Risco de derrota eleitoral ameaça ascensão política de Lira

*** FOTO DE ARQUIVO *** BRASÍLIA, DF, 02.02.2022 - Sessão Solene de Abertura dos Trabalhos Legislativos do Congresso Nacional. Os presidentes do senado e da camara, senador Rodrigo Pacheco e deputado Arthur Lira (foto), o presidente do STF ministro Luiz Fux e o presidente da república Jair Bolsonaro participam. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*** FOTO DE ARQUIVO *** BRASÍLIA, DF, 02.02.2022 - Sessão Solene de Abertura dos Trabalhos Legislativos do Congresso Nacional. Os presidentes do senado e da camara, senador Rodrigo Pacheco e deputado Arthur Lira (foto), o presidente do STF ministro Luiz Fux e o presidente da república Jair Bolsonaro participam. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Com governador afastado e reconduzido e guerra de narrativas, a eleição em Alagoas se tornou um espelho fiel da disputa de poder local entre o senador Renan Calheiros (MDB) e o deputado Arthur Lira (PP), presidente da Câmara e que corre o risco de sofrer um duplo revés neste domingo (30).

Desde meados do governo de Jair Bolsonaro (PL), Lira e Renan têm trilhado caminhos opostos.

O deputado se aliou ao presidente e conquistou o comando da Câmara usando como munição cargos e emendas orçamentárias executadas pelo Planalto.

O senador foi o relator e um dos protagonistas da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid, para investigar "ações e omissões" do governo federal durante a pandemia de coronavírus.

Na Câmara, Lira retribuiu o apoio de Bolsonaro e articulou uma série de projetos com fins eleitoreiros para baixar a inflação de combustíveis e ampliar o valor do Auxílio Brasil para R$ 600 a partir de agosto, dois meses antes das eleições.

O objetivo por trás das medidas era facilitar uma reeleição do presidente e, por tabela, sua própria recondução à frente da Câmara na eleição de fevereiro de 2023.

Renan, por sua vez, se tornou um dos principais opositores de Bolsonaro no Senado e ajudou o presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), a segurar muitos dos projetos da pauta bolsonarista que foram votados de forma açodada pela Câmara —como o Código Eleitoral de cerca de 900 artigos, a proposta que regulamenta a educação domiciliar e a que flexibiliza o licenciamento ambiental.

Nas eleições de 2022, a rivalidade se acirrou. Lira fez campanha para Bolsonaro e chegou a vestir camisa do presidente na convenção do PL que formalizou a candidatura à reeleição do atual mandatário.

Renan defendeu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mesmo quando seu partido, o MDB, tinha nome próprio na disputa —o da senadora Simone Tebet (MS), que oficializou apoio ao petista no segundo turno.

Lira foi reeleito como o deputado federal mais votado do estado, mas perdeu a disputa com Renan na campanha ao Senado. Seu candidato não conseguiu se eleger, sendo derrotado pelo filho do senador, o ex-governador Renan Filho (MDB).

O deputado vai para seu quarto mandato na Câmara federal. Antes, teve três mandatos na Assembleia de Alagoas e dois na Câmara municipal de Maceió, em uma carreira política iniciada em 1993 quando ainda estava no PFL (que se tornou DEM e hoje é o União Brasil).

O pai de Lira, Benedito de Lira, teve uma trajetória semelhante. Foi vereador três vezes, prefeito, deputado estadual por três mandatos e senador. Hoje é prefeito de Barra de São Miguel.

Nacionalmente, Lira irá se enfraquecer caso a reeleição de Bolsonaro seja frustrada. Um novo mandato do presidente praticamente asseguraria a recondução do deputado ao comando da Câmara, ancorado na distribuição de emendas de relator a aliados da base do governo.

Uma vitória de Lula tende a reforçar a pressão para o fim das chamadas emendas de relator, atualmente a principal ferramenta que o presidente da Câmara usa para manter apoio ao seu nome.

Há, inclusive, a expectativa de que o STF (Supremo Tribunal Federal) declare inconstitucionais os recursos distribuídos com base no toma lá dá cá. Ou seja, há o risco de que Lira possa se ver sem apoio do novo governo eleito —ele e Lula tiveram embates durante a disputa eleitoral.

Além disso, o deputado corre o risco de ser derrotado em Alagoas, o que torna crítica sua tentativa de se reeleger para o comando da Câmara.

No estado, o candidato de Lira ao governo, Rodrigo Cunha (União Brasil), adotou a neutralidade na disputa presidencial no primeiro e no segundo turno. Paulo Dantas (MDB), nome de Renan, colou a imagem à de Lula desde o início —na reta final, aliados de Dantas reclamaram da distribuição de santinhos associando o candidato da União Brasil ao petista.

Pesquisa Ipec divulgada nesta sexta-feira (28) mostrou o atual governador com 52% das intenções de voto e Cunha, com 48%, em um cenário de acirramento da disputa na reta final (o candidato de Lira crescendo e o de Renan, caindo.

Cunha e Dantas defendem suas posições em relação à disputa nacional. O aliado de Lira argumenta que a neutralidade no segundo turno busca evidenciar que ele pode dialogar com quem quer que seja eleito.

"Um estado como o nosso não se pode dar ao luxo de embarcar numa polarização eleitoral que lá na frente feche portas para o nosso povo."

Apesar de apoiador de Lula, Dantas também diz que governaria com Bolsonaro. "Iria trabalhar como sempre trabalhamos aqui em Alagoas. Dialogando com o governo federal, mas sem esperar muito de onde quase nada veio", disse.

O segundo turno no estado foi marcado por reviravoltas. No dia 11, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) afastou Dantas do cargo de governador.

A determinação judicial atendeu a um pedido da Polícia Federal e diz respeito à época em que Dantas era deputado estadual e ao período em que já ocupava o cargo de governador. Entre as suspeitas está a de uso de funcionários fantasmas em seu gabinete. Duas semanas depois, no dia 25, a corte autorizou o retorno de Dantas.

A operação gerou acusações de aliados de Dantas de interferência na Polícia Federal e de uso político do episódio por Lira e pela campanha de Cunha.

Em postagem no dia 13 em uma rede social, Lira citou "denúncias gravíssimas de desvio de dinheiro público, uso do aparato policial do estado para impedir as investigações, e até ameaça de morte."

"O povo de Alagoas não merece e não quer esse candidato de Renan Calheiros no poder. Espero que Renan e Paulo Dantas parem com essa farsa de interferência na PF. As provas de corrupção são graves e contundentes."

Questionado pela reportagem, Cunha nega ter feito uso eleitoreiro da operação. "Que uso político? Ele deve explicações ao povo alagoano, à Polícia Federal e à justiça. Ele quer tapar o sol com a peneira, mas não adianta."

Dantas, por sua vez, reitera as acusações de fins eleitoreiros da ação. "Foi feita sob medida, com deturpação dos fatos para atingir o líder absoluto nas pesquisas", disse. "Sem dúvida, a maior farsa já criada na história política de Alagoas."

Os dois candidatos defendem seus padrinhos políticos, cujos nomes foram envolvidos em escândalos ao longo de suas trajetórias políticas.

Cunha não quis comentar em que a situação de Dantas difere da de Lira, condenado por pagar empréstimos pessoais com recursos de verba de gabinete e utilizar cheques emitidos da conta da Assembleia para garantir financiamentos também pessoais. "Não me cabe avaliar decisões ou processos que correm na Justiça."

Já o atual governador de Alagoas defende Renan Calheiros, investigado em inquérito da Operação Lava Jato por suposto recebimento ilícito de dinheiro da Odebrecht. "Nada foi provado contra o senador Renan Calheiros. Ele foi inocentado de todas as acusações que recebeu."

Procurados, Lira e Renan não se manifestaram.