Risco Brasil tem alta de 24% no ano e reforça piora do cenário para investidores

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*ARQUIVO* São Paulo, SP, Brasil, 21-02-2019: Cédulas de real. Papel Moeda. Dinheiro. (foto Gabriel Cabral/Folhapress)
*ARQUIVO* São Paulo, SP, Brasil, 21-02-2019: Cédulas de real. Papel Moeda. Dinheiro. (foto Gabriel Cabral/Folhapress)

SÃO PAULO, SP, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Aprovar grandes investimentos já é uma decisão arriscada para qualquer empresa em cenários tranquilos. Com o Brasil às vésperas de uma eleição, com recordes de desemprego, inflação resistente e turbulência política, esse passo se tornou ainda mais complexo.

Na avaliação de economistas ouvidos pela reportagem, as incertezas políticas e econômicas devem fazer com que os empresários pensem duas vezes antes de investir e acabem engavetando projetos para o ano que vem ou até mesmo para depois do pleito de 2022.

"As incertezas, com a antecipação da eleição, fazem com que os prêmios de risco subam ainda mais e isso afeta toda a área de crédito e os empréstimos para pessoas e empresas", avalia José Roberto Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

A evolução do prêmio do risco medido pelo CDS (Credit Default Swap) do Brasil, por exemplo, é um dado que retrata como a imagem do país vem piorando. O CDS é uma espécie de seguro contra calote, então, ele funciona como um termômetro para medir como investidores avaliam um país. Quando ele sobe, aponta que a percepção de risco está aumentando e vice-versa.

O CDS do Brasil, com prazo de cinco anos, oscilava ao redor de 207,5 pontos na segunda-feira (11), uma alta de aproximadamente 24% no acumulado de 2021, e de cerca de 13% ante a média histórica de 183,4 pontos, segundo dados da Bloomberg.

"Esse cenário também traz mais volatilidade e impacta na redução de projetos para investimento. O número de empresas que deixam para depois de 2022 decisões mais significativas quanto a investimentos e aquisições não para de crescer", acrescenta.

Para o economista, as empresas estão "na defensiva" e adiam investimentos, ao considerarem que a crise política e os discursos do presidente contaminaram a economia.

Representantes do setor empresarial falam que o momento demanda prudência. “Nós vivemos hoje um cenário de instabilidade, que faz com que a gente aja com mais cautela”, diz Daniella Guanabara, diretora de estratégia e relações com investidores da Aliansce Sonae. A empresa administra 39 shopping centers, entre eles Shopping West Plaza (SP), Boulevard Shopping Brasília (DF) e Shopping Leblon (RJ).

Felizmente, diz a executiva, a Aliansce tem “pouca dívida e uma posição de caixa forte”, o que a permite enfrentar períodos mais turbulentos na política e na economia. “Mas decisões sobre investimentos maiores, como a construção de um shopping novo, por exemplo, ficaram para depois do Natal”, diz.

“A confiança do consumidor é muito importante para o nosso negócio, assim como a geração de empregos. Quando entramos em um cenário de instabilidade como o atual, é preciso cautela para direcionar os investimentos”, afirma Daniella.

A crise política alimentada pelo presidente Bolsonaro escalou rapidamente até o último dia 7 de setembro, quando ele discursou em duas manifestações com ataques aos demais Poderes e a ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).

Em seguida, o presidente fez um giro em seu discurso, em uma carta aberta em que atribuiu os ataques ao "calor do momento".

Apesar de uma melhora temporária no cenário político, a confiança na carta escrita pelo presidente é baixa e, em seu discurso na ONU (Organização das Nações Unidas), ele voltou a atribuir aos governadores e prefeitos a responsabilidade pelos indicadores negativos durante a pandemia.

Em contrapartida, a pesquisa Datafolha, feita nos últimos dias 13 e 15 de setembro, apontou que a maior parte dos brasileiros atribui alguma responsabilidade do governo Bolsonaro às altas da inflação e do desemprego.

"A gente caminha para ver no fim deste ano e no começo do ano que vem uma pequena recessão. A confluência de crises e situação econômica difícil vai trazer uma piora nas perspectivas econômicas", diz Mendonça de Barros.

Um dado do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas) também ajuda a retratar esse cenário: do lado das empresas, houve uma redução da confiança em todos os setores, com uma piora da percepção da situação atual e uma revisão das expectativas. Comércio e serviços, que tinham visto uma recuperação influenciada pelo avanço da vacinação, sentem o efeito do aumento de cautela.

Do lado dos consumidores, também houve queda nas expectativas, de 11,5 pontos em setembro.

"A piora do quadro econômico, com crises políticas e institucionais, desencadeou uma nova onda de incerteza na primeira quinzena de setembro", diz o boletim do Ibre.

Os índices diários de incerteza econômica e política aumentaram mais de 15 pontos em um mês e voltaram ao mesmo patamar de abril —durante um dos piores momentos da segunda onda da pandemia.

O Ibre também aponta que, entre julho de 2020 até o mesmo mês deste ano, os investimentos estrangeiros caíram de US$ 67,2 bilhões para US$ 23,8 bilhões.

"Já fica claro que as perspectivas de crescimento para o ano que vem estão caindo e uma das razões para isso, sem dúvida, é a incerteza política, aliada ao setor externo e à crise energética", avalia a economista da USP Laura Carvalho.

"O ritmo de vacinação é a notícia boa, que pode fazer com que setores que estavam parados voltem no ano que vem."

Nas últimas semanas, consultorias e bancos revisaram suas previsões de crescimento para o PIB (Produto Interno Bruto) do ano que vem para abaixo de 1%. A perspectiva é de menos crescimento, com juros mais altos e uma inflação mais resistente do que o antecipado.

Além disso, os dados do PIB do segundo trimestre, publicados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), já apontavam uma queda de 3,6% na formação bruta de capital fixo (o investimento em ativos que podem ajudar a aumentar a capacidade produtiva).

Segundo um ranking da ONU, a economia brasileira estava em sexto lugar na atração de investimentos em 2019; no fim de 2020, havia caído para o 11° lugar.

Na última sexta-feira (24), o Banco Central também apontou que os investimentos diretos de estrangeiros no Brasil somaram US$ 4,5 bilhões em agosto, queda de 26% em relação ao mês anterior. Esse volume ficou abaixo da estimativa, que era de US$ 5,8 bilhões.

Na opinião de um alto executivo de uma rede varejista, em um país como o Brasil, o empresário é obrigado a “correr em outra pista”. Porque se for correr na mesma pista da política, não investe nada, diz ele. Especialmente em um momento como o atual, em que a eleição para presidente foi “antecipada em um ano”. ​

Outro empresário, desta vez do setor imobiliário, disse sob condição de anonimato que só deve tirar projetos de maior porte da gaveta quando o cenário eleitoral estiver mais claro, no ano que vem.

A preocupação é grande, mesmo para os setores que souberam se adaptar bem à pandemia, diz José Ricardo Roriz, presidente da Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico).

"O que faz o empresário investir é a perspectiva de aumento de demanda e temos várias condicionantes fora de controle: nada indica uma queda rápida de inflação, a taxa de juros subindo e penalizando quem quer investir e o consumidor que compra parcelado; e uma crise política que virou uma gangorra e leva retrocessos na decisão de investir."

Se de um lado, se vê mais de 14 milhões sem emprego e um cenário eleitoral se aproximando, em que não se sabe qual será o rumo da política econômica nos próximos anos, o empresário acaba sendo levado a pisar no freio, diz Roriz.

"As reformas, que seriam uma mola propulsora para investimentos, em que se definiria uma condição melhor para o sistema tributário, também andam com dificuldade. Com tudo isso, é difícil ter segurança."

O presidente da Cbic (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), José Carlos Martins concorda que o cenário de incertezas pode levar a um adiamento dos investimentos.

Já o presidente da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), José Velloso, prevê crescimento este ano, com a reposição de maquinários na indústria que estavam sendo adiadas nos anos anteriores à pandemia. O cenário poderia ser ainda melhor, pondera, com menos incertezas.

A instabilidade política é o maior mal que o Brasil vive hoje. Essa falta de harmonia entre o governo federal, estadual e municipal, e entre os poderes Judiciário, Legislativo e Executivo, é o grande mal hoje no Brasil. Lamento que as coisas não sejam equilibradas, avalia Sergio Zimmerman, presidente da rede Petz, voltada ao mercado de produtos e serviços para animais de estimação.

"A instabilidade política traz consequências econômicas, e a base da economia está relacionada ao nível de confiança do consumidor. Isso vai comprimindo a economia, deixando o crescimento do PIB nanico, aquém do nível de crescimento que o país merece", diz ele, que ainda não decidiu suspender investimentos, apesar do cenário conturbado.

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