Risco e esperança: como a Série B ajuda a definir futuros de clubes no futebol brasileiro

·5 minuto de leitura

Distância, campos pouco usuais, logísticas apertadas e defesas fechadas. Gigantes do futebol brasileiro, Botafogo, Coritiba, Cruzeiro e Vasco sabem muito bem o que enfrentarão no Campeonato Brasileiro da Série B, que começa nesta sexta-feira, às 16h, com Brasil x Londrina, no Rio Grande do Sul, e outras três partidas, incluindo a estreia alvinegra diante do Vila Nova, em Goiânia. Mais do que a realidade de uma temporada — ou duas, três... — longe da elite competitiva, a competição é um divisor de águas financeiro entre as 20 equipes que participam. Um acesso pode significar um novo patamar para o clube, enquanto um rebaixamento pode até mesmo inviabilizar o futuro de uma agremiação.

Nas últimas dez edições da Série B, subir à elite tem se tornado uma tarefa mais difícil. Os 61 pontos obtidos pelo Cuiabá, quarto colocado na temporada passada, aproximam-se da média de “corte” pelo acesso no período, de 63 pontos.

Se subir à Série A pode significar um poder de investimento inédito e até uma escalada de projeção esportiva aos clubes, uma queda é capaz de sentenciar seu destino mais próximo.

Disputar a Série C é uma tarefa brutal para uma equipe de alta competitividade no futebol brasileiro. Das principais mudanças, pesa a financeira: os pagamentos de direitos de transmissão são reduzidos a um auxílio logístico para cobertura de despesas como viagens, alimentação e hospedagens. Em campo, uma competição em um formato diferente, mais curto e apertado (dois grupos de 10 times), dificulta um possível retorno imediato.

— É uma logística muito difícil. Muitas vezes, o clube tem que arcar com despesas, se não, você tem que viajar dois dias antes — exemplifica o executivo de futebol do Botafogo-SP, Paulo Pelaipe.

Estruturado, o clube-empresa não sentiu tanto o baque da queda na última temporada, e contratou reforços como o zagueiro Diego Guerra, da Portuguesa-RJ, e o atacante Walter para retornar o mais breve possível.

Vila quer se manter

Das 36 equipes que caíram à Terceirona desde 2011, apenas 10 (27%) conseguiram retornar de lá na temporada seguinte. No segundo ano de tentativas, outras quatro (11%). O Vila Nova é um exemplo de sucesso nessa tarefa: atuais campeões da Série C, os goianos, primeiros adversários do Botafogo, conseguiram o acesso por duas vezes na primeira temporada (2015 e 2020, ambas com o título) e uma vez na segunda (2013).

— O Vila é um time de operários, de muita garra, é o que o nosso torcedor espera dos atletas. Sempre procuramos fazer elencos nesse perfil de entrega, que é o DNA do clube. A Série C é um campeonato muito equilibrado, mas essa característica geralmente se sobressai — diz o vice-presidente administrativo do Vila Nova, Leandro Bittar.

O dirigente atribui os resultados esportivos, também, à participação da torcida nas iniciativas do clube, e garante que o objetivo inicial da equipe é a manutenção antes de pensar mais alto na temporada.

Mas para exemplos como o dos goianos, há os clubes que sofrem para retornar à Série B. O tradicional Paysandu, por exemplo, permanece na Série C desde que caiu, em 2018. O mesmo acontece com o Santa Cruz, que sofreu com a queda um ano antes. Hoje firme na elite, o Fortaleza passou oito temporadas na Terceirona, batendo na trave até retornar.

Dificilmente o número de pontos necessários para se livrar da queda se afastará dos 43, média dos últimos anos. Escapam desse lado pantanoso da Série B aqueles que obtiverem, pelo menos, 37% dos pontos em disputa — o que não conseguiram na temporada passada os tradicionais Figueirense e Paraná Clube, que neste ano vão encarar a ainda mais dura realidade da Série C.

Um exemplo recente dos “perigos” da principal divisão de acesso no Brasil é o Cruzeiro. Rebaixado em meio a um caos administrativo — que chegou ao campo — em 2019, a equipe mineira não voltou à Série A na temporada seguinte e passará o ano do centenário na Segundona.

— A principal armadilha para clubes como Botafogo, Cruzeiro e Vasco é se acomodarem na ideia de que somente a camisa vai fazer com que o resultado venha. Quando um clube desses cai, é em virtude de erros que vêm sendo cometidos por vários anos. Um clube não cai pelo planejamento errado de um ano. Assim como clubes que ascendem de séries inferiores não chegam lá por um ano extraordinário — diz Marcelo Segurado, executivo de futebol com dois acessos na carreira: pelo Goiás, em 2012, e pelo Ceará, em 2017.

Queda de receita

Além do claro prejuízo esportivo e na visibilidade, os clubes deixam de arrecadar uma fatia generosa de direitos de transmissão estando na Segundona. Pela temporada 2020, cada time da elite arrecadou, no mínimo, R$ 22 milhões de cotas fixas, valor que ainda é somado a outras variáveis, como de desempenho, e pode mais do que dobrar, na maioria dos casos.

Na Série B, por outro lado, os clubes recebem valor fixo em torno de R$ 7,5 milhões pelo acordo coletivo, embora possam optar por negociar separadamente. De qualquer forma, a diferença de aportes é nítida, e mudanças de curso, como os amplos cortes de custos nos elencos e nos quadros de funcionários de Vasco e Botafogo, realizados nos últimos meses, mostram isso.

— Você trabalha com uma receita cinco vezes menor, e isso faz com que clubes menores, que já estão acostumados a trabalhar com esses valores reduzidos, não sintam tanto. As dificuldades financeiras são grandes, mas devem ser trabalhadas. Elas não podem ser um fator que venha interferir no rendimento da equipe ao longo da competição — diz Segurado.

Ainda que as condições de trabalho sejam conhecidas pelos clubes menores, isso não impede que o caminho ao longo das 38 rodadas seja árduo. Na atual temporada, a expectativa é que ele seja naturalmente complicado pela inédita presença numerosa de gigantes. Com a pandemia do novo coronavírus, que inviabiliza a presença de torcedores nas arquibancadas, o aspecto financeiro também sofre:

— A gente tem o nosso torcedor como principal receita, então acaba prejudicando muito. Nesses jogos contra Botafogo, Vasco e Cruzeiro teríamos uma receita muito importante para o clube. A gente contava muito com isso — lamenta Bittar.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos