Risco de apagão? Crise hídrica e fantasma do racionamento assustam governo Bolsonaro

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Embora o governo do presidente Jair Bolsonaro minimize a crise de energia, especialistas alertam para o risco iminente de interrupção no fornecimento de energia elétrica no Brasil.

Um dos principais motivos é crise hídrica, ou seja, a falta de água nos reservatórios para gerar energia elétrica. Mas outros fatores contribuem para a crise energética, como falta de gerenciamento do sistema.

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De acordo com o governo federal, a escassez de águas nos reservatórios hoje, principalmente no Sudeste e no Centro-Oeste, é a maior dos últimos 91 anos.

Nessa região, o subsistema opera atualmente com cerca de 20% de sua capacidade total - sendo que ele concentra 70% da capacidade de armazenamento do sistema elétrico brasileiro.

A usina hidrelétrica de Ilha Solteira, maior do Sudeste em potência instalada, chegou neste mês à beira do colapso.

Após duas semanas de quedas vertiginosas, o reservatório da usina, localizada na divisa entre São Paulo e Mato Grosso do Sul, atingiu 1,45%, ameaçando zerar o volume útil ainda esta semana, comprometendo a geração de energia elétrica.

O Operador Nacional do Sistema (ONS) já alertou que, sem chuvas no Sudeste/ Centro-Oeste, a importação de energia de outras regiões será insuficiente para manter a luz acesa na casa dos brasileiros e nas indústrias em outubro e, principalmente, em novembro.

Usina hidrelétrica de Ilha Solteira, maior hidrelétrica do Sudeste
Usina hidrelétrica de Ilha Solteira, maior hidrelétrica do Sudeste

Aposta em São Pedro

Segundo Maurício Tolmasquim, professor de planejamento energético da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), existe um risco real de interrupções no fornecimento de energia elétrica ainda em 2021.

“Existe risco de interrupções no fornecimento, no horário de ponta, das 18h às 21h, sendo que no verão, 15h já é um horário de pico, porque aumentou muito o uso do ar condicionado. Então, se tem um horário de ponta a partir das 15h, no verão, que se estende até a noite. Então em outubro, novembro, existe um grande risco de interrupções nesse período”.

Na avaliação de Tolmasquim, que é ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética e já foi ministro interino e secretário executivo (2003 a 2005) de Minas e Energia, a crise hídrica é um dos fatores para a crise energética, mas a falta de planejamento foi preponderante para o agravamento da situação.

“Você tem uma crise hídrica que vem desde 2014, uma hidrologia muito ruim. Mas houve, a meu ver, uma gestão muito ruim do sistema nos últimos meses”, destaca.

Mauricio Tolmasquim é professor do programa de planejamento energético da COPPE, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ex-ministro e ex-secretário-executivo de Minas e Energia
Mauricio Tolmasquim é professor do programa de planejamento energético da UFRJ, ex-ministro e ex-secretário-executivo de Minas e Energia

“Em novembro, se diminuiu a geração termelétrica quando já se sabia que a situação era muito ruim nos reservatórios. E esse valor só foi aumentado em maio. Isso fez reduzir o volume de água nos reservatórios”.

“Outra ação que se deixou de fazer foi reduzir o consumo”, afirmou o professor.

Só em agosto, o governo lançou um programa para incentivar grandes consumidores de energia a reduzir ou deslocar seu consumo de energia para fora dos horários de pico. E mesmo assim, a adesão foi baixa até o momento.

“Se apostou muito em São Pedro esperando que a água viesse. E não veio. Com isso, se esvaziou muito os reservatórios”, avalia.

Horário de verão

Em 2019, o presidente Jair Bolsonaro assinou um decreto que acabou com o horário de verão no Brasil. Ele levou em consideração uma pesquisa do Ministério de Minas e Energia dizendo que 53% dos entrevistados se declararam insatisfeitos com a ideia de adiantar o relógio em uma hora.

Presidente Jair Bolsonaro em discurso no Palácio do Planalto
Presidente Jair Bolsonaro bate recorde de rejeição: 53% (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)

O fato é que o último horário de verão (2018-2019) resultou em uma economia média de 2,7%.

Para Maurício Tolmasquim, o governo deveria pensar no retorno do horário de verão.

“Economiza energia sim. Pouco, pode ser. Mas dado o alto custo que está se gerar energia, visto que estão atuando termelétricas algumas caríssimas, qualquer Megawatt-hora é importante. E ajuda a passar uma mensagem para a população de que é importante economizar”, diz.

No entanto, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, já declarou que "não há necessidade do retorno do horário de verão em 2021".

Impactos na eleição

Um ano antes da eleição, a interrupção no fornecimento pode prejudicar a reeleição do presidente da República. Por isso, a palavra "apagão" é proibida de ser pronunciada dentro do governo Bolsonaro.

De fato, o assunto é delicado. O presidente Jair Bolsonaro segue com sua reprovação em tendência de alta, chegando a 53%, pior índice de seu mandato, segundo Datafolha desta semana.

Além da queda da popularidade presidencial, pois afeta diretamente a vida de milhões de brasileiros, o racionamento atrapalha a retomada da economia. O que, de certa forma, prejudica também a avaliação do governo.

Mulher bate em uma panela em janela de apartamento no Rio de Janeiro
Com crise na economia e pandemia, o governo de Jair Bolsonaro enfrentou 'panelaços' como protesto (Photo by Bruna Prado/Getty Images)

Ao mesmo tempo, a conta de luz mais cara impacta no preço de diversos produtos e serviços, pressionando a inflação, que já chega a dois dígitos.

“Houve um trauma muito grande com 2001. Um dos fatores que fez com que o governo perdesse a eleição foi o racionamento. Então racionamento virou uma palavra maldita. Mas se esquece que a inflação causada pela crise energética e hídrica também tem um impacto, e talvez até maior”, diz Tolmasquim.

Apagão em 2001

Em 2001, o presidente Fernando Henrique Cardoso enfrentou o mesmo problema com a falta de chuvas.

Por isso, o governo federal recorreu a blecautes programados para evitar o colapso do sistema elétrico brasileiro. Famílias e empresas tomaram uma série de ações, como trocar lâmpadas e equipamentos, para reduzir o consumo de energia. As ruas ficaram parcialmente sem iluminação pública e houve proibição de eventos noturnos, como shows e partidas de futebol.

Macapá em total escuridão durante a madrugada. (Foto: Rede Amazônica - Afiliada TV Globo/Reprodução)
Macapá em total escuridão durante a madrugada. (Foto: Rede Amazônica - Afiliada TV Globo/Reprodução)

O racionamento de energia afetou a maior parte do país, com a redução compulsória de 20% do consumo de eletricidade.

O racionamento durou até o início de 2002 e é apontado como um importante fator para explicar a derrota do PSDB na eleição presidencial de 2002. Na época, a estiagem prolongada também reduziu níveis dos principais reservatórios de água do país.

O que mudou de lá para cá?

Victor Costa, presidente da Asef (Associação de Empregados de Furnas), lembra que, desde 2016, ainda no governo de Michel Temer, a Eletrobras parou de investir na geração e transmissão de energia elétrica, principalmente na geração, o que pode resultar em um novo racionamento de energia.

Desestatizada neste ano, pelo governo Bolsonaro, a Eletrobras é responsável por um terço de toda a geração de energia do país, e composta por dez subsidiárias que operam, no total, 123 usinas de geração de energia, sendo 48 hidrelétricas.

Costa explica que a Eletrobras foi o grande investidor de novos projetos no setor, como as usinas de Belo Monte, Santo Antônio, Teles Pires e Jirau.

“Em 1996, a Eletrobras entrou em processo de desestatização, e os investimentos foram paralisados. A consequência foi o apagão em 2000. O que vemos agora é a história que se repete”, aponta.

Por outro lado, Maurício Tolmasquim, ex-ministro interino de Minas e Energia, não acredita que a crise energética seja resultado da falta de investimento nos últimos anos. “Isso vai causar problema no futuro”.

Ele destaca que, em comparação com 2001, o sistema elétrico brasileiro melhorou muito.

Vista da usina de Belo Monte
Usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará (Photo MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images)

“Um dos problemas em 2001 era que a capacidade instalada do setor não cresceu de acordo com o consumo. De lá para cá, houve crescimento de 133% da capacidade, enquanto que o consumo cresceu 77%".

Além disso, a participação das hidrelétricas é menor hoje do que era há duas décadas, com aumento da participação de fontes limpas e renováveis, como eólica, solar e biomassa - mas também com o aumento do uso de usinas termelétricas com combustíveis fósseis, mais caras e poluentes.

“Houve expansão e diversificação nas fontes de energia. A dependência das hidrelétricas passou de 83% do total da energia gerada, para 62%. Sem contar com outras matrizes energéticas, como biomassa, termelétricas e eólica”.

De 2001 para cá, o Brasil também melhorou a rede de transmissão de energia, o que permite levar energia de uma região para outra.

“Em terceiro lugar, Brasil ampliou rede de transmissão. Em 2001, não teve apagão no Sul. Mas mesmo sobrando energia lá, não tinha linhas de transmissão para mandar para outras regiões”, explica o especialista.

“Mas, apesar de estruturalmente o sistema estar mais robusto, houve problema na gestão nos últimos meses”, critica.

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