“Não comemoraremos nenhuma tragédia”, afirma presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj

“Não comemoraremos nenhuma tragédia”, afirma presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj

Texto / Lucas Veloso | Edição / Pedro Borges

Nesta terça-feira (20), Willian Augusto da Silva fez 39 reféns dentro de um ônibus em mais de três horas e meia na Ponte Rio-Niterói. Por volta das 9h18, o sequestrador foi baleado por um atirador de elite ao descer do veículo em que estava.

Poucos minutos depois, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, chegou de helicóptero no local. Assim que o avião pousou, Witzel saiu correndo enquanto comemorava o fim da ação, terminada com a morte do sequestrador.

Mais tarde, em entrevista coletiva, no Palácio Guanabara, tentou explicar a atitude. "Algumas pessoas estão dizendo que comemorei a morte. Não. Comemorei a vida", declarou.

A deputada estadual e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, Renata Souza, do PSOL, e Roberto Rodrigues, do movimento Policiais Antifacistas, criticam a euforia do governador perante a situação.

Logo depois do desfecho, a deputada emitiu nota oficial em protesto a qualquer tipo de celebração com o caso. “Não comemoraremos nenhuma tragédia. Toda a solidariedade aos reféns e aos familiares de Willian. Ninguém quer ver um filho morto”, escreveu.

“A atitude do governador me deixou impactada. Ele comemorou o que chama com naturalidade de abate. Foi uma atitude descontrolada e desrespeitosa”, analisa a parlamentar. “Sua reação revela uma visão bastante distorcida sobre o tema da segurança pública. A segurança para ele se resume ao confronto. Celebrou a morte de um ser humano como quem comemora um gol”, completa.

Para o policial Rodrigues, a "política do abate" não demonstra saídas para a segurança pública, servindo de palanque eleitoral, através da exploração da violência. “Witzel se elegeu surfando na onda do Bolsonarismo, que aponta como solução para a violência mais violência, lastreada pelo discurso ‘bandido bom é morto’. Mas qual é o "bandido" que morre? Qual sua classe social, onde ele mora, qual sua cor?”, questiona o especialista.

Em entrevistas após o sequestro, Witzel ainda comparou o caso com as cenas de violências registradas nas favelas cariocas. “Eles estão de fuzis nas comunidades, aterrorizando as comunidades. Se a polícia puder fazer o trabalho dela de abater quem estiver de fuzil, tantas outras vítimas serão poupadas”.

Segundo a deputada, é incoerente compara o caso específico com a série de acontecimentos dentro das favelas cariocas.

“Considero inaceitável comparar essa situação extrema e de limite com as ações policiais nas favelas do Rio, por exemplo. Não é razoável a utilização de helicópteros como plataforma de tiros e o alto índice de confrontos nas favelas e periferias do estado”, aponta Renata.

Violência nas favelas

Na semana passada, ao menos, seis jovens morrem em favelas ou nos arredores. As vítimas tinham entre 16 e 21 anos e foram atingidas por balas perdidas ou baleadas diretamente - a maioria enquanto aconteciam operações policiais.

“O que se espera das forças policiais é que ajam com racionalidade e o uso progressivo da força como regra e não como exceção, o que não aconteceu nas últimas semanas, quando ao menos seis jovens foram executados”, emenda a deputada.

Segundo o Observatório da Segurança RJ, de janeiro a junho de 2019, houve 1.148 ações policiais nas ruas, o que provocou o crescimento do número de pessoas mortas pelas mãos do Estado. Na Capital e na Grande Niterói, quase 40% das mortes foram causadas por ação policial.

O levantamento ainda mostra crescimento das operações em 42%, no primeiro semestre deste ano, se comparado com o mesmo período de 2018.

Para Renata, as ações adotadas pelo governo do estado não são efetivas no combate ao crime, mas geram mortes. “As ações do governador na Segurança Pública não têm nenhuma novidade, é um regresso aos anos 90, onde a polícia era premiada pelo número de mortos que produzia. Repetir essa política para solucionar o cenário atual é no mínimo irracional”, defende.

“A polícia não é capaz de promover solução sozinha e isto, tem um resultado bastante prejudicial para as instituições policiais porque recebem carga demasiada de pressão por resultados, e em contrapartida são precarizadas e desvalorizadas. É preciso investir em inteligência policial, integração e valorização humana nas instituições policiais”, aponta Roberto.

‘Bandido bom é bandido morto’

De acordo com os especialistas ouvidos nesta reportagem não há dúvidas de que é fundamental a preservação da pessoa em qualquer circunstância e o ideal é que nenhuma vida seja perdida.

Como diz o Papa Francisco: "É nossa responsabilidade reconhecer a dignidade de cada pessoa e trabalhar para que outras vidas não sejam eliminadas, mas ganhá-las para o bem de toda a sociedade", assinala Renata.

Roberto analisa que um projeto de segurança, minimamente adequado, deve contemplar políticas sociais, educacionais, e culturais. “É importante também a geração de oportunidade de trabalho e renda, que integre a população, sobretudo a mais vulnerável”, observa.