Rio tem uma amputação a cada 2 horas e 40 minutos entre pacientes diabéticos

Flávia Junqueira
Juciane Gomes (à direita) tomou os devidos cuidados e evitou que a mãe, Iracy Maria Gomes, de 65 anos, passasse por uma segunda amputação

RIO — A cada três horas, uma pessoa foi internada para amputar um ou mais dedos dos pés, o pé ou a perna na rede pública do estado do Rio em função do diabetes em 2018. E esse quadro vem piorando. Nos seis primeiros meses deste ano, o intervalo de tempo caiu para um paciente a cada duas horas e 40 minutos. Enquanto o Brasil registrou, a cada cem mil habitantes, 14,64 internações nesse perfil, o índice fluminense foi de 18,26. É a terceira maior taxa do país e a primeira da Região Sudeste no ano passado.

— Estamos diante de um problema de saúde pública gigantesco, causado pela falta de prevenção e pelo mau controle do diabetes na atenção básica. O Brasil realiza cerca de 50 mil amputações ao ano. É uma multidão de mutilados e não temos reabilitação para todos — alerta o médico Carlos Eduardo Virgini, da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular.

Segundo dados do Ministério da Saúde, organizados pela Prefeitura do Rio, a rede pública recebeu 3.134 internações de pacientes diabéticos submetidos a amputações (média de 261 ao mês) em 2018, dos quais 458 morreram.

Nos seis primeiros meses de 2019, foram 1.627 internações com amputações (média de 271 ao mês) e 222 mortes, conferindo ao Rio 9,42 internações a cada 100 mil habitantes e a liderança no Sudeste. O estado só não tem taxa de amputação maior do que Sergipe, Alagoas e Rio Grande do Norte. A média nacional é 7,08 por 100 mil habitantes.

Os dados revelam ainda que no topo da lista de hospitais públicos no Rio que mais realizam amputação de membro inferior em diabéticos está o Hospital Salgado Filho, no Méier. No primeiro semestre deste ano, a unidade notificou 172 internações com amputação e 19 óbitos.

Na última terça-feira, após 18 dias internado na unidade — dois deles no corredor e sete na sala amarela — para tratar uma ferida num dedo do pé, o aposentado Ademir Velloso, de 77 anos e diabético, morreu. Quatro dias antes, havia passado pela terceira amputação.

— Após 11 dias de espera, o pé do meu pai já estava todo necrosado. Estávamos desesperados quando conseguimos que ele fosse operado. Apresentou melhora, mas foi assim que Deus quis — lamentou Marcelo Velloso, que testemunhou durante a internação casos semelhantes ao de seu pai.

Mortalidade é mais alta em 13 hospitais

No primeiro semestre deste ano, a taxa de mortalidade em internações com amputação de membro inferior em paciente diabético foi de 13,64% no estado do Rio. No entanto, em 13 hospitais públicos, esse índice foi mais alto que a média. O pior resultado está no Hospital Federal do Andaraí, que contabilizou apenas 43 internações no período, mas registrou 16 óbitos, resultando numa taxa de mortalidade de 37,21%. Ou seja, a cada dez pacientes, três morreram.

Entre os hospitais com índices piores do que a média estadual, o que mais realizou internações com amputações foi o Hospital municipal Pedro II, em Santa Cruz. Com uma taxa de mortalidade de 14,29%, a unidade registrou 119 internações com amputações e 17 mortes.

Segundo Carlos Eduardo Virgini, chefe do serviço de cirurgia vascular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), um estudo feito em 30 hospitais públicos, em 2012, mostrou que a taxa de amputação fluminense é de 60%. A cada dez pacientes que entram no hospital com uma ferida, seis são amputados.

— Nos hospitais municipais do Rio, essa taxa é ainda maior: 70% — diz Virgini.

O pé diabético envolve três fatores, causados pelo excesso de açúcar no sangue: a perda da sensibilidade, que atinge 25% dos pacientes; doença arterial, que prejudica a circulação sanguínea de 30% deles; e a infecção, que se agrava com a demora no atendimento.

Para Virgini, a alta incidência de complicações do diabetes no Rio se deve a fatores como o encolhimento da cobertura da atenção básica — de 67%, em 2017, para 52,8%, segundo o Ministério da Saúde. No fim do ano passado, a prefeitura reduziu o número de equipes de saúde da família de 1.283 para 967 e, hoje, 139 estão incompletas.

— A atenção primária é a primeira barreira para evitar complicações. Com educação das equipes de saúde e das famílias, conseguiríamos evitar 85% das amputações — lamenta Virgini.

Cuidados simples

O cuidado diário com o pé dos diabéticos é o melhor remédio para reverter o quadro de amputações, afirma o presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Rodrigo Moreira:

— Além de ter bom controle de glicose, colesterol e pressão, é preciso estimular médicos a examinar o pé do diabético e ensinar pacientes a lavar e secar os pés e cortar as unhas.

Foi com esses cuidados que Juciane Gomes, de 37 anos, evitou que a mãe, Iracy Maria Gomes, de 65, passasse por uma segunda amputação. Em março, ela acompanhou a idosa por mais de um mês no Hospital Pedro II e não gosta nem de lembrar do que viu por lá:

— Ela piorou pela demora no atendimento. As pessoas eram largadas na sala amarela, no calor, para morrer.

A Secretaria municipal de Saúde informou que todos os pacientes que buscam assistência para pé diabético são avaliados por cirurgião vascular, mesmo na emergência. “Os pacientes diabéticos que internam pela emergência já estão em fase mais adiantada da doença e, consequentemente, terão outras complicações como enfarte e AVC e, por isso, temos maior mortalidade”, diz a nota.

A Secretaria estadual de Saúde afirmou que, desde janeiro, investiu mais de R$ 400 milhões para fortalecer e ampliar a Estratégia Saúde da Família nos municípios.A direção do Hospital do Andaraí informou que, por ser uma unidade de média e alta complexidade, recebe casos graves, o que reduz possibilidades de tratamento.