Risco de demência aumenta até 24% para pessoas com sofrimento psicológico

Pessoas com sofrimento psicológico – caracterizado por relatos de estresse excessivo, humor depressivo, exaustão ou nervosismo crônicos – têm um risco aumentado para o desenvolvimento de demências, que pode chegar a ser 24% superior. A conclusão é do mais amplo estudo conduzido sobre o tema, por cientistas da Universidade de Helsinque, na Finlândia, publicado na revista científica JAMA Network Open.

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“À medida que a população envelhece, os distúrbios de memória estão se tornando mais comuns. Naturalmente, isso torna importante a compreensão de seus fatores de risco. Do ponto de vista da psiquiatria, é particularmente interessante que, por meio de modelagem cuidadosa, tenhamos estabelecido uma conexão entre os sintomas associados ao sofrimento mental e a uma doença cerebral orgânica”, avalia a professora de psiquiatria da universidade e autora do estudo, Tiina Paunio, em comunicado.

A depressão e outras queixas associadas à saúde mental já eram consideradas fatores de risco para o declínio cognitivo, mas os pesquisadores explicam que os trabalhos envolviam um número de participantes pequeno ou acompanhados por curtos períodos de tempo.

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Agora, os cientistas avaliaram cerca de 68 mil finlandeses que participaram de um longo estudo nacional de saúde chamado FINRISK, que monitora fatores de risco relacionados a diversas doenças crônicas não transmissíveis no país. Os participantes selecionados foram incluídos na pesquisa entre 1972 e 2007, e acompanhados por períodos que variaram de 10 a 45 anos – em média, durante 25. As idades variaram de 25 a 75 anos.

De cinco em cinco anos, o estudo FINRISK realizava levantamentos com os participantes que, entre as perguntas, questionavam sobre sentimento dos sintomas negativos de saúde mental e a frequência com que sentiam as angústias.

Os pesquisadores do novo estudo coletaram essas informações para, em seguida, analisar os dados do Registro de Saúde Finlandês e identificar quais dos participantes do FINRISK receberam um diagnóstico de demência até o fim de 2017. Foram identificados 7.935 casos entre os 68 mil e, a partir deles, foi possível estimar o quanto a prevalência das queixas de sofrimento psicológico foram associadas a uma variação no risco do problema.

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A ligação foi significativa para todos os quatro sintomas avaliados, afirmam os cientistas. No geral, a angústia psicológica foi associada a um risco 20% maior para o quadro de demência. De forma específica, variou de 17%, associado à exaustão, até 24%, ao estresse excessivo.

Em relação à depressão, um outro estudo, de 2016, publicado no periódico The Lancet Psychiatry por pesquisadores holandeses, sugere que o risco pode ainda aumentar gradualmente a depender da gravidade da doença. Isso quer dizer que, quanto pior o quadro depressivo se tornar, maiores são as chances do desenvolvimento de uma demência.

Ao portal Medscape Medical News, a também autora do novo estudo finlandês, e pesquisadora do Instituto Nacional de Saúde e Bem-Estar da Universidade de Helsinque, Sonja Sulkava, afirmou que uma possível explicação é que o sofrimento constante aumenta os níveis de hormônios do estresse e promovam um quadro prolongado de inflamação no corpo que atinge o cérebro.

— Estudos em animais mostraram claramente que o estresse crônico aumenta a neuropatologia dos distúrbios de memória — disse.

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Ela cita ainda que a angústia pode estar ligada a piores quadros de insônia, o que também aumentaria o risco de problemas neurocognitivos. Isso porque durante o sono ocorre um processo de limpeza de toxinas, metabólitos e resíduos no cérebro, o chamada sistema glinfático. Uma dessas substâncias que podem ser acumuladas pela falta de descanso adequado é a proteína beta-amiloide, considerada uma das causas da doença de Alzheimer, principal forma de demência.

— O sofrimento psicológico também pode levar a outros comportamentos de estilo de vida pouco saudáveis ​​ou evitar a triagem médica, o que aumentaria o risco de demência — acrescentou.