Risco-Brasil tem maior alta desde divulgação de áudios de Joesley e Temer

João Sorima Neto*

NOVA YORK E SÃO PAULO - Com a escalada do dólar e a queda da Bolsa brasileira, o chamado risco-país, medido pelo credit default swap (CDS), saltou 14,4% nesta quinta-feira, para 129 pontos centesimais, segundo dados da Bloomberg. Foi a maior alta desde a divulgação dos áudios entre Joesley Batista e o então presidente Michel Temer, em maio de 2017, quando subiu 29%.

O papel é um termômetro da confiança dos investidores no Brasil.

Para analistas, isso se deve ao pânico nos mercados de todo o mundo por causa do coronavírus, que faz com que os investidores fujam de ativos de risco, como os papéis de países emergentes. O rendimento do título do Tesouro dos EUA de 10 anos caiu para 0,899% na quinta-feira, abaixo da faixa histórica de 0,906% atingida no início da semana.

O rendimento é inversamente proporcional à demanda pelo papel, considerado o mais seguro do mundo.

Além disso, o dólar comercial está em trajetória de valorização. No ano, já acumula alta de 15,9%. Segundo Ermínio Lucci, presidente da corretora BCG Liquidez no Brasil, subsidiária da americana BGC Partners, um dos fatores que vem pressionando o câmbio é a perspectiva de um novo corte de juros pelo Banco Central (BC), o que tira a atratividade do real.

A Taxa Selic está hoje em 4,25% ao ano, sua mínima histórica. Outro ponto foi a decepção com o crescimento do PIB em 2019, de apenas 1,1%. Além disso, há os ruídos políticos entre o governo e o Congresso.

- Há muitos investidores comprando títulos do Tesouro americano e para isso precisam comprar dólares, o que faz a moeda subir no exterior. Além disso, com a epidemia do coronavírus, países exportadores de commodities, como o Brasil, terão o déficit em conta corrente e balança comercial afetados - explica.

O câmbio volátil atrapalha as projeções das empresas tanto de investimento quanto de receita com exportações. Lucci ainda não vê efeitos inflacionários advindos da alta do dólar.

- O crescimento da economia é anêmico, não vejo impacto do dólar na inflação, que é o principal efeito colateral da alta da moeda americana. Mas as importações ficam mais caras, de produtos ou matérias-primas. Mas como não há demanda, fica mais difícil passar essa alta aos preços - diz Lucci.

*Com Bloomberg News