ocorra a adoção — , aceitou não só receber os três de uma vez, como, pouco tempo depois, abrigou também o caçula, que seguiu com a mãe até que, tal qual os irmãos mais velhos, acabou sofrendo agressões.

Passados sete anos, hoje moram todos na casa com quintal em Campo Grande, onde vivem ainda as três filhas biológicas de Jamine Moreira da Silva do Espírito Santo e Maycon Lopes do Espírito Santo. Um endereço que, na falta de mais espaço — são apenas três quartos para acomodar três crianças, quatro adolescentes e dois adultos —, compensa o aperto com afeto. Muito afeto.

— Pra ser sincera, eu não gosto nem de lembrar muito daquele período. Os mais novinhos iam partindo, e nunca chegava a nossa vez. Ficava na expectativa, me perguntando se também não merecíamos uma família. E a gente não queria dinheiro, luxo. Basta alguém que abrace, que cuide, que ame — conta Thayane, hoje com 17 anos e às voltas com a expectativa do vestibular: — Quero trabalhar com Pedagogia Social em abrigos, para ajudar crianças como eu. Conheci uma pedagoga naquela época que fala comigo até hoje e fez toda a diferença na minha vida.

Oficialmente, como não houve um processo formal de adoção — “mas são meus filhos, não saem daqui de jeito nenhum”, garante Jamine, sorrindo —, os quatro irmãos continuam engrossando as estatísticas da adoção no estado. Ao todo, são 1.443 crianças ou adolescentes que passarão o Natal em um abrigo ou sob a tutela de famílias acolhedoras.

Nem todos, contudo, estão tão próximos de um novo lar, já que, em muitos casos, primeiro é preciso concluir, na Justiça, o processo de destituição do poder legal dos pais biológicos. Segundo especialistas na área, em três a cada quatro situações, em média, o abrigado acaba retornando à família de sangue.

Uma conta que não fecha

Neste momento, são 477 pequenos já com os trâmites de adoção em andamento no Rio, além de 283 disponíveis para tal. A lista de pretendentes é mais de dez vezes maior: há 3.122 cadastrados. Uma conta aparentemente favorável, mas que não fecha por motivos que a vivência de Thayane e dos irmãos ajuda a explicar.

A enorme maioria dos pretendentes busca por recém-nascidos saudáveis e sem irmãos, exigência que pode fazer com que o novo membro da família demore anos para chegar. Não por acaso, quase 60% dos aptos para um lar no estado têm 9 anos ou mais, faixa etária na qual, de maneira geral, não há sequer fila de espera.

Do mesmo modo, mais da metade dos abrigados é composta por pelo menos uma dupla de irmãos, cuja prioridade é, via de regra, mantê-los juntos. Além disso, 89% dos disponíveis para adoção no estado são declarados pardos ou negros.

— Quando o pessoal fala que adoção demora muito no Brasil, eu brinco: “Se você quiser um adolescente, te mando três hoje”. O problema é essa questão do perfil. Quanto mais o interessado restringe, maior vai ser a fila. Isso termina gerando uma quantidade grande de jovens que nem retornam à família biológica, nem são adotados — explica o juiz Sérgio Luiz Ribeiro de Souza, titular da 4ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso.

Na manhã desta quinta-feira, tanto o magistrado quanto Thayane e os irmãos participaram do lançamento da campanha “Braços abertos para adoção”, do Tribunal de Justiça do Rio. O evento aconteceria no Cristo Redentor, que seria visitado pela primeira vez por 49 crianças e adolescentes acolhidos, mas, por conta da chuva, foi transferido para a Paróquia São José, na Lagoa. Até o Papai Noel esteve presente, distribuindo dezenas de presentes, todos fruto de doação.

— Se eu pudesse pedir algo de Natal, era que os pais adotivos percebam que as crianças maiores também precisam e têm direito a um lar. Já ouvi muita gente dizendo que “não adotaria alguém mais velho”. Acho que a nossa história é a prova de que não precisa ser assim — afirma Thayane.

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