Risco de morrer de covid é maior entre negros, mesmo no topo da pirâmide social

·4 minuto de leitura
RIO DE JANEIRO, BRAZIL â SEPTEMBER 7: People stage a protest against the government of President Jair Bolsonaro, in the city center during the Independence Day of Brazil, on September 07, 2021 in Rio de Janeiro, Brazil. Demonstrators ask for the president's impeachment, because of the lack of vaccine, the high prices of food, gas of kitchen, and deaths due to the new type of coronavirus (Covid-19). (Photo by Fabio Teixeira/Anadolu Agency via Getty Images)
Mulheres negras protestam contra a gestão da pandemia do governo Bolsonaro no Rio de Janeiro. Foto: Fabio Teixeira/Anadolu Agency via Getty Images.
  • Estudo concluiu que desigualdades de raça e gênero influenciam no risco de morte

  • Mulheres negras estão entre as maiores vítimas

  • Mulheres brancas na base da pirâmide morrem mais que homens brancos

Um estudo que analisou o perfil de milhares de vítimas da covid-19 em 2020 revelou que o risco de morte pela doença é significativamente maior entre homens negros e mulheres, sejam elas negras ou brancas, do que para homens brancos.

Parte da Rede de Pesquisa Solidária, os pesquisadores de diversas instituições públicas e privadas concluíram que as desigualdades de raça e gênero influenciam no risco de morte, mesmo entre pessoas que exercem as mesmas atividades profissionais e entre aqueles do topo da pirâmide social.

"Pensávamos que a mortalidade dos negros era maior porque trabalhavam em atividades mais expostas ao vírus, mas nem sempre isso é verdade", afirma ao jornal Folha de S. Paulo o sociólogo Ian Prates , pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e coordenador do grupo responsável pelo estudo.

Foram usados os dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, sobre 67,5 mil pessoas que morreram de covid-19 em 2020. Este número equivale a um terço de todas as mortes causadas pelo coronavírus notificadas no período. O estudo considerou pessoas entre 18 e 65 anos de idade e com ocupação profissional registrada no sistema do Ministério da Saúde.

Leia também:

Houve mais mortes pela doença, em números absolutos, entre grupos ocupacionais que são grandes empregadores, como comércio e serviços (6.420), agricultura (3.384) e transportes (3.367). No entanto, a pesquisa revela que alguns setores foram muito mais afetados em termos relativos.

De todas as mortes de profissionais da saúde registradas no ano passado, 24% foram por covid-19. No setor de segurança, que inclui praças das Forças Armadas, policiais militares e bombeiros, foram 25%. Já entre líderes religiosos, a taxa chegou a 44%.

Entre os homens negros, os riscos são maiores que para brancos em todas as atividades, exceto na agricultura. Entre advogados, por exemplo, o risco para homens negros é 43% maior. Já entre engenheiros e arquitetos, é 44% maior.

"O fato de o risco ser maior até para os que exercem profissões de nível superior como essas mostra o tamanho da nossa tragédia", declara Prates. "Isso sugere que mesmo negros que ascenderam profissionalmente continuam expostos a fatores de risco que aprofundam desigualdades."

Os autores do estudo levantaram hipóteses para explicar essa disparidade. Uma explicação seria que negros têm uma inserção mais precária no mercado de trabalho, estão em empresas de menor porte ou não possuem vínculo empregatício formal, o que os tornou mais vulneráveis à pandemia.

Entre mulheres negras, especialmente aquelas na base da pirâmide social, os riscos de morte por covid-19 também são muito maiores. Entre aquelas que atuam em serviços domésticos, é 112% maior do que os riscos enfrentados por brancos, segundo a pesquisa.

Em relação a ocupações de nível superior, o grupo não encontrou grandes diferenças, o que se dá pela baixa representatividade de mulheres negras nessas ocupações. A exceção foi na enfermagem, onde o risco das mulheres negras é 23% menor do que para homens brancos.

Entre as mulheres brancas, o estudo revelou que o risco de falecer por covid-19 é menor do que para homens brancos nos grupos ocupacionais de nível superior e maior em atividades que exigem menor instrução. De forma geral, o risco para mulheres brancas é menor do que para mulheres negras.

Dentro do serviço doméstico, por exemplo, mulheres brancas têm risco de morte 73% maior do que homens brancos, segundo o estudo. A situação é invertida no topo da pirâmide social: o risco é 39% menor para advogadas e 22% menor para mulheres em posições gerenciais e cargos de direção.

Os pesquisadores avaliam que o maior risco para homens no topo da pirâmide em relação às mulheres se dá porque elas mantêm em dia os cuidados preventivos com a saúde, enquanto homens postergam visitas ao médico.

Na base da pirâmide, a falta de acesso à serviços de saúde e a sobrecarga de trabalho, somada aos cuidados de crianças e idosos, tornou as mulheres mais vulneráveis ao vírus.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos